7º livro do ano

"A carne e o sangue", Mary Del Priore
Eis me aqui, mais uma vez, dedicando meu tempo a este triângulo amoroso tão brasileiro e encantador... e sem nenhum tipo de arrependimento. Nada mais encantador do que as histórias do cotidiano. Nós é que não prestamos muitas atenção nisso, mas tem muita coisa acontecendo por aí bem melhor do que novela...
 "A carne e o sangue", de Mary Del Priore, desdobra de forma apetitosa o cenário histórico e político do Brasil da época de D.Pedro, D. Leopoldina e ela, a devassa das devassas, a preferida, a madame....Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos! A autora, renomada historiadora brasileira, vai tecendo ponto a ponto um gigantesco cenário cheio de fofoca, intriga, sexo, amor, traição, volúpia...sentimentos tão humanos!! A maneira como ela desenha cada acontecimento - o comportamento do Príncipe, depois Imperador, o aparecimento de Domitila na vida de Vossa Majestade, Leopoldina tão silenciosa e aceitando tudo com uma calma perturbadora- vai nos dando uma dimensão tão  real do que de fato parece ter acontecido que fica difícil compreender porque tão pouco se escreveu ou filmou-se sobre este relacionamento. É encantador ver como Domitila só usou a seu favor o próprio desejo desenfreado de D.Pedro e como esse homem sem um pingo de compostura de realeza foi matando, pouco a pouco, o amor e admiração que sua esposa, D. Leopoldina, nutria por ele desde de sua chegada da Áustria, carregando o nobre sangue dos Habsburgo.
Sou suspeita em narrar qualquer tipo de comentário à Titília. Não consigo enxergá-la como vilã nesta história de amor e interesse. Sou mulher, não vejo como pode ser fácil uma devoradora entrar na vida de um homem comprometido - CASADO, melhor dizendo- e destruir tudo pouco a pouco. Lógico que me coloco no lugar de Leopoldina. Acho absurda a passividade com a qual ela assistiu a tudo. Compreendo a época, a religiosidade, mas mesmo assim a estoicidade com a qual ela suportou humilhação após humilhação mais me revolta do que emociona... A Marquesa me parece apenas usurpar do amor doentio que D. Pedro sentia por ela. E olha que estamos falando de um homem que colecionava amantes e de uma época em que isso era tido como o comportamento comum. Mas ela foi diferente. Se uma mulher pode sentir pena da situação de Leopoldina, é impossível que não sinta inveja ou admiração por Domitila. Ela assumiu o posto de preferida e tirou dele todas as vantagens que pode. E, não bastando isso, ao ter que voltar a São Paulo - praticamente banida da corte do Rio de Janeiro quando das segundas núpcias do Imperador - a Marquesa se refez, casando-se com um homem que foi governador da província por duas vezes. Virou paulista admirada, benemérita de várias causas, mulher rica e independente e reconhecidamente bonita para os padrões da época, apesar do avanço da idade. Como não amar? Minha admiração e um pouco mais sobre Domitila eu já publiquei aqui.
Posso tecer aqui diversos comentários e pensamentos, mas o principal é que é necessário  ler muito para se ter uma opinião sobre cada um dos envolvidos. 
Na minha modesta opinião, ainda sem grandes embasamentos e por isso, passível de se modificar, Leopoldina foi a maior vítima desta história, mas como ela mesma disse : princesas eram principalmente joguetes naquela época, úteros a serviço de coroas e interesses diversos. Foi passiva e conformada, apesar de ser uma mulher culta e inteligente. Mas, era austríaca...não entendia da malemolência, da malandragem e do fogo que assolava (?) esse país extremamente tropical... Seu sangue azul era um tanto frio para nossos padrões...
D.Pedro era um homem... Aproveitador. Aproveitava-se de sua coroa, de sua posição e influência. Mas, verdade seja dita, ao que tudo indica, nunca estuprou ninguém. Quem com ele deitou-se, fez porque quis. Então, fica difícil dar um veredicto definitivo. Ele era um homem livre, jovem, numa terra desconhecida e sem muitas leis... Talvez também não seja tão pecador assim. OU nem tão diferente dos homens poderosos de hoje em dia...
E Domitila... Bem, ela era uma mulher forte, de fibra e consciente do que queria alcançar. Já havia se livrado de uma casamento, os anos que passou como amásia só lhe fizeram bem: era a favorita, andava coberta de jóias e sedas importadas, fez a vida de grande parte de seus parentes e filhos, mesmo aqueles de seu ex-marido. Não tinha sangue nobre e sua família tinha posses. Talvez merecesse melhor sorte do a de ser apenas a concubina...
Enfim, o livro mais uma vez foi apaixonante como tudo o que se refere a história. Não apenas a essa história, mas a toda a nossa história. Mary coloca curiosidades da época, peculiaridades da corte e da sociedade e vai tecendo uma trama tão fechada e firme em si mesma que é impossível não se apaixonar.
Experimente. Mesmo!

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