Te conto um conto...


OUTUBRO: TENHA MEDO!


Estamos encerrando o mês de outubro, mês em que eu me superei... acho que nunca li tanto num único mês! Mas, estamos na semana do Halloween e como eu me propus a apenas ler livros de terror/horror (li toda a minha #TBR e ainda um monte de outras coisas que fui acrescentando... e como boa virginiana não consigo quebrar minha autoimposta regra) e não quero entrar novembro lendo nada QUE NÃO SEJA "O NOME DA ROSA" (preciso terminar logo aquele livro porque não vejo a hora de começar a ler tudo o que eu comprei nesses últimos dois meses) e ficar uma semana sem ler também não está nos planos vou fazer uma

SEMANA
  DE 
CONTOS!

Vou começar postando uma coisa linda de viver do mestre Ray Bradbury que escreveu este conto que está no livro "As crônicas Marcianas". O título já nos dá uma dica sobre o que vamos ler: numa sociedade distópica, livros, lendas, fantasias e assombrações estão proibidas. Ninguém pode imaginar. Mas, um antigo dono de biblioteca consegue reconstruir ,baseado nas memórias do que leu, A Casa de Usher. Mesmo sabendo que está fazendo algo proibido e que, provavelmente, será destruído em breve, ele leva a ideia adiante pois seu propósito é muito maior.

Boa Leitura!

(O livro já está em domínio público, é só dar uma procurada na internet que você acha fácil!)


Abril de 2005

 Usher II

  “Durante todo um dia monótono, escuro e silencioso no outono daquele ano, quando as nuvens pairavam no céu opressivas, baixas, eu cavalgava sozinho em um trecho particularmente sombrio do caminho, e afinal me encontrei, quando as sombras da noite já caíam, às vistas da melancólica Casa Usher...”

O senhor William Stendahl fez uma pausa em sua leitura. Ali, sobre uma colina baixa e negra, erguia-se a Casa, e sua pedra fundamental trazia a inscrição 2005 d.C. O senhor Bigelow, arquiteto, disse:
— Está pronta. Aqui está a chave, senhor Stendahl.
Os dois homens ficaram em silêncio na calma tarde de outono. Plantas farfalhavam sobre o capim da ravina a seus pés.
— A Casa Usher — disse o senhor Stendahl com prazer. — Projetada, construída, comprada, paga. O senhor Poe não ficaria satisfeito?
O senhor Bigelow apertou os olhos.
— É tudo que o senhor queria?
— Sim.
— A cor está adequada? É desolada e pavorosa?
— Muito desolada, muito terrível!
— As paredes estão toscas?
— De modo surpreendente!
— O laguinho está suficientemente escuro e lúgubre?
— Incrivelmente escuro e lúgubre ao extremo.
— E os juncos... tivemos de tingi-los, o senhor sabe. Estão no tom cinzento e de ébano adequado?
— Repugnante!
 O senhor Bigelow consultou suas plantas arquitetônicas. Leu um trecho delas:
— Será que toda a estrutura causa “frieza, aperto no coração, medo das próprias ideias”? A casa, o lago, o terreno, senhor Stendahl?
— Senhor Bigelow, valeu cada centavo! Meu Deus, é linda!
— Obrigado. Precisei trabalhar em completa ignorância. Graças a Deus o senhor tem seus próprios foguetes particulares, ou então nunca teríamos conseguido trazer a maior parte do equipamento. Repare, aqui sempre se está no crepúsculo, aqui neste terreno é sempre outubro, árido, estéril, morto. Deu um belo trabalho. Matamos tudo. Dez mil toneladas de ddt. Não sobrou nenhuma cobra, sapo ou mosca marciana! Sempre ao crepúsculo, senhor Stendahl; orgulho-me muito disso. Há máquinas, escondidas, que bloqueiam o sol. O lugar é sempre “assustador”.
Stendahl absorveu aquilo, o terror, a opressão, os vapores fétidos, toda a “atmosfera” tão delicadamente planejada e ajustada. E aquela casa! O terror medonho, aquele lago maldito, os fungos, a podridão disseminada! Plástico ou qualquer outro material, quem saberia a diferença? Olhou para o céu de outono. Em algum lugar lá em cima, bem longe, estava o Sol. Em algum lugar era o mês de abril no planeta Marte, um mês amarelo com céu azul. Em algum lugar lá em cima, os foguetes ardiam para civilizar um lindo planeta morto. O som de sua passagem ruidosa era abafado por este mundo sombrio, à prova de som, este antigo mundo outonal.
— Agora que meu trabalho está pronto — disse o senhor Bigelow, constrangido —, sinto-me à vontade para perguntar-lhe o que pretende fazer com tudo isto.
