21º livro do ano

"Sobre a escrita - a arte em memórias", Stephen King
Ler Stephen King é um exercício de imaginação. Ele constrói uma trama que vai envolvendo o leitor, te coloca dentro da história e faz com que você possa escolher quem vai amar ou odiar e talvez compreender e rever todas essas predileções... Te mostra personagens que podem ser muito parecidos com alguém que você conhece, trabalha ou dos qual é vizinho. Ele apresenta personagens que poderiam ser eu ou você. 
Ler um conto de King ou um calhamaço de sabe-se lá quantas mil páginas tem o mesmo encanto, o mesmo sabor. Quando, em meus sonhos mais remotos, penso em escrever algo, é nele que me espelho, é a maneira que ele me envolve que eu gostaria de envolver meu pretenso leitor inexistente.
Com tudo isso, toda a minha paixão "kinguiana" bem explicada, vamos ao livro:
"Sobre a escrita", da editora Suma de Letras, traz até nós as memórias de King, mas as memórias que forjaram o escritor. É uma espécie de autobiografia. Desde a complicada infância, a companhia do irmão, a mãe sempre trabalhando e dependendo de babás ou parentes (sem marido e com dois meninos para sustentar, King fala com carinho de Ruth e dedica a ela um amor e admiração emocionantes) até os primeiros contos, as primeiras negativas de publicação (King enviava seus contos para diversas revistas e, a cada carta-resposta agradecendo mas rejeitando seu trabalho, ele colocava a carta num prego na parede. Tantas foram as missivas negativas a ponto do prego ficar sobrecarregado ...)   até o primeiro livro - Carrie, a estranha- o sucesso que dura até os dias atuais ( no livro estamos em 2000, mais ou menos, entre concepção e conclusão). King vai pintando o cenário de como o garotinho doente foi ganhando bagagem para tornar-se escritor. 
A primeira parte do livro trata basicamente dessas memórias.
A segunda parte é a que dá nome ao livro. Stephen vai cuidando de explicar o que dá forma ao texto, a história. Vocabulário, gramática, estilo, ritmo, entre outros detalhes, vão sendo dissecados e exemplificados por King, dando uma dimensão de como ele constrói suas histórias, como tudo vai se formando em sua mente e depois no papel. É muito interessante ler isso, porque, como ele mesmo diz, não há um segredo a ser compartilhado ou uma fórmula mágica que fará acontecer. Exige, sim, certa rotina, dedicação, sinceridade e muita paixão. Paixão por escrever, por contar aos outros o que sua mente está pensando. 
A parte que mais gostei foi quando ele fala da sinceridade. O escritor deve ser sincero, deve ser o mais próximo do real. Escrever um diálogo, relê-lo e pensar: alguém falaria assim? Ou melhor, EU falo assim? Não rebuscar demais, não "firular" demais. No final, a única coisa que importa mesmo é fazer com que o leitor acredite em sua história.
A penúltima parte, King fala do acidente sofrido em 1999, quando foi atropelado e quase morreu. Ele faz esse adendo porque, nessa época, este livro estava parado, esperando para ser concluído -  e ele sequer sabia quando o faria e SE o faria. Depois, durante sua recuperação cheia de dor, oxicodona e reabilitação ( a perna abaixo do joelho direito foi descrita pelo médico como "vários fragmentos dentro de uma meia", pág. 222) foi que aconteceu a retomada deste livro. Ele narrando cada etapa do acidente, desde seu socorro na beira da estrada ou pelo menos o que a memória conseguiu salvar até conseguir sentar para escrever - e sentir dificuldade nisso!!! - me deu um sentimento de compaixão e agradecimento - meu Deus, ele poderia ter morrido! Um cara de tamanho talento morrer por uma irresponsabilidade desmedida! Que bom que ele ainda está aqui! Algo a se agradecer... (sei que não é parâmetro ideal sobre quem deve ser salvo ou não, mas achei que valia a pena ressaltar...rs)
A última parte do livro traz uma lista de alguns livros lidos por King antes da publicação deste. É uma generosa lista, o que comprova uma das "dicas" que ele dá no livro: um escritor precisa ler. Ler muito, de tudo, sempre!
(Ele recomendando ler Harry Potter me fez inclusive considerar a possibilidade...rsrs)

Livro curto (basicamente 250 páginas), delicioso de ler. King se mostra bem humorado, como sempre muito à vontade em seu ofício. Não é um manual sobre a escrita, mas sim um diálogo com um dos melhores escritores de todos os tempos! Até fiz umas marcações...
Nunca se sabe, vai que um dia eu crio coragem e resolvo me arriscar de novo a escrever...rsrsrs
O livro proporciona uma leitura tão suave que a impressão de ouvi-lo. Ele conversa com você contando algumas coisas que talvez você ainda não saiba, outras para relembrar. Fala de sua profissão com uma paixão de dar água na boca. E é nesse ritmo de diálogo que as coisas vão se desenhando... Maravilhoso!
Tem um trecho (entre tantos que destaquei) que me chamou a atenção e por isso deixo-o aqui:

"A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita serve para despertar, melhorar e superar. Para ficar feliz, ok? Ficar feliz. (...) escrever é mágico, é a água da vida, como qualquer outra arte criativa. A água é de graça. Então beba.
Beba até ficar saciado."

Assim disse o mestre.
Sem mais.
Muito amor envolvido... <3

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