34º LIVRO DO ANO

"OVELHA - MEMÓRIAS DE UM PASTOR GAY", GUSTAVO MAGNANI

Este não é o tipo de livro para você apenas dizer que gostou ou não gostou. Não é tão simples assim... De minha parte, pelo menos, eu posso dizer que precisei digeri-lo para poder saber ao certo o que foi que senti com essa história. 

Bom, o autor é o idealizador do blog (hoje em dia um site sobre literatura, um dos maiores do Brasil) Literatortura, que acompanho há tempos que hoje em dia fala muito além da literatura e sempre tem excelente conteúdo. Fiquei sabendo do livro através de canais de literatura no Youtube e já me interessei pela temática.

Não sou religiosa, já me considerei cristã e hoje em dia eu penso muito no personagem do "Arquivo X", o Fox Mulder quando falo de fé: eu quero acreditar.

Meu pais não eram religiosos (minha mãe veio de lar pentecostal mas já não era praticante há tempos e meu pai é católico "de casa": reza mas não frequenta missa). Me defino (se é que isso é possível) como agnóstica. Na minha adolescência  passei por uma fase mais evangélica por influência das amigas, tendo frequentado por muito pouco tempo algumas denominações, mas jamais me visto como participante ativa em qualquer uma delas. Quando eu descobri que o problema não era eu, eu fiquei mais sossegada quanto a esta questão de espiritualidade e, lendo aqui e ali, conversando com um e outro, concluí que fé é algo muito pessoal.

Disse tudo isso por conta do livro.

O título já traz um spoiler na capa, mas nem por isso você fica imune à narrativa cáustica de Gustavo. Encontramos nosso protagonista num leito de hospital, quase morrendo mas disposto a deixar para a posteridade tudo o que aconteceu em sua vida. Por si só isso já é chocante, mas a maneira como ele conta deixa tudo mais terrivelmente assustador. 

Mesmo ciente de sua homossexualidade, nosso pastor sem nome passou a vida inteira num púlpito, pregando para uma igreja inteira, aconselhando e sendo o modelo de cristão para a maioria de seu rebanho. Para mim, isso já é terrível, tanto para ele quanto para todos que buscaram na sua figura um caminho para a Palavra de Deus. Agora, a maneira como ele chega a conclusão do que ele realmente é, sua primeira vez com um homem, assédios de pessoas inimagináveis, como escondia suas "escapadas" da família, a tentativa de "curar-se"... enfim, o pastor o faz da forma mais chula possível. 
Sim. 
Chula, grotesca, às vezes ofensiva, com detalhes que talvez você não imaginasse... Posso falar da minha impressão nos primeiros capítulos: em alguns momentos eu me peguei pensando se não havia um outro jeito de contar isso? Tinha que ser assim, tão direto, tão cru...?

Tinha. Tinha sim.


Ele passou se reprimindo durante tanto tempo que quando se soltou, foi de uma vez. Pelo menos foi a essa conclusão que eu cheguei: era uma libertação. Libertação da religiosidade, da mãe fanática e dominadora, da sociedade hipócrita, da farsa vivida toda uma vida. Aí eu passei a enxergar os palavrões e termos chulos de uma outra maneira. Não estavam ali à toa, tinham um contexto. 


Ele é casado, tem dois filhos e passou a vida inteira tentando ser o que não era. Enganando-se ou tentando enganar aos outros. Sua esposa, ex-prostituta, foi convertida por ele e lhe dedica verdadeira adoração. Ela me irritava um pouco no início, mas depois eu a compreendi. Parece que passei o livro todo assim: chocando e compreendendo, chocando e compreendendo... Um detalhe interessante é que alguns  nomes próprios são escritos com letra minúscula, acredito que para destacar a importância que o pastor dava a cada um. Por exemplo, os nomes dos filhos são escritos com inicial maiúscula.

Na verdade, o livro é isso: depende de sua vivência, depende do que você pensa e porque pensa assim. Ele pode ser diferente para você, melhor ou pior. Eu comecei com a impressão que era apenas uma história para chocar, mas terminei vendo muito além disso. O Último capítulo é ... é um desabafo, uma conclusão, algo difícil de ser ignorado ou refutado. É o pensamento de muitas pessoas, muitas pessoas mesmo: as dúvidas e as certezas. Ouvi isso tantas vezes nas conversas com as amigas, debatemos isso tantas vezes... E de repente está lá, escrito.

Vi gente dizendo que detestou, que só contribui para  aumentar o preconceito, mas não vejo assim. Acho que é principalmente uma história que te dá um soco, um tapa na cara. Mas que depois você vai olhando pra ele com outros olhos, vai compreendendo que tudo é muito mais complicado do que parece.

Olha, tem mais filosofia envolvida do que eu poderia imaginar. Faz pensar se você estiver disposto a pensar sobre tudo isso. 

E isso é bom... Vale a pena!


Boa leitura!
















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