— Com a Casa de Usher? O senhor não imagina?
— Não.
— O nome Usher não significa nada para o senhor?
 — Nada.
 — Bom, e o que o senhor acha deste nome: Edgar Allan Poe?
O senhor Bigelow sacudiu a cabeça.
— Claro. — Stendahl soltou uma risada delicada, uma combinação de consternação e de desprezo. — Como poderia achar que o senhor conheceria o abençoado Poe? Ele morreu há muito tempo, antes de Lincoln. Todos os seus livros foram queimados na Grande Fogueira. Foi há trinta anos... 1975.
— Ah — disse o senhor Bigelow, sabiamente. — Era um desses!
— Sim, um desses, Bigelow. Ele, Lovecraft, Hawthorne, Ambrose Bierce e todos os contos de terror, fantásticos, de horror e, por este motivo, contos do futuro foram queimados. Sem dó nem piedade. Aprovaram uma lei. Ah, começou muito discreta. Em 1950 e 1960, era um grãozinho de areia. Começaram controlando, de uma maneira ou outra, os livros ilustrados e os livros de detetives e, claro, os filmes. Um grupo qualquer, uma inclinação política, um preconceito religioso, pressões do sindicato, sempre havia uma minoria com medo de alguma coisa, e a grande maioria tinha medo do escuro, tinha medo do passado, tinha medo do presente, tinha medo deles mesmos e das sombras deles.
 — Compreendo.
— Tinham medo da palavra “política” (que acabou se transformando em sinônimo de comunismo entre os elementos mais reacionários, foi o que me disseram, e usar tal palavra era fatal!), e com uma chave de fenda apertavam aqui, ajeitavam um parafuso lá, puxavam, empurravam, davam um solavanco, e a arte e a literatura logo se transformaram em um enorme emaranhado de bala puxapuxa, sendo trançadas e jogadas em todas as direções, até que não lhes restasse nenhuma alegria e sabor. Então os projetores foram desligados, os teatros escureceram, as impressoras cessaram seu jorro de material de leitura, que era como as cataratas do Niágara, transformando a produção em pingos inócuos de material mais “puro”. Ah, posso dizer-lhe que a palavra “escapatória” também era radical!
— Era mesmo?
— Sim! Todos os homens, diziam, precisavam encarar a realidade. Precisavam encarar o Aqui e Agora! Tudo que não fosse assim precisava ser destruído. Toda a linda literatura que ousasse apresentar a fantasia deveria ser abatida em pleno voo. Então, em uma manhã de domingo há trinta anos, em 1975, alinharam todas essas obras contra a parede de uma biblioteca. Papai Noel, O Cavaleiro Sem Cabeça, Branca de Neve, Rumpelstiltskin e a Mamãe Ganso, ah, que lamentável... Eles foram abatidos, queimaram seus castelos de papel, os sapos dos contos de fadas, os antigos reis e as pessoas que viveram felizes para sempre (por que, é claro, ninguém de fato vivia feliz para sempre!), e “Era uma vez” transformou-se em “Nunca mais”! E espalharam as cinzas do fantasma Rickshaw com as ruínas da Terra de Oz; fatiaram os ossos de Glinda, a fada boa do Sul, e de Oz, despedaçaram Policromo em um espectroscópio e serviram João Cabeça de Abóbora com suspiro no baile dos biólogos! O pé de feijão morreu em um emaranhado de burocracia! A Bela Adormecida acordou com o beijo de um cientista e morreu com a picada fatal de sua seringa. E fizeram Alice beber alguma coisa que a reduziu tanto que ela não podia mais gritar “Que estranho estranhíssimo”. E despedaçaram o espelho encantado com um golpe de marreta e mandaram embora todas as Ostras e o Rei Vermelho!
Apertou os punhos. Meu Deus, como aquilo era imediato! Seu rosto ficou vermelho e ele tinha dificuldade para respirar. Já o senhor Bigelow ficou bastante estupefato com esta longa explosão. Piscou e afinal disse:
— Desculpe-me, mas não sei do que o senhor está falando. Para mim, são apenas nomes. Pelo que ouvi dizer, a Fogueira foi uma coisa boa.
— Saia daqui! — gritou Stendahl. — Você já fez seu trabalho, agora me deixe em paz, seu idiota!
 O senhor Bigelow chamou seus carpinteiros e foi embora. O senhor Stendahl ficou sozinho na frente de sua casa.
— Ouçam aqui — disse para os foguetes invisíveis. — Vim para Marte fugindo de vocês, gente de Mente Limpa, mas vocês estão se assomando a cada dia, como moscas sobre sobras. Então vou lhes ensinar uma bela lição pelo que vocês fizeram com o senhor Poe na Terra. A partir deste dia, fiquem atentos. A Casa Usher está em pleno funcionamento!
