2º livro de 2014

"Nossos anos verde-oliva", de Roberto Ampuero
Comprei este livro em agosto do ano passado movida por minha curiosidade em saber mais sobre Cuba e, especialmente, Fidel Castro. Já tive alguns debates interessantes sobre a ilha e sua forma de governo, pois não consigo compreender como este tipo de regime perdure por tantos anos.
 Hoje em dia, Fidel é apenas o arremedo de ser humano que já foi um dia. Está velho, doente, não caminha com as próprias pernas e tem que aparecer para que se tenha certeza de que está vivo. Sei muito pouco sobre o golpe que aconteceu em Cuba e que trouxe-lhe o poder para discutir com propriedade sobre o assunto, mas já ouvi dizer tanta coisa (há muitos anos, houve um congresso de educação aqui onde moro que contou com a participação de educadores cubanos. Eu já era professora, mas não participei. Dois anos depois, ainda era possível ouvir sobre o espanto das professoras ao verem estojos cheios de canetas com diversas cores, lápis e borrachas quando lá cada uma tem uma caneta; ou então do desejo de se beber coca-cola, coisa tão trivial para nós. Fora lendas urbanas(?) sobre professoras universitárias que se prostituíam à noite para complemento de renda. Mas aí eu já não sei se é fato, como a história de que todo comunista come criancinha...Há exageros de ambos os lados e cada um quer provar a todo custo que o outro é pior.)
O livro traz o emocionante e interessante relato de Roberto Ampuero, que se exilou em Cuba (após sua passagem pela Alemanha Oriental) saído do Chile de Pinochet e sua sanguinária ditadura e chegou à ilha com todos os sonhos socialistas que um jovem de vinte e poucos anos pode ter com relação à Revolução. É um romance autobiográfico que precisou de alguns pequenos ajustes para poder ser publicado sem prejudicar ninguém. Afinal, resquícios desse tipo de abuso de poder existem e pessoas ainda poderiam ser perseguidas por isso. Mas isso não diminui o brilhantismo da obra que vai nos mostrando de uma forma muito natural o crescente desencanto de Roberto com o tipo de realidade com a qual se depara . Vivenciar a falta de comida, de produtos, de roupas para a grande massa enquanto os que estão no poder vivem nas mansões daqueles que abandonaram a ilha, comem lagosta e sorvete, viajam e tem acesso aos bens que o capitalismo proporciona enquanto exigem um pouco mais de sacrifício do povo até que tudo se normalize... É revoltante!
E é essa desilusão que faz Roberto tomar uma decisão: sair da ilha. E aí se depara com outra surpresa: o cidadão pode até ser contra o regime, mas ficará preso à ele para não prejudicar a Revolução. Ninguém sai da ilha a não ser que se obtenha autorização que, como se pode imaginar, é quase impossível.
A lavagem cerebral que se faz com essas pessoas a ponto de se delatar o amigo, a mãe ou o irmão em troca de um cargo, a espera pela visita de parentes que podem trazer um calçado ou um brinquedo novo, arriscar-se ir preso para salvar livros que seriam destruídos pelo bem da"Revolução"...tudo o que nos parece um roteiro de filme sobre distopias ou prisões Ampuero narra como o cotidiano da ilha de Fidel. Emocionante e apaixonante seu relato.
Quero deixar claro que não sou comunista, nem socialista. Também não acredito no capitalismo. Vivo em uma sociedade capitalista desde pequena e seria ingenuidade de minha parte achar que essa loucura que vivemos com a riqueza concentrada nas mãos de poucos e que o salário que o povo recebe por horas de trabalho é o ideal. Afinal, aqui também temos fome, miséria e nossa pirâmide social é estagnada. As chances de um pobre enriquecer são quase nulas. Está certo que estamos vivendo uma situação de estabilidade econômica, mas por quanto tempo? Essa incerteza nos acompanha desde sempre: a qualquer momento, tudo pode ficar muito ruim para a maioria da população.
O verdadeiro regime de governo capaz de equalizar a sociedade ainda não foi criado.
Também quero falar de Fidel. Ele se tornou um mito. Mesmo a descrição que o autor faz dele no livro mostra que esse homem tinha uma aura de ... de alguém "escolhido", seguro, poderoso, certo. Vejo Fidel daquele tempo como um homem duro, capaz de conseguir o que quisesse. Mas também encantador, simpático, inteligente. Um homem que valeria a pena conversar. E ele seria capaz de fazer isso por horas! Mas, o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente e acredito que ele, como ser humano que é, não fugiu a essa regra. Mas tenho certeza que teve apoio de muita gente, gente inclusive que deve ter passado fome na ilha, mas nunca quis abandoná-la pois isso seria trair O Comandante.
Lamento profundamente que tantos outros optariam por sair de lá e, por causa dessa política funesta, ainda estão presos e sendo perseguidos. Espero que não como antes, afinal hoje em dia existem diversas armas para se combater essa tipo de acontecimento (nem sempre eficazes, é certo, mas hoje ao menos a possibilidade de tentar...) Mas, ainda assim, imagino que haja muita vigilância, muitas ameaças veladas ou não...enfim, o livro me fez refletir no decorrer de uma leitura absolutamente deliciosa!
Você tem uma aula de história e nem percebe.

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