40º LIVRO DO ANO

"ENTREVISTA COM O VAMPIRO - AS CRÔNICAS VAMPIRESCAS" , ANNE RICE


Acredito que muitos de vocês, assim como eu, conheceram primeiro o filme antes do livro. Obviamente , não consegui compor em minha mente personagens com caras diferentes do filme de 1994: para mim estávamos sempre falando do Louis Brad Pitt e do Lestat Tom Cruise... (inclusive, depois quero fazer um post sobre isso, sobre a cara que imaginamos para as descrições que nos são dadas pelos autores... Acho isso interessante!). O filme já está disponível no Youtube.

O livro, como não poderia deixar de ser, tem bastante diferenças com  a história que foi levada para as telas. Mas, mais uma vez, nada que comprometa. Os mais puristas talvez se ofendam um pouco, mas não foi o meu caso (e muitas vezes sou MUITO purista!)

Vamos lá:

O livro nos traz a história de Louis, um homem que estava perturbado por uma tragédia pessoal e, apesar de muito jovem, não via grande sentido em continuar vivo. Desafiava a morte, mesmo sendo um belo e  bem sucedido como fazendeiro de Nova Orleans em 1791. Com isso, em uma de suas andanças noturnas após bebedeiras e jogatinas, encontrou o vampiro Lestat, que foi quem o transformou...

(meio difícil não dar spoiler hein...)

Vamos tomando conhecimento da história de Louis durante a entrevista que ele está concedendo para um repórter local (que não saberemos o nome...). Ele vai, aos poucos, contando detalhes interessantes de sua longa vida eterna. O livro foi escrito no início dos anos 1960, mas isso não faz grande diferença para a história, já que o enfoque é mesmo a história de Louis e sua relação com Lestat. (Para as gerações atuais, talvez seja difícil imaginar as pausas durante a entrevista para trocar as fitas do gravador...) Eles são completamente diferentes e isso é um motivo constante de conflito. Enquanto Lestat é frio, debochado, irônico, cruel e um assassino nato, Louis acaba se tornando melancólico, questionando sua existência agora eterna e as atitudes de Lestat. Ele quer saber se há necessidade de ser tão cruel, se há outros vampiros, onde estão e até certo ponto acreditamos que apenas os dois existem, já que Lestat não dá muitas pistas para Louis sobre isso