 Brandiu o punho fechado para o céu. O foguete pousou. Um homem desceu alegremente. Deu uma olhada na Casa, e seus olhos cinzentos ficaram desgostosos e vexados. Atravessou o canal para falar com o pequeno homem que estava ali.
— Seu nome é Stendahl?
— Sim.
— Sou Garrett, investigador de Climas Morais.
— Então, o pessoal dos Climas Morais chegou a Marte? Perguntava-me quando vocês apareceriam.
— Chegamos na semana passada. Logo as coisas estarão tão arrumadas e organizadas quanto na Terra. — O homem sacudiu uma carteira de identificação, todo irritado, na direção da Casa. — Que tal me falar a respeito desse lugar aí, senhor Stendahl?
— É um castelo assombrado, se assim preferir.
— Não gostei nada. Senhor Stendahl, não gostei. Do som da palavra assombrado.
— É bem simples. Neste ano do Nosso Senhor de 2005, construí um santuário mecânico. Dentro dele, morcegos de cobre voam em feixes eletrônicos, ratos de latão correm em porões de plástico, esqueletos robotizados dançam; vampiros robôs, arlequins, lobos e fantasmas brancos, compostos de produtos químicos e ingenuidade, moram aqui.
 — Era o que temia — disse Garrett, sorrindo calmamente. — Creio que precisaremos demolir sua casa.
— Sabia que vocês viriam assim que descobrissem o que estava acontecendo.
— Eu teria vindo antes, mas nós, dos Climas Morais, queríamos ter certeza de suas intenções antes de agir. Podemos mandar a equipe de Desmanche e Incêndio até a hora do jantar. À meia- -noite sua casa estará no chão. Senhor Stendahl, considero-o um tanto tolo. Gastar dinheiro suado em tamanha tolice. Nossa, deve ter custado uns três milhões de dólares...
— Quatro milhões! Mas herdei vinte e cinco milhões quando era muito jovem. Posso me dar ao luxo de gastar como quiser. Parece-me uma pena terrível, no entanto, terminar de construir minha casa e em uma hora o senhor estar aqui, correndo com sua equipe de Desmanche. Será que o senhor não pode me deixar brincar um pouquinho... Digamos, vinte e quatro horas?
— O senhor conhece a lei. Ao pé da letra. Nada de livros, nada de casas, nada que sugira fantasmas, vampiros, fadas ou qualquer criatura imaginária.
— Daqui a pouco os senhores estarão queimando Babbitts!
— O senhor já causou muitos problemas. Está na sua ficha. Há vinte anos. Na Terra. O senhor e a sua biblioteca.
— É, eu e a minha biblioteca. E alguns outros como eu. Ah, Poe já foi esquecido há tantos anos a esta altura, assim como Oz e as outras criaturas. Mas eu tinha a minha pequena reserva. Tínhamos nossas bibliotecas, alguns cidadãos particulares, até que vocês enviaram seus homens com suas tochas e incineradores e rasgaram e queimaram meus cinquenta mil livros. Da mesma maneira que fincaram uma estaca no coração do Halloween e disseram aos produtores desses filmes que se fossem fazer alguma coisa, que filmassem e refilmassem Ernest Hemingway . Meu Deus, quantas vezes já assisti Por quem os sinos dobram! Trinta versões diferentes. Todas realistas. Ah, o realismo! Ah, aqui, ah, agora, ah, diabos!
— Não vale a pena ser amargo.
— Senhor Garrett, o senhor precisa entregar um relatório completo, não é?
— Preciso.
— Então, pelo bem da curiosidade, é melhor que entre e dê uma olhada. Só vai demorar um minuto.
— Certo. Pode mostrar o caminho. E sem truques. Estou armado.
A porta da Casa Usher rangeu e se abriu. Um vento úmido saiu lá de dentro. Ouviram-se imensos suspiros e murmúrios, como um enorme fole subterrâneo respirando nas catacumbas perdidas. Um rato passou correndo pelas pedras do chão. Garrett, aos berros, chutou-o. O rato caiu e de sua pele de náilon saiu uma incrível horda de pulgas de metal.
— Surpreendente! — Garrett curvou-se para olhar. Uma bruxa velha estava sentada em uma reentrância, as mãos de cera tremendo sobre algumas cartas de tarô alaranjadas e azuis. Ela movimentava a cabeça e assobiava pela boca desdentada para Garrett, tocando nas cartas ensebadas.
— Morte! — gritava.
