Livros de colorir, leitura e a insustentável leveza de ser

Desde o início do ano, talvez um pouco antes, uma febre tomou conta do país: os livros de colorir. No mundo todo existe esse tipo de... filão (porque não é literatura, convenhamos), mas como tudo o que acontece no mundo aqui neste país atinge níveis desesperadores, a venda desses livros explodiu a ponto de dezenas de outros títulos serem lançados logo após aqueles que puxaram a fila : "Jardim Secreto" e "Floresta Encantada", ambos da ilustradora Johanna Basford e que foram responsáveis inicialmente pelo sucesso dos livros de colorir antiestresse. 
Ooooooss livrosss.... (imagem da internet)

Eu, mais uma vez, sucumbi a esse vício. Comprei os livros (na verdade, hoje em dia eu tenho CINCO livros de colorir) e comecei a participar de grupos no Facebook e Instagram. Vi verdadeiras obras de arte, trabalhos que passavam muito longe de simples "colorir para desestressar". Pesquisei e apliquei algumas técnicas em meus livros e comecei a ver uma guerra se formando: pessoas a favor e contra os livros. Você não tem noção do quanto a internet transformou a vida das pessoas até participar de grupos no facebook. Presenciei brigas - brigas MESMO, com ameaças de processo, denúncias em delegacias, acusações de plágio, de ofensas pesadas...- em tais grupos. Lembro-me de uma que me marcou: uma pessoa disse em um post que achava "trapaça" pintar com canetinha (hidrocor) os livros, já que facilitava muito a transferência de cor. O post tinha mais de 90 comentários quando cheguei e apenas aumentava. Tantas acusações, tantas trocas de farpa, posicionamentos contra e a favor... Uma loucura! Eu, mais uma vez, apenas observei.
Em outro momento, começaram a postagem de filmagens de pessoas riscando os livros. Soou como provocação e mais uma leva de posicionamentos. Brincadeira? Zoação? Enfim...
Essa polêmica vira e mexe acontece de novo: gente a favor, gente contra, gente que pinta por pintar, gente que se esmera na técnica... Cada um é cada um, acredito eu. E tem o seu direito de sê-lo.
Eu pinto uns desenhos com técnica, outros por pintar e meus principais admiradores e avaliadores são meus alunos do terceiro ano fundamental, que também tem livros como o meu... Confesso que entrei na pilha, comecei a comprar lápis de cor além do necessário (ah, esse é outro tópico sempre polêmico nas redes  sociais de colorir: gente que compra lápis até importado para colorir e gente que pinta com os "restos" de lápis de cor do filho... Debates eternos sobre quem está certo e quem está errado..) e sigo algumas pessoas nas redes sociais que fazem trabalhos belíssimos (algumas delas são artistas mesmo, outras apenas tem o talento mas nunca investiram). Meu objetivo é terminar os dois livros que comprei primeiro e depois... não sei bem o que acontecerá com os outros.
Falei isso tudo porque eu estive pensando sobre minhas leituras.
Depois de algumas mudanças de vida, achei que este ano eu finalmente atingiria a meta de ler 100 livros em 365 dias. 
Ledo engano.
Apesar de estar mais tempo em casa, tenho lido muito, muuito menos do que eu pretendia. E foi isso que me levou a pensar: o que está acontecendo?
Vi uma propaganda na internet de uma papelaria sobre um lançamento da Faber Castell com o título "Vamos incentivar a leitura". A propaganda nem era da marca, mas da loja que, querendo chamar a atenção, colocou os lápis de cor e os livros de colorir como motivo de ler mais. Ler mais!!! A última coisa que os livros de colorir fazem é incentivar a leitura! Olha até onde vai a sordidez humana...
Existe muito preconceito com quem utiliza esse tipo de passatempo, como se fosse algo menor, baixo, desprezível. Acho bobagem isso, cada um gasta seu tempo com o que quiser! Mas todo mundo tem prazer em acabar com o outro... Aí vem alguém e diz que o livro de colorir incentiva a leitura!

Os livros de colorir incentivam a COLORIR, desestressar, passar o tempo. Os livros QUE NÃO TEM FIGURAS PARA COLORIR em sua maioria INCENTIVAM A LER. Simples assim.
Enfim...
Eu estava culpando o fato de estar colorindo por estar lendo menos. Comprar lápis, canetinha, fazer fundo, por efeito...realmente ocupou um tempo considerável de minhas noites. Mas não é só isso: estar em casa em um período que há 10 anos eu não estava me mostrou uma gama de possibilidades de gastar o tempo : TV, filmes, séries (meu Deus, as séries!!!), pintar (sim, por que não?) e... ler. Acabei delegando a leitura pra último plano. E, quando vou ler, estou cansada, com sono e... durmo! O maior pecado do leitor: dormir durante a leitura!
Fiquei com vergonha de estar vendo programa de fofoca em vez de estar lendo... Mas passados quase 10 meses nessa vida, finalmente consegui enxergar isso. Nada demais ver o programa de fofoca, é um momento de se preocupar com bobagens, colocar os neurônios para descansar. Mas eu nunca fui de renegar um bom livro. E tenho feito isso... Ou seja, meus neurônios tem descansado demais, entende?
A vida da gente é uma loucura. Fora a correria do cotidiano, que já é massacrante, quando estamos em casa há uma gama de possibilidades para passar o tempo e a internet (no meu caso) é sempre minha primeira opção, já que ela me traz todas as outras embutidas. E isso foi "comendo" meu tempo de leitura. Antes, como eu sabia que tinha pouco tempo, lia em todo momento: no ônibus, nos intervalos da escola, enquanto a água não fervia... De repente, parecia que eu tinha todo o tempo do mundo e que a qualquer momento eu poderia ler. Resumo: continuava comprando livros, mas não os lia, apenas os guardava ali na estante.
Vergonha. Sim eu sei, vergonha.
Mas, acordei.
Pelo menos acho que sim...
Vou tentar me policiar mais. Não que eu tenha obrigação de ler, mas acho que abrir mão desse "vício edificante" em prol de bobagens que pouco me acrescentam seria no mínimo questionável. Para mim.
Usei esse espaço para exorcizar esse demônio. Tenho umas ideias que quero por em prática, quero retomar meu ritmo normal de leitura e não me sentir culpada.
Espero que dê certo.
E, quanto aos livros de colorir, melhor colorir do que encher o saco dos outros. 

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