6º livro do ano

"Conversas com Kubrick", Michel Ciment
Eu estive na Terra nos últimos 37 anos e por isso ouvi falar de Stanley Kubrick e seus clássicos. Por motivos que somente a vida explica, contudo, apenas fui ter contato coma obra dele por ocasião de meu casamento, há seis anos atrás. Meu marido, esse sim, um fã ardoroso. Tornei-me uma admiradora do trabalho de Kubrick após assistir seus filmes que redefiniram o meu modo de olhar o cinema. Obras- primas, sem dúvida, cada uma de um estilo, mas todas contornadas pela perfeição. Já elegi meus favoritos ("O iluminado" e "De olhos bem fechados"), mas todos, todos seus treze filmes valem uma conferida. Curioso nenhum deles ter sido premiado com o Oscar em qualquer quesito - qualquer um seria justo. Implicância ou injustiça? Kubrick era muito diferente do que Hollywood estava acostumada. Enfim...
Após esse contato, passei a ler e tentar saber mais sobre  Kubrick. E me surpreendi: alguns artigos dizendo que ele era difícil de conviver, obcecado, perfeccionista de modo doentio... Que alguns atores choraram com suas explosões bruscas e exigentes a um nível sobre humano... Inclusive li que algumas pessoas o consideravam autista, pois ele não tinha contato social e procurava sempre estar isolado de convivência. Um retrato feio para um artista tão ímpar, talvez adequado aos "artistas" de hoje, cheio de exigências e manias estapafúrdias que garantem seus minutos de fama de quando em quando. Mas também um retrato fácil de comprar, pois Kubrick é excelente no que faz e um certo grau de excentricidade combinaria com a personalidade formada pela mídia.
Mas aí...
Ganhei esse livro este ano (aniversário de casamento em março) e a leitura dele foi maravilhosa. Kubrick é um mito, este fato é inegável, mas uma pessoa comum, querida por alguns, odiada por outros e que buscava fazer seu trabalho movido por paixão... e muita, muita razão. Como qualquer outra pessoa tinha sua personalidade, mas preferia que seus filmes brilhassem, não ele (viu, Lars Von Trier, que legal?) Não gostava de entrevistas, a não ser nos lançamentos de cada trabalho, era alheio a holofotes, mas não um isolado. Muito inteligente, lia de maneira compulsiva. Era um mestre no xadrez. Mantinha contato com amigos depois da mudança para Londres. Amava a fotografia e traçava objetivos. O roteiro de "De olhos bem fechados" foi feito nos anos 1960 e sua produção só aconteceu  nos anos 1990, mais especificamente o lançamento do filme foi em 1999, três meses depois da morte do diretor. Sem pressa: se não fosse para ser perfeito (aos seus olhos) não seria feito.

Tom Cruise, Nicole Kidman e Kubrick no set de "De olhos bem fechados"

O livro é uma compilação de entrevistas cedidas ao jornalista Michel Cement por Kubrick e por pessoas que trabalharam com ele (atores e produção). Também há alguns depoimentos e fatos acontecidos durante as filmagens de cada um. É uma reconstrução da personalidade que foi "construída" para ele, de uma pessoa dura e problemática. A maior parte das pessoas fala de uma pessoas dedicada, que queria o melhor de tudo o que fazia, que tinha muita atenção e consideração pelas pessoas que estavam com ele. Com alguns rompantes, é certo, mas quem nunca?
Uma coisa que destaco é que Kubrick fazia questão de estar envolvido em TODOS os processos de produção do filme, todos: fotografia, figurino, edição e qualquer outro que exista. Todos. Conversava com atores, orientava, tentava buscar lembranças pessoais que pudessem acrescentar à interpretação. Um pai de todos, mas sem muita emoção barata. 
Jovem Stanley, apaixonado por fotografia.
Um incompreendido. Diferente.  
Apenas a convivência com um ser humano acima da média poderia ser usada como referência para explicar Stanley. Um mestre. Um homem. Um mito.
Stanley e sua esposa com uma linda foto de Jack Nicholson, no set de "O iluminado".

Vale cada linha!
De 0 a 10: 10, com louvor!

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