12º livro do ano

"Holocausto Brasileiro", de Daniela Arbex
Livro denso. Tenso. Triste.
Necessário.
Nós, brasileiros, temos a impressão de vivermos no melhor país do mundo. Ou tínhamos. Aqui não há guerras, vulcões, terremotos... e por muitos anos preferíamos olhar para fora e lamentar todos os flagelos que existiam em outros países do que voltarmos o olhar para nossas próprias mazelas. Fome? Na África. Genocídio? Na Alemanha. E por aí vai... Talvez isto esteja se modificando agora, com uma nova geração de pessoas que estão reavaliando o que é de fato viver no "melhor país" do mundo.
Talvez por ter crescido nos anos finais da ditadura e ter vivido a infância vendo o Brasil tentar recuperar o tempo perdido, esse sentimento de país perfeito não conseguiu ser tão introjetado em mim. E hoje, com a proximidade da Copa do Mundo sediada por aqui, o que vejo é uma mídia calhorda tentando fazer com que o povo - com um nível de criticidade infinitamente maior do que há 30 anos atrás, que enxerga que o fato de sermos privilegiados pela natureza não muda em nada a corrupção que nos assola, a violência que nos domina, o poder público que não corresponde a qualquer anseio de um povo em sua maioria pobre e sem quaisquer perspectivas - aceite que somos "presenteados" com a Copa do Mundo de Futebol sendo aqui realizada...
E, ao ler "Holocausto Brasileiro", uma revolta e uma tristeza desmedida tomou conta de mim.
O conceito de eugenia apareceu por aqui no inicio do século XX, apenas como um reflexo do que acontecia em outros países. Lógico que, raciocinando hoje em dia, isso seria impossível  já que o Brasil é um povo totalmente miscigenado... Será que seria tão impossível assim?
Este livro prova que não. E que a eugenia segue "namorando" muito proximamente conosco, talvez acontecendo de uma forma tão comum que passamos a não enxergá-lo.
O subtítulo do livro, "Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil" já diz muito. Por anos desde a sua fundação em 1903 passando por sua gradual desativação a partir de 1980 até as últimas celas em 1994, o Colônia, como ficou conhecido, abrigou milhares de pessoas, muitas destas sem nenhum histórico de doença mental. Pessoas eram enviadas para lá apenas por representarem um empecilho para as famílias, por serem excessivamente tímidas, por terem sido estupradas por seus patrões e estarem grávidas, por estarem no centro de uma briga por herança... Enfim, tudo ou nada - era motivo  para ser enviado para um lugar em que se dormia em cima de palhas, se bebia água de esgoto, se andava nu numa cidade serrana em que as temperaturas são muito baixas no inverno. Onde você era dopado, poderia ser lobotomizado ou "tratado" com eletrochoques. Onde se entrava para ficar ali 20, 30, 40 anos sem receber visitas, sem ser procurado. A jornalista contabiliza pelo menos 30 nascimentos dentro do Colônia. Os bebês eram tomados das mães sem nenhum aviso prévio. Crianças ficavam entre adultos. O ambiente era fétido. Urubus ficavam pelos muros, observando. A comida parecia lavagem, tinha que ser triturada, pois muitos internos não tinham dentes. Corpos eram vendidos para faculdades, gerando lucros absurdos, pois a "produção" de corpos era altíssima. Se morria de frio. De diarreia. De infecções facilmente tratáveis.
Chocante.
Eu fiquei estarrecida com o que li e com o que vi, pois o livro tem muito material fotográfico, o que torna tudo ainda mais estarrecedor. 
Ninguém olhava para o Colônia. 
Muitos lucravam de alguma forma com o Colônia. 
A ignorância de uma nação de famintos e pobres só fazia aumentar a tragédia: muitas mães achavam que o Colônia era uma lugar que iria "cuidar" do seu filho tímido, calado ou rebelde e o enviavam para lá...para nunca mais conseguir vê-lo.
Auschwitz choca. É uma tragédia que envergonha a humanidade. Mas e o Colônia, que aconteceu aqui, debaixo de nossos olhos?
Eu fiquei impressionada com o que li, com os relatos de sobreviventes e de ex-funcionários do Colônia. Tudo de mais horroroso que se possa pensar contra a vida humana aconteceu ali.
Hoje, Barbacena, a cidade das Rosas, abriga o Museu da Loucura no prédio onde funcionava o manicômio. Uma lembrança para que não se enterrem a tragédia que aconteceu lá. 
É um livro muito bem escrito, por uma jornalista premiada. Mas, sem dúvida, uma das histórias de horror mais assustadoras que eu já li.
É fácil achar material sobre esse lugar macabro. Vou apenas sugerir aqui e aqui, mas não deixe de ler o livro. Nada substitui uma boa leitura. 
Especialmente se ela te faz refletir.

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