 — Pronto, este é o tipo de coisa de que estou falando — disse Garrett. — Deplorável!
 — Permito que o senhor a queime pessoalmente.
— É verdade? — Garrett deliciou-se, mas depois ficou pensativo. — Devo dizer que o senhor está aceitando tudo isto bem demais.
— Foi suficiente simplesmente ser capaz de criar este lugar. Ser capaz de dizer que o concretizei. Dizer que criei uma atmosfera medieval em um mundo moderno e incrédulo.
— Eu, pessoalmente, tenho uma espécie de admiração relutante pela sua genialidade, senhor.— Garrett observou uma névoa que passava sussurrando e sussurrando no formato de uma mulher bonita e nebulosa. No fundo de um corredor úmido, uma máquina que parecia de fazer algodão-doce rodopiava. Erguia-se uma neblina, murmurando através dos corredores vazios. Um macaco apareceu do nada.
 — Espere aí! — gritou Garrett.
— Não tenha medo — Stendahl acariciou o peito preto do animal. — É um robô. Tem esqueleto de cobre e tudo, igual à bruxa. Está vendo? — Tocou a pelagem e, por baixo dela, tubos de metal vieram à luz.
— Sim — Garrett estendeu uma mão tímida para acariciar a coisa. — Mas por quê, senhor Stendahl, por que tudo isto? Por que tamanha obsessão?
— Foi a burocracia, senhor Garrett. Mas não tenho tempo para explicar. O governo logo vai descobrir. — Fez um sinal com a cabeça para o macaco. — Certo. Agora.
O macaco matou o senhor Garrett.
— Estamos quase prontos, Pikes?
 Pikes ergueu os olhos da mesa.
 — Sim, senhor.
— Você realizou um trabalho esplêndido.
— Sou pago para isso, senhor Stendahl — disse Pikes com suavidade, erguendo a pálpebra plástica do robô e inserindo o globo ocular de vidro para ajeitar com precisão os músculos de borracha. — Pronto.
— A imagem perfeita do senhor Garrett, sem tirar nem pôr.
— O que faremos com ele, senhor? — Pikes fez um sinal com a cabeça para a mesa onde o verdadeiro senhor Garrett repousava, morto.
— Melhor queimar, Pikes. Não queremos ter dois Garretts, não é mesmo?
Pikes rolou o senhor Garrett até o incinerador de tijolos.
— Adeus.
Empurrou o senhor Garrett e bateu a porta. Stendahl confrontou o robô Garrett.
— Você conhece suas ordens, Garrett?
 — Sim, senhor. — O robô se sentou. — Devo voltar ao departamento de Climas Morais. Preencherei um relatório complementar. Atrasar a ação durante pelo menos quarenta e oito horas. Dizer que quero fazer uma investigação mais completa.
— Certo, Garrett. Adeus. O robô apressou-se em sair para o foguete de Garrett, e partiu. Stendahl se virou.
— Agora, Pikes, enviamos o restante dos convites para hoje à noite. Acho que vamos nos divertir bastante, não?
— Considerando-se que esperamos vinte anos, parece que sim!
Trocaram piscadelas. Sete horas. Stendahl estudava o relógio. Quase na hora. Rodava o copo de licor na mão. Estava sentado em silêncio. Por cima dele, entre os feixes de carvalho, os morcegos, os corpos delicados de cobre escondidos sob a pele de borracha, piscavam e guinchavam. Ergueu o copo para eles.
— Ao nosso sucesso.
Então se recostou, fechou os olhos e considerou o negócio todo. Como saborearia aquilo na idade avançada. Esta vingança contra o governo antisséptico por seu terrorismo literário e suas conflagrações. Ah, como a raiva e o ódio tinham crescido dentro dele com os anos. Ah, como o plano tinha se delineado lentamente em sua mente entorpecida, até aquele dia, havia três anos, em que conhecera Pikes. Ah, sim, Pikes. Pikes, com tanto amargor dentro de si, tão profundo quanto um poço escuro e corroído de ácido verde. Quem era Pikes? Simplesmente o melhor de todos! Pikes, o homem de dez mil faces, uma fúria, uma fumaça, uma névoa azulada, uma chuva branca, um morcego, uma gárgula, um monstro, aquele era Pikes! Melhor do que Lon Chaney, o pai. Stendahl ruminava. Noite após noite, tinha assistido a Chaney nos filmes antigos, muito antigos. Sim, melhor do que Chaney. Melhor do que aquele outro fazedor de múmias? Qual era o nome dele? Karloff? Muito melhor! Lugosi? A comparação era odiosa! Não, existia apenas um Pikes, e ele tinha se transformado em um homem desprovido de fantasias, sem lugar na Terra, sem ninguém para se exibir. Proibido até de fazer truques para si mesmo na frente de um espelho! Coitado, impossível, derrotado Pikes! Como deve ter sido, Pikes, a noite em que apreenderam seus filmes. Como entranhas arrancadas da câmera, dos seus intestinos, enfiando-os em bobinas e blocos para lançá-los dentro de um forno! Será que era uma sensação parecida com a de ver cinquenta mil livros aniquilados sem recompensa? Sim. Sim.
