27º livro do ano

"Domitila - A verdadeira história da marquesa de Santos", de Paulo Rezzutti
A história brasileira sempre foi uma especialista em criar heróis, ou sempre tentou criar mitos, tentando igualar-se a outros países em que as histórias tem mais glamour e requinte (ou assim nos foi contado...afinal, é história!).
 Na contramão deste velho hábito, um personagem que sempre despertou amor e ódio (possivelmente mais este segundo) foi a famigerada Marquesa de Santos. Esta mulher, Domitila de Castro Canto e Melo, nascida em São Paulo em 1797 e onde também morreu em 1867 foi sabidamente amante do Imperador D. Pedro I por 8 anos(!!!). Teve filhos com ele, reconhecidos. O casal nunca foi muito afeito a discrição e, apesar da sabida tolerância com os homens desta época quanto a relacionamentos extraconjugais, este, como não poderia deixar de ser, representava um escândalo na  corte, temperado com cartas apaixonadas trocadas pelos amantes, todo o tipo de fofoca e atingiu níveis internacionais de comentários... A Imperatriz, D. Leopoldina, uma austríaca culta, nascida e criada para ser princesa, padecia a olhos vistos a humilhação de ver o marido ostentar uma amante a ponto de dar-lhe títulos de nobreza (não só a ela, mas estendidos a sua família), propriedades, jóias... A Marquesa morava no palácio ao menos uma vez por semana, já que era a primeira camareira da Imperatriz. Maior afronta poderia haver? Não bastavam viagens em que ela não era incluída e vistas constantes do marido à amante...
Domitila tem uma história apaixonante. Era dona de uma forte personalidade. Foi humilhada pela posição de "a Outra" que ocupava, mas aproveitou-se dela durante oito anos, até ser praticamente banida do Rio de Janeiro afim de não atrapalhar o novo casamento de D. Pedro, após a viuvez...da qual, inclusive, foi culpada por muitos, pois alegava-se que o desgosto de Leopoldina fora tanto que ela morreu... Do que chamaríamos de depressão nos dias de hoje.
A volta de Domitila a São Paulo, mais uma vez, suscitou diversos julgamentos. Muitos a ignoravam nas convenções sociais, mas Domitila era ... uma forte!
O Solar da Marquesa, no coração de São Paulo

 Se refez, contrariando tudo, casou-se com Rafael Tobias de Aguiar (conhecido de nós, paulistanos, como o patrono da ROTA, polícia especializada de São Paulo e na época das núpcias, como "o reizinho de São Paulo", só para se ter uma ideia da importância do marido de Titila...)
Outra vista do Solar. Hoje faz parte do que chama-se Museu da Cidade de São Paulo, um conjunto arquitetônico que, espalhado pela cidade, conta sua história.



O melhor do livro é a maneira como o autor, Paulo Rizzutti nos conta a história, em muitos momentos cômicos como somente os bons romances podem ser...Todos os fatos tem embasamento histórico, fontes citadas. O que é boato é assim citado, o que é comprovado tem a fonte devidamente creditada.
Livro maravilhoso, delicioso, curioso.
Melhor lê-lo antes de definir-se "marquesista" ou "anti-marquesista".
Ela teve suas fraquezas e falhas, sem dúvida, mas sua indiscutível inteligência e sagacidade  fez  com que ela tornasse se um mito, uma figura histórica; retrato de um país que hoje ainda busca ser levado a sério até por si mesmo. Uma mulher de posses, capaz de discutir política, ajudar os pobres...
Excelente leitura!
Para finalizar este humilde post, transcrevo uma citação retirada do livro, mais especificamente no Apêndice I, "A Marquesa de Santos e a cultura brasileira", pág. 267, que diz:
"No México existe a crença de que cada pessoa morre três vezes:
A primeira é no momento em que suas funções vitais cessam.
A segunda é quando seu corpo é colocado na tumba.
A terceira acontece em algum momento no futuro, no qual o nome do falecido é pronunciado pela última vez.
Aí então a pessoa realmente morre."
Domitila é eterna...

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