20º livro do ano

" As Virgens Suicidas", Jeffrey Eugenides
“As virgens suicidas” já chama a atenção pela originalidade do título. Mas é muito interessante como esse romance de Jeffrey Eugenides vai se desenvolvendo...

(Ah, tem filme baseado na história, com direção de Sofia Coppola, lançado em 1999, com Kirsten Dunst e James Woods. Não assisti ainda... Mas vou dar uma chancezinha... rs  Odeio as adaptações que aparecem por aí. Enfim. A história é boa, mas esses roteiristas conseguem destruir histórias boas, né? Vamos ver...)

Cecília, 13, Lux, 14, Bonnie, 15, Mary, 16 e Therese, 17 são as lindas e loiras adolescentes da família Lisbon, moradoras de um subúrbio estadunidense na década de 1970. A descrição nos traz aquele típico subúrbio perfeito: casas perfeitas, com famílias lindas e bem estruturadas, ruas limpas e arborizadas, típico cenário idealizado estadunidense. Filhas de um casal rígido em sua educação, o pai professor de matemática e a mãe uma dona de casa religiosa, elas chamam a atenção pela beleza. São adolescentes aparentemente normais, porém,  tolhidas pela mãe  vigilante e preocupada em ocultar as belezas das meninas, proibindo rock, saias curtas, maquiagens, revistas femininas...
Todo o mundo perfeito é abalado com uma tentativa de suicídio de Cecília, a garotinha mais nova. Após esse acontecimento (logo no início do livro), a família fica abalada obviamente, mas ainda assim segue a vida.
O livro é narrado pela ótica de quatro amigos que eram obcecados pelas irmãs. Eles vão contando  toda a história como se estivessem apresentando um processo, com “peças”, ou seja, objetos e fotos das meninas Lisbon que eles foram coletando no decorrer dos anos. Maquiagem, fotos da casa, objetos encontrados pelo caminho... Pequenos tesouros dos meninos, agora homens, mas ainda tentando compreender as meninas Lisbon.
 Voltando:
Cecília, no hospital ainda, quando questionada pelo médico sobre o porquê disso, já que ela tão jovem não pode conhecer as agruras da vida, tem como resposta uma frase que está se tornando clássica: "Bem se vê que você nunca foi uma menina de treze anos, doutor." Lógico que após isso, muitas coisas são questionadas: o que leva uma menina tão nova a tentar tirar a própria vida? Especialistas e curiosos passam a criar as mais diversas teorias do que pode ter motivado isso, sempre tendo como foco o estilo de vida dos Lisbon, recatados e religiosos.
Acontece que, duas semanas depois, Cecília atinge seu objetivo. Ou seja, ela não era uma menina querendo chamar a atenção, ela realmente queria morrer. E morre.
É interessante que, durante o desenvolvimento da história começa a surgir a possibilidade de ela ter espalhado o "vírus" do suicídio pela casa. Como se a ideia tivesse surgido a partir da atitude de Cecília. Eu, pelo menos, fiquei me perguntando se não era uma possibilidade aventada entre elas cinco, já que não sabemos o que se passava dentro da casa, só temos a visão que os meninos tinham ao vigiar a casa e os passos das meninas. Como eu disse, muitas possibilidades psicológicas...

A vizinhança fica em polvorosa, até mesmo a imprensa aparece na porta da casa dos Lisbon. Com discrição, mais uma vez, eles tentam acalmar a situação o quanto antes, voltando para sua reclusão de sempre.  Algum tempo depois, durante uma festa de formatura que parece ser a chance das Lisbon restantes voltarem a viver, pois depois do suicídio da irmã elas passam a ser párias dentro da sociedade, ou dignas de pena ou sendo evitadas, um acontecimento muda todo esse cenário. Após isso, as meninas passam a não serem mais vistas: são trancadas dentro de casa, não vão mais à escola e nossos narradores passam a descrever como a dilapidação da casa transparece  o que pode estar acontecendo com aquela família.  

O livro me deu um pouco de angústia, porque você fica esperando uma reação mais... mais... emocional: que alguma das meninas tenha uma crise de choro, de raiva, qualquer coisa que demonstre que elas estão SENTINDO algo. Elas parecem sempre distantes, indiferentes... na verdade, toda a família parece ser meio desligada uns dos outros. A pressa em retomar a vida após a morte da Cecília, aquele verniz de normalidade, como se nada estivesse acontecendo vai dando uma angústia, uma vontade de entrar lá e dizer "PELAMORDEDEUS, REAJAM!" Mas é uma reação emocional minha, e este é um livro muito emocional. 

Os acontecimentos, a forma como eles vão se desenrolando são tão marcantes que os narradores se encontram anos depois, já adultos, para discutir sobre as meninas Lisbon. Aparentemente, não é a primeira vez que eles fazem isso, como se fosse um clube de tentativa de entendimento do que a rápida passagem das meninas significou, tamanha a fixação deles pelas Lisbon. Citam, inclusive, tratamento com psicanalistas para conseguir viver com a lembranças das 5 garotas. Os personagens são complexos, você consegue compreendê-los ainda que você não concorde muito com eles, como a proteção intensa dos pais, a aparente indiferença das irmãs à morte de Cecília, o interesse meio velado da vizinhança nos acontecimentos da casa, o pai continuar trabalhando normalmente... As meninas, especialmente a Lux que é a mais rebelde, tem sede de viver. E essa sede não saciada acaba se tornando uma revolta que eclode com uma tragédia. Alguns acham que era uma tragédia anunciada. talvez nãos seja tão simples assim.

É um livro muito interessante, apesar de ser meio denso é gostoso de se descobrir o que vai acontecer, ou melhor, COMO vai acontecer. Porquê o que vai acontecer, você já sabe. 

Vale muito a pena ler!

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