Stendahl sentiu as mãos gelarem com aquela raiva insensata. Então, o que poderia ser mais natural do que, certo dia, conversarem sem fim, embalados por bules de café, até inumeráveis altas horas, e as criações amargas surgiriam de toda aquela conversa: a Casa Usher. Um enorme sino de igreja tocou. Os convidados estavam chegando. Sorrindo, foi recepcioná-los.
Adultos sem memória, os robôs esperavam. Em sedas verdes da cor de lagoas da floresta, em sedas da cor de sapos e de samambaias, esperavam. Com cabelo amarelo da cor do sol e da areia, os robôs esperavam. Lubrificados, com ossos de tubos cortados do bronze e mergulhados em gelatina, os robôs aguardavam. Em caixões para os não mortos e não vivos, em caixas cobertas de tábuas, os metrônomos esperavam ser colocados em movimento. Havia um cheiro de lubrificantes e de latão polido. Havia um silêncio no cemitério. Sexuados, porém assexuados, os robôs. Nomeados mas inominados, e tomando emprestado dos humanos tudo exceto a humanidade, os robôs olhavam para suas caixas com etiqueta de frete, em uma morte que nem era morte, porque a vida nunca existira. Então se ouviu o barulho de pregos arrancados. E tampas se erguendo. E sombras nas caixas. A pressão de uma mão apertando uma lata de óleo. E um relógio foi colocado em funcionamento, um tique-taque baixinho. E outro e mais outro, até que o lugar se transformou em uma imensa relojoaria, ronronando. Os olhos de mármore rolavam de um lado para o outro sob as pálpebras de borracha. As narinas se movimentavam.
Os robôs, cobertos com pelo de macaco e pele de coelho, levantaram-se: Tweedledum logo depois de Tweedledee, a Falsa Tartaruga, o Rato Dorminhoco, corpos afogados no mar, compostos de sal e leucântemos, balançando; homens enforcados com dentes azuis e olhos revirados, criaturas de gelo e de fitinhas em fogo, anões de argila e elfos apimentados, Tik-tok, Ruggedo, Papai Noel com neve caindo à sua frente, Barba-Azul com bigodes de chamas de acetileno, nuvens sulfurosas que lançavam fachos de fogo verde, um enorme dragão escamoso de cauda enrolada e uma fornalha na barriga irrompeu pela porta com um grito, um urro, um silêncio, um tumulto, um vento. Dez mil pálpebras se fecharam. O mecanismo se movia em Usher.
A noite se encantou. Uma brisa quente caiu sobre o lugar. Os foguetes dos convidados, queimando o céu e transformando o clima de outono em primavera, chegaram.
Os homens saíram com suas roupas de noite e as mulheres vieram atrás, de penteados muito elaborados.
— Então, isto é Usher!
— Onde está a porta?
Naquele momento, Stendahl apareceu. As mulheres riam e tagarelavam. O senhor Stendahl ergueu a mão para fazer com que se calassem. Virou-se, olhou para uma janela no alto de uma torre de castelo e chamou:
— Rapunzel, Rapunzel, jogue-me suas tranças.
 E, lá de cima, uma linda donzela se inclinou no vento da noite e deixou cair as tranças douradas. O cabelo se retorceu, revoou e se transformou em uma escada pela qual os hóspedes puderam subir, rindo, para entrar na Casa. Quantos sociólogos proeminentes! Quantos psicólogos inteligentes! Quantos políticos, bacteriologistas e neurologistas notáveis! Lá estavam todos eles, entre as paredes úmidas.
— Sejam todos muito bem-vindos! O senhor Try on, o senhor Owen, o senhor Dunne, o senhor Lang, o senhor Steffens e uma dúzia de outros. — Entrem, entrem! A senhorita Gibbs, a senhorita Pope, a senhorita Churchil, a senhorita Blunt, a senhorita Drummond e mais umas vinte outras, todas radiantes.
