38º LIVRO DO ANO

"O SOL É PARA TODOS", HARPER LEE


Algumas histórias surpreendem pela simplicidade com a qual são escritas, pois mesmo sendo tão simples conseguem atingir uma profundidade na nossa alma que beira o assombro.

Vivo no Brasil e cresci ouvindo que deveríamos ter orgulho de nossa origem miscigenada. Afinal, temos sangue negro, índio e europeu e foi dessa mistura que nasceu o povo brasileiro. Acontece que eu cresci e pelos movimentos que vi ganharem força de lei, acredito que a coisa não seja tão simples assim e que tentaram me enganar dizendo que no país que vivo não existe racismo. Especialmente no que tange ao negro no Brasil. Conforme a maturidade chega, é possível ver que tudo sempre foi mera falácia: o negro no Brasil tem sim que lutar muito contra o racismo, contra pessoas que acham que eles são inferiores por terem uma cor de pele mais escura do que outros tantos tons que temos nesta terra - poucos realmente brancos. É doloroso imaginar gente - GENTE - que não possa sentar, comer, usar o mesmo banheiro que eu por ter uma cor diferente. O Brasil é profundamente racista. Mas até nisso foi superado por seu "patrão", os Estados Unidos: até o racismo lá é organizado. Aqui não se institucionalizou o racismo, mas como muitas outras coisas que não foram institucionalizadas e perduram por anos, isso não representa grande novidade por aqui...

É notório e sabido que os EUA vem há muitos anos lutando contra isso em seu território. Foi um país abolicionista bem antes de nós (em 1863 Abraham Lincoln assinou a Proclamação da Emancipação em 1863), mas os movimentos de perseguição aos negros estadunidenses perduram até hoje, apesar de serem combatidos. A segregação racial era vista com normalidade por uma boa parcela da população. Mesmo nos primeiros anos do século XX era muito comum bebedouros, transportes, banheiros exclusivos para pessoas "de cor".





Alguns exemplos do que eu estou falando. Eu não sei você, mas eu sinto vergonha ao ver essas imagens. 

Vamos ao livro.

"O sol é para todos" é uma livro que vai contar a história da Scout e Jem, filhos de Atticus Finch. Jem, o menino mais velho e sua companheira inseparável, a irmã quatro anos mais nova Scout. Atticus é um advogado viúvo que vive com a família em Maycomb, Alabama no início dos anos 1930 (época da Grande Depressão). E recebe a incumbência de defender Tom Robinson, um homem negro acusado de estuprar uma jovem mulher branca.

Harper Lee, usando o olhar perspicaz mas ingenuamente puro da menina Scout, então com oito anos, nos leva a uma contextualização incrivelmente bárbara sobre essa sociedade. Apenas por ser negro, a pessoa já é rotulado com tudo o que há de pior. Alguns são considerados "mais calmos" (como se estivessem falando de animais que podem ser melhor adestrados, olha que horror), podem fazer serviços domésticos menores, mas nunca -NUNCA-  se deve confiar neles. Ao olhar de Scout, não há nada errado : ela não é racista, ela apenas cresceu vendo isso, assim como os Cunningham que vivem no condado há gerações, nunca pedem nada mas sempre retribuem auxílio que recebem ou os Ewell, que são numerosos,  vivem no lixão e nunca vão para a escola. Entende : o lar de Scout não é racista, mas a sociedade é. O conceito não existe para ela. No seu olhar, as coisas são assim, "normais" (achei maravilhoso Scout ser uma menina inteligente, mas não ser um adulto em miniatura. Ela é uma criança e age como tal o tempo todo. Mesmo suas descobertas vão nos encantando no decorrer da história).

Jem, mais velho e observador, controla os impulsos de Scout em vários momentos e também desconta nela algumas chateações como um bom irmão mais velho. Ele é igualmente inteligente e tem uma clara admiração pelo pai (que eles tratam pelo primeiro nome, achei interessante isso).  Jem é um menino muito esperto também.

Ajudando a família temos Calpúrnia (vejam esse nome...), uma empregada da casa, obviamente negra. Digo obviamente porque é incrível observar: "Brancos" não fazem alguns serviços se há "Negros" disponíveis para fazê-los.

Atticus se dedica com afinco na defesa de Tom, pois acredita piamente em sua inocência. E é, obviamente, perseguido por isso. Aliás, tem um embate na cadeia que é de paralisar sua respiração. 

Essa é uma cena. O julgamento também é fantástico! Uma narrativa emocionante.

Não quero dar spolier, então vou apenas dizer que muito rapidamente você vai entender o que está acontecendo e vai se angustiar com isso. Muito rapidamente você vai se emocionar diversas vezes, seja sentindo medo, raiva, compaixão, ternura. A história de Scout é tudo isso. Seu olhar infantil nos dá a dimensão das atrocidades que a raça humana é capaz de cometer e que ainda nos surpreendem até hoje, pois são infinitas. 

As crianças acompanham todo o processo enquanto são crianças: brincam, passam por aventuras, fazem perguntas bobas e outras nem tanto assim.

É uma história linda, linda, linda, digna de todos os prêmios que pudessem ser dados à ela pois dosa magistralmente bem realidade e ficção. Consegue ser crível, pois não é apelativa. Você verá o que pode acontecer, não o que você gostaria que acontecesse. Tem diálogos entre Atticus e seus filhos que eu acho que deveriam ser escritos em muitos muros pela cidade para que a maior parte das pessoas conseguissem lê-los:


"Mas antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho de conviver comigo mesmo. A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa."


"Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado  antes de começar (...) e mesmo assim ir até o fim, apesar de tudo."

"As pessoas sensatas nunca se orgulham dos próprios talentos."

"Só existe um tipo de gente : gente."


Coisa linda de viver, sem ser piegas, sem ser apelativo. Apenas contando uma história.

Se você gosta de ler, POR FAVOR, leia esse livro.Viaje essa história. Emocione-se como eu (muitas vezes) me emocionei. 

Uma lição de altruísmo. Um livro pra vida.


Excelente leitura! Vale cada letra!




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