Big Brother, intelectualidade, sociedade e o grande nada

Estive aqui, eventualmente raciocinando sobre uma coisa e resolvi escrever para clarear as ideias...
Hoje começa um programa que a maioria dos brasileiros conhece, afinal está no ar desde o ano 2000: o Big Brother Brasil, resumidamente BBB. O nome tem inspiração no livro "1984", de George Orwell, uma distopia que trata de um futuro então distante ( o livro foi publicado em 1949) onde todos seríamos constantemente vigiados pelo sistema denominado de "Grande Irmão" e eventualmente quem não se encaixasse seria severamente punido. (Inclusive, não posso deixar de recomendar a leitura: excelente! Um clássico que vale a pena e hoje em dia é encontrado a preços super acessíveis!)
O molde do programa exibido pela Rede Globo de Televisão vem de uma empresa holandesa, a Endemol, que inclusive vendeu esse formato de reallity show para vários países.
Até aqui, nenhuma grande novidade.
No entanto, na Rede Social Facebook notei uma certa antipatia em relação ao programa, inclusive com diversas mensagens negativas e de repugnância:
esse eu achei engraçadinho...rs
Hoje vi a participação de Pedro Bial, um profissional reconhecidamente inteligente e que ocupa o cargo de âncora da atração desde de sua estreia. Bial escreve muito bem, em sua época de repórter cobria eventos considerados históricos ou marcantes para a história do Brasil e do mundo (me lembro dele cobrindo a queda do muro de Berlim....estou ficando velha!) e, após sua ida para o BBB ficou retratado como "pseudointelectual", afinal, o que alguém dotado de tamanha inteligência faria neste tipo de entretenimento?
Após estas considerações iniciais, eis aqui o que tem me feito refletir:
O BBB tem uma fórmula desgastada. A maior parte dos países que tiveram seus Big Brother (Holanda, Itália, Portugal, EUA, França, Espanha...) já não exibem mais edições do Reality Show. No entanto, aqui já estamos seguindo para a 14ª edição! E todo ano é o mesmo burburinho: quem saiu, quem fez vexame, quem fez sexo, quem assiste e quem não assiste. Deve-se levar em conta que a Rede Globo é, de certa forma, a dona do Brasil. Um programa exibido por ela tende a ser pauta em programas concorrentes, ocupar páginas de revistas e gerar debates em diversos círculos, desde os mais simples até os mais intelectualizados, o que por aí já representa um faturamento enorme para a emissora, adepta desde sempre do "falem mal, mas falem de mim". É a emissora mais rica do país, deve figurar entre as mais ricas do mundo, tem um padrão de qualidade e produção que está muito além de todas as outras. Inatingível para a maioria. Tudo isso contribui, sem dúvida, para a longevidade do BBB. A Rede Globo sabe produzir e alia-se a isso ainda o fato de que o brasileiro ( eu sou brasileira, só pra lembrar...) tem mania de televisão. A TV tem que estar ligada, mesmo que não haja ninguém em frente à ela ou que nada de interessante esteja passando. Com algumas poucas mudanças, a Vênus Prateada será a escolhida para fazer companhia... Faz pouco tempo que o brasileiro aprendeu a trocar de canal.
Não sou intelectual. Em nosso país, o fato de uma pessoa gostar de ler faz com que ela seja vista como alguém "superior", o que não caracteriza de maneira alguma uma verdade. Também não sou fã de BBB, mas estive pensando: vivemos uma época complicada, pautada pela aparência. Não importa o que você é, importa o que você parece ser. Assistimos, diariamente, a sociedade se corroer no que tange as relações, as exigências, a moral, a ética... tudo está se modificando de tal forma e com tamanha ligeireza que vamos sendo atropelados por essa nova forma de ver o mundo, que não é positiva somente por ser moderna. É uma modificação.
Lembro-me que assisti a várias edições do programa e realmente eu acreditava que aquelas situações eram reais. Posso parecer um pouco ingênua, mas acredito que de fato eram: era o início de uma era, a internet e as TVs por assinatura não eram acessíveis. Poucos já tinham assistido a esse formato de programa, o conceito de Reality era muito novo para o público brasileiro. Então, a possibilidade de que os participantes estivessem realmente sendo verdadeiros (dentro do que se pode ser verdadeiro com dezenas de câmeras atrás de você) era mais plausível. E se você analisar os primeiros BBBs, você conseguirá notar a diferença. Com o passar do tempo, foi possível analisar as melhores estratégias para vencer, saber qual é o tipo de pessoa que consegue angariar a simpatia do público e assim por diante. Quem é selecionado já entra lá sabendo qual personagem representar. Lembro-me de duas edições (que não sei especificar quais foram) em que foi feito um sorteio para colocar além dos "selecionados" (que, sem dúvida, sempre foram pessoas bonitas e diferentes, mas que ultimamente tem exagerado no quesito superficialidade) pessoas de verdade: gente pobre, que não usa roupa de grife, não é viciada em malhação e que o conceito de "balada" era um churrasco na laje. Consequência: nas duas edições que isso aconteceu, quem ganhou não foi o mais briguento ou a mais dengosa ou a mais pelada: foi a mais necessitada. Até ali, eu acho que não havia manipulação de resultado, ou talvez ela não fosse tão escandalosa como supostamente é hoje em dia. Lógico, sempre haverá a edição de imagens que tende a favorecer algum escolhido, ou eleger o bandido ou o traíra, a falsa e assim por diante. O diretor do programa, Boninho, brinca de ser Deus e um montante de pessoas se deixa levar por essa ilusão de quem é quem, quem é verdadeiro e quem não é, achando que realmente está votando para tirar alguém ou deixar alguém lá.
O programa é uma exposição de nossa sociedade, da superficialidade e da valorização da imagem construída: as mulheres são perfeitamente lindas, os homens idem. Falam errado, mas não pensam duas vezes em tirar a roupa. Na primeira semana de confinamento já há as "paixões" avassaladoras (e eu que não acreditava em amor à primeira vista...), sexo debaixo de edredom, festas com bebidas à vontade onde rola solta a "azaração" (que consiste em mãos e esfregações que eu, sinceramente, não imaginei que rolassem em baladas. Pelo menos não assim, tão despudoradamente...) A sociedade assiste a si mesma e deseja ardentemente estar lá, nas festas, recebendo a visita de artistas, comendo e bebendo de graça enquanto exibe seus esculpidos corpos a beira da piscina... Há uma banalização generalizada de tudo: do corpo, do sexo, da amizade, do dinheiro...
É a ode ao ócio improdutivo, um desserviço para nossos jovens já tão ocos por "n" motivos.
Poderia ser interessante. Aliás, pode ter sido interessante, mas já passou o tempo e a oportunidade de sê-lo. Agora é só essa desvalorização do ser humano, de sua moral . o recado fica muito claro: olhem bem para o que somos. Se você não vê nada ali, saiba que infelizmente é isso que estamos nos tornando.
Mas, diga-me: no que o BBB é diferente da novela das nove? Afinal, ali os participantes também estão representando. Ai você critica o BBB porque só mostra "baixaria" mas não vê a hora de ver o que o Félix vai fazer logo mais?
Me poupe!
Incoerência, teu nome é Brasil!
Não vou acompanhar, mas não me julgo melhor nem pior do que quem acompanha.
O debate sobre tudo isso é bem mais profundo...

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