Pessoas importantes, importantes de verdade, todas integrantes da Sociedade de Prevenção à Fantasia, defensores da proibição do Halloween e do dia de Guy Fawkes, matadores de morcegos, queimadores de livros, empunhadores de tochas; cidadãos bons e limpos. Tinham esperado até que os homens toscos tivessem ido até lá para enterrar os marcianos, limpar as cidades, construir as casas, consertar as estradas e deixar tudo seguro. E então, com tudo encaminhado para garantir a Segurança, os Estraga-Prazeres, aquelas pessoas de mercurocromo no lugar do sangue e olhos de cor de iodo, agora tinham chegado para estabelecer o departamento de Climas Morais e distribuir com parcimônia sua bondade para todos. E então havia também seus amigos! Sim, com muito, muito cuidado, tinha sido apresentado a cada um deles e feito amizade com eles na Terra, no ano anterior!
— Bem-vindos aos vastos corredores da Morte! — gritou o senhor Stendahl.
— Olá, Stendahl, o que é isso?
— Vocês vão ver. Todos tirem as roupas. Há cabinas daquele lado. Vistam as fantasias que ali se encontram. Mulheres para cá, homens para lá. As pessoas ficaram lá paradas, pouco à vontade.
— Não estou certa se devemos ficar — disse a senhorita Pope. — Não estou gostando nada disto. Beira a... blasfêmia.
 — Que bobagem, um baile a fantasia!
— Parece bastante ilegal. — O senhor Steffens ergueu o nariz.
— Relaxem um pouco. — Stendahl riu. — Aproveitem. Amanhã, tudo estará em ruínas. Escolham uma cabina.
A casa reluzia de tanta vida e cor; arlequins se espalhavam com chapéus com guizos e ratinhos brancos dançavam quadrilhas em miniatura ao som da música dos anões que dedilhavam pequeninos violinos com pequeninos arcos, bandeiras se dependuravam em vigas chamuscadas enquanto morcegos revoavam em nuvens em volta das bocas de gárgula que despejavam vinho fresco, abundante e espumoso. Um riacho atravessava os sete salões do baile de máscaras. Os convidados o experimentaram e descobriram que era licor. Os convidados saíam aos montes das cabinas, transformados de uma idade em outra, o rosto coberto com dominós; o simples ato de colocar uma máscara já cancelava sua licença para implicar com a fantasia e o terror. As mulheres andavam para lá e para cá com vestidos vermelhos, rindo. Os homens dançavam para elas. E nas paredes havia sombras sem ninguém para projetá-las, e aqui e ali havia espelhos que não refletiam imagem nenhuma.
— Somos todos vampiros! — riu o senhor Fletcher. — Mortos!
Havia sete salões, cada um de uma cor, azul, roxo, verde, laranja, outro branco, o sexto violeta e o sétimo coberto de veludo preto. E no quarto negro havia um relógio de ébano que batia as horas ruidosamente. E os convidados corriam por esses salões, finalmente bêbados, entre as fantasias de robôs, entre Ratos Sonolentos e Chapeleiros Malucos, Trolls e Gigantes, Gatos Negros e Rainhas Brancas e, sob os pés dançantes, o chão ecoava a batida de um coração excitado.
— Senhor Stendahl! Um sussurro. Um monstro com o rosto da Morte estava parado ao seu lado. Era Pikes.
— Preciso falar com o senhor em particular.
— Qual o problema?
— Aqui está. — Pikes estendeu uma mão de esqueleto. Dentro dela havia engrenagens, porcas, pregos, pinos e roscas meio queimadas, meio chamuscadas. Stendahl ficou olhando para aquilo durante um longo instante. Então levou Pikes até um corredor.
— Garrett? — sussurrou. Pikes assentiu com a cabeça.
— Ele enviou um robô em seu lugar. Estava limpando o incinerador agora há pouco e encontrei isto.
Os dois ficaram olhando para as engrenagens funestas durante um bom tempo.
— Isso significa que a polícia vai chegar a qualquer minuto — disse Pikes.
— Nosso plano estará arruinado.
— Não sei. — Stendahl olhou para as pessoas amarelas, azuis e alaranjadas que rodopiavam. A música varria os corredores enevoados. — Devia ter adivinhado que Garrett não seria tão tolo a ponto de vir aqui pessoalmente. Mas, espere!
— Sim?
— Nada. Não há problema nenhum. Garrett enviou um robô para nós. Bom, devolveremos outro. A menos que ele confira com muita atenção, não vai reparar na troca.
— Mas é claro!
— Da próxima vez, ele virá pessoalmente. Agora que acha que é seguro. Nossa, ele pode entrar pela porta a qualquer minuto, em pessoa! Mais vinho, Pikes! O grande sino tocou.
— Aí está ele, aposto. Vá receber o senhor Garrett.
Rapunzel deixou suas tranças caírem.
— Senhor Stendahl?
— Senhor Garrett. O verdadeiro? — Eu mesmo. — Garrett deu uma olhada nas paredes úmidas e nas pessoas que rodopiavam.
 — Achei que era melhor ver com meus próprios olhos. Não podemos confiar em robôs. Principalmente quando se trata de um robô dos outros. Também tomei a precaução de convocar a equipe de Desmanche. O pessoal estará aqui dentro de uma hora, para derrubar todos os cenários deste lugar pavoroso.
Stendahl fez uma mesura.
— Obrigado por me informar. — Acenou. — Enquanto isso, o senhor bem que podia participar também. Um pouco de vinho?
 — Não, obrigado. O que está acontecendo? Até onde um homem é capaz de ir?
 — Veja com seus próprios olhos, senhor Garrett.
— Assassinato — disse Garrett.
— Assassinato é mesmo uma baixeza — respondeu Stendahl.
Uma mulher gritou. A senhorita Pope veio correndo, o rosto amarelo como um queijo.
— A coisa mais pavorosa de todas acabou de acontecer! Vi a senhorita Blunt ser estrangulada por um macaco e enfiada em uma chaminé!
Ao se virarem, deram de cara com o longo cabelo louro saindo do cano. Garrett soltou um grito.
— Que horror! — soluçou a senhorita Pope, e então parou de chorar. Piscou e olhou para o lado.
— Senhorita Blunt!
— Sim — disse a senhorita Blunt, parada ali.
— Mas acabei de vê-la gritando pela chaminé!
— Não — riu a senhorita Blunt.
— Era um robô, uma sósia perfeita!
— Mas, mas...
— Não chore, querida. Estou muito bem. Deixe-me ver. Bom, então, ali estou eu! Chaminé acima, bem como você disse. Não é engraçado? A senhorita Blunt se afastou, rindo.
— Aceita uma bebida, Garrett?
— Acho que sim. Fiquei nervoso. Meu Deus, que lugar. Ele merece mesmo ser demolido. Por um instante eu... Garrett bebeu.
Outro grito. O senhor Steffens, carregado nos ombros por quatro coelhinhos brancos, foi levado para baixo por um lance de escadas que surgiu como mágica no chão. O senhor Steffens caiu em um buraco e, lá, amordaçado e amarrado, foi deixado para enfrentar a lâmina de aço em um grande pêndulo que vinha em sua direção, cada vez mais perto de seu corpo revoltado.
— Sou eu ali embaixo? — perguntou o senhor Steffens, aparecendo ao lado de Garrett. Debruçou-se sobre o poço. — Que coisa estranha, que coisa peculiar, assistir à própria morte. O pêndulo desferiu seu golpe final. — Quanto realismo — disse o senhor Steffens, dirigindo-se para o outro lado.
— Mais uma bebida, senhor Garrett?
— Sim, por favor.
— Não vai demorar. Logo a equipe de Desmanche estará aqui.
— Graças a Deus! E, pela terceira vez, um grito. — O que foi agora? — perguntou Garrett, apreensivo.
— É a minha vez — disse a senhorita Drummond. — Olhe. E uma segunda senhorita Drummond, aos berros, foi fechada dentro de um caixão e jogada sob o assoalho, para dentro da terra.
— Nossa, mas me lembro disto — gaguejou o Investigador de Climas Morais. — Dos antigos livros proibidos. O Enterro Prematuro. E os outros. O Poço, o Pêndulo, e o macaco, a chaminé, os Assassinatos da Rua Morgue. Tudo num livro que queimei, claro!
— Mais um gole, Garrett. Aqui, segure firme o seu copo.
— Meu Deus, mas você tem mesmo muita imaginação, não tem? Ficaram lá observando mais cinco morrerem, um na boca de um dragão, os outros lançados para dentro da lagoa negra, afundando e desaparecendo.
— Gostaria de ver o que planejei para o senhor? — perguntou Stendahl.
— Certamente — respondeu Garrett.
— Qual é a diferença? Vamos mesmo explodir tudo... O senhor é indecente.
— Acompanhe-me, então. Por aqui. E conduziu Garrett para baixo do assoalho, através de inúmeras passagens e ainda mais para baixo, por uma escada em espiral, para o fundo das catacumbas.
— O que o senhor quer me mostrar aqui embaixo? — perguntou Garrett.
— O seu assassinato.
— Uma réplica?
 — Sim, além de outra coisa.
— O quê?
— O Amontillado — respondeu Stendahl, avançando com uma lanterna acesa, que segurava no alto. Esqueletos estavam paralisados com o corpo meio erguido de tampas de caixão. Garrett levou a mão ao nariz, o rosto enojado.
— O quê?
— O senhor nunca ouviu falar do Amontillado?
— Não!
— Não reconhece nada daqui? — Stendahl apontou para uma cela.
— Deveria reconhecer?
— Nem isto? — Stendahl tirou uma pá de pedreiro da capa, sorrindo.
— O que está havendo?
— Venha — disse Stendahl.
Entraram na cela. No escuro, Stendahl prendeu as correntes ao homem meio bêbado.
— Pelo amor de Deus, o que está fazendo? — gritou Garrett, agitando-se.
— Estou sendo irônico. Não interrompa um homem no meio de uma ironia. É falta de educação. Pronto!
— Estou acorrentado!
— Certo.
— O que vai fazer?
— Deixá-lo aí.
— Isso é uma brincadeira.
— Uma brincadeira muito boa.
— Onde está minha réplica? Não vamos vê-la ser morta?
— Não existe réplica nenhuma.
— Mas, os outros!
 — Os outros estão mortos. Os que você viu sendo mortos eram as pessoas de verdade. As réplicas, os robôs, ficaram lá observando.
Garrett não disse nada.
 — Agora você tem de falar: “Pelo amor de Deus, Montresor!” — disse Stendahl. — E eu respondo: “Sim, pelo amor de Deus”. Você não vai falar? Vamos lá. Fale.
— Seu idiota.
 — Será que preciso persuadi-lo? Fale. Fale: “Pelo amor de Deus, Montresor!”.
— Não vou falar, seu imbecil. Tire-me daqui. — Àquela altura já estava sóbrio.
— Pronto, coloque isto. — Stendahl jogou alguma coisa lá para dentro que soou como um pequeno sino.
— O que é isso?
— Uma touca com guizos. Vista e quem sabe eu o deixe sair.
— Stendahl!
— Vista, eu ordenei!
Garrett obedeceu. Os guizos tilintaram.
— Não percebe que tudo isto já aconteceu antes? — quis saber Stendahl, começando a trabalhar com sua pá e cimento e tijolos.
— O que está fazendo?
— Emparedando você. Aqui está uma fileira. Lá vai outra.
— Você é louco.
— Não discutirei.
— Você será processado! Deu um tapinha em um tijolo e o arranjou sobre o cimento fresco, cantarolando. Então se ouviu uma agitação, batidas e gritos vindos de dentro do recinto escuro. Os tijolos se erguiam cada vez mais altos.
— Mais barulho, por favor — pediu Stendahl. — Vamos produzir um bom espetáculo.
— Deixe-me sair, deixe-me sair! Faltava colocar só um tijolo no lugar. Os gritos não cessavam. — Garrett? — chamou Stendahl, com suavidade. Garrett se calou. — Garrett — prosseguiu Stendahl —, sabe por que eu fiz isto com você? Porque você queimou os livros do senhor Poe sem se dar o trabalho de os ler. Você aceitou a opinião dos outros que achavam que deveriam ser queimados. Senão, teria percebido o que eu faria com você quando descemos aqui, há um instante. A ignorância é fatal, Garrett.
Garrett ficou em silêncio.
— Quero que isto seja perfeito — disse Stendahl, erguendo a lanterna, para que a luz penetrasse na figura largada. — Toque os seus guizos de leve.
— Os guizos fizeram um barulhinho. — Agora, tenha a bondade de dizer: “Pelo amor de Deus, Montresor”. Pode ser que eu o solte.
O rosto do homem apareceu à luz. Hesitou. Então, de um jeito grotesco, o homem disse:
— Pelo amor de Deus, Montresor.
— Ah — disse Stendahl, de olhos fechados. Ajeitou o último tijolo no lugar e passou o cimento com muito cuidado. — Requiescat in pace, caro amigo.
Apressou-se para fora da catacumba. Nos sete salões, o barulho do relógio badalando a meia-noite fez com que tudo parasse. A Morte Vermelha apareceu. Stendahl se virou um instante à porta para observar. Então saiu correndo da Casa Maravilhosa, atravessou o laguinho, até onde um helicóptero esperava.
 — Pronto, Pikes?
 — Pronto.
— Lá vai!
Olharam para a Casa Maravilhosa, sorrindo, que começou a rachar no meio, como se houvesse um terremoto. Enquanto Stendahl assistia àquela cena magnífica, ouviu Pikes ler atrás de si, em voz grave e cadenciada:

“... Meu cérebro vacilou quando vi as paredes fortes desabando. Ouviu-se um longo som de gritos tumultuados, como a voz de mil águas, e o laguinho profundo e lamacento aos meus pés foi se fechando triste e silenciosamente sobre os fragmentos da Casa Usher”.

O helicóptero ergueu-se por sobre o lago fumegante e voou em direção ao oeste.

(Ray Bradbury)

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