31º LIVRO DO ANO

"O NOME DA ROSA", UMBERTO ECO


Tenho este livro há alguns anos, comecei a lê-lo e acabei abandonando. Nós, leitores temos uma certa "zona de conforto": por mais que se leia de tudo (ou diga que se leia...) há sempre aquele estilo literário que vai aparecer mais na sua vida. No meu caso são os livros do Stephen King. Por isso, quando um livro exige um pouco mais de você, é necessário que a sua disposição em encará-lo esteja em um nível alto. Como não era o caso na época, resolvi deixá-lo para mais tarde, que acabou se revelando AGORA.
Iniciei a leitura em setembro, parei para fazer o meu mês do horror e a finalizei nesta última semana de outubro.
Vamos lá.

Primeiro, sobre o autor:

Umberto Eco tem tantos títulos que é até uma afronta - filósofo, escritor, semiólogo 

(semiologia:
substantivo feminino
  1. 1.
    cl.méd meio e modo de se examinar um doente, esp. de se verificarem os sinais e sintomas; propedêutica, semiótica, sintomatologia.
  2. 2.
    semio para Ferdinand de Saussure, ciência geral que tem como objeto todos os sistemas de signos (incluindo os ritos e costumes) e todos os sistemas de comunicação vigentes na sociedade. ),   
  3.  linguista, bibliófilo e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas da Universidade de Bolonha. Ou seja, estamos falando de um gênio dos nossos tempos, um homem que valoriza o saber e se dedicou a adquiri-lo. Só aí, todo o meu respeito.
Portanto, não causa grande estranheza que sua escrita não seja exatamente palatável a todos os leitores. 
Não é.
Umberto Eco abusa do direito de "esfregar na sua cara" todo o seu conhecimento ao escrever este clássico. A montagem dos personagens, suas falas são de uma tal forma rebuscadas que exige atenção e cuidado durante a leitura. A construção do texto não é fácil - há diálogos e divagações do personagem principal que duram páginas e páginas, além de trecho INTEIROS em latim.  Verdade.

Como exemplo, destaquei essa página que é praticamente TODA em latim. São dois parágrafos respeitáveis. Além disso, ele também acrescenta citações em latim no meio dos diálogos. Mas isso é um pouco complicado no começo, mas apenas torna mais enriquecedora a construção dos personagens, pois é fácil de imaginar que realmente entre os monges - os homens que tinham acesso ao saber naquela época - falassem assim mesmo. (Não sei como anda seu domínio de latim, mas eu usei o Google translate...)

Ou seja, para mim, Guilherme de Baskerville (nosso protagonista) é o alter ego do autor. Infelizmente, hoje em dia causa estranheza ser inteligente e, muitas vezes, pessoas inteligentes terminam por se esconder como se isso fosse algum tipo de demérito. Umberto Eco, não. Ele é inteligente e se você pretende lê-lo, saiba que em alguns momentos você vai ter que voltar o texto, reler algum trecho e dobrar sua atençaõ. Não adianta reclamar que está difícil ou que é complicado: ele tem uma bagagem intelectual incrível e não pode (nem deve) fugir dela. Ou seja: Prepare-se!
Este trecho eu tirei da introdução do livro, escrita por David Lodge:

"Eco revela que amigos e editores que leram seu romance em forma de manuscrito recomendaram que ele abreviasse as primeiras cem páginas, que julgaram 'muito difíceis e exigentes'. Ele se recusou a fazê-lo, sob a premissa de que estas páginas eram como  'penitência ou iniciação' (...) aqueles que não pudessem atravessá-las jamais chegariam ao fim do livro; aqueles que o fizessem teriam aprendido como lê-lo , e não seriam capazes de parar."

Para você ver que eu não estou exagerando...


Sobre a história:

Ambientada na Idade Média, vamos acompanhar os sete dias que o conhecido e respeitado frade franciscano inglês Guilherme de Baskerville vai passar em uma abadia italiana acompanhado de um aprendiz chamado Adso, que será o narrador da história, escrevendo sobre ela muitos anos depois. Na referida abadia dois monges foram encontrados mortos e Guilherme, vestindo a carapuça de detetive, irá investigar as circunstâncias em que tais mortes ocorreram. Mas, enquanto está lá outras mortes acontecem, o que só permeia de ainda mais mistério o clima da abadia. Lá existe uma famosa biblioteca, conhecida pela quantidade de livros que possui e da raridade de alguns exemplares, o que a torna ainda mais valiosa. 
Para se ter uma ideia, apenas o bibliotecário e seu auxiliar podem entrar na biblioteca. A cópia de livros fica a cargo de monges no chamado Scriptorium, que é o predecessor do nosso conhecido modelo de escritório: um lugar iluminado, com várias mesas onde cada monge executa seu trabalho durante um período de tempo.
Esse é outro ponto muito interessante do livro: sua leitura nos traz a origem de vários instrumentos e organizações que temos até hoje, como por exemplo da bússola, dos óculos e dos ritos católicos. De fato, uma mente inteligente como a de Eco não poderia organizar sua história de maneira mais peculiar. É muito fácil imaginar que , de fato, as circunstâncias ali narradas e as colocações feitas pelos personagens, bem como suas discussões filosóficas podem sim ter acontecido, devido à incrível construção do ambiente. 
Pois bem, o enredo do livro é a investigação de Guilherme de Baskerville, sempre acompanhado de Adso, em relação às mortes ocorridas. Mas, concomitantemente, vamos vendo uma série de contendas filosóficas. Guilherme é um homem muito inteligente e observador, que com sua sagacidade muitas vezes questiona a igreja da qual faz parte, especialmente quanto aquilo que é certo e errado, pecado ou virtude. Guilherme é quase um subversivo, por isso tão apaixonante...consegue enxergar as intrigas e picuinhas que vão se desenvolvendo ali no ambiente, a maior parte delas nem um pouco cristãs: fofoca, inveja, luxúria... Pecados capitais que fazem parte do homem e não ficariam de fora dali.
Conforme as vítimas vão se sucedendo, vamos compreender que na verdade todo o mistério ronda a tal biblioteca. Algo ali é que pode ser o motivo ou trazer a elucidação do caso.
A conclusão, particularmente, eu achei memorável e não poderia ser mais adequada (obviamente, não vou contá-la aqui...). Não havia melhor maneira de terminar o livro!


Há um filme homônimo (1986) baseado nesta história que assisti há muito tempo atrás, com Sean Connery e Chris Slater nos papeis principais. Até onde me lembro, foi uma adaptação bem fiel à história. Vale a pena conferir.

Enfim, o livro é muito bom, mas não espere algo que você pode ler no ônibus. Exige sua atenção, mas também compensa-a.

Enfrente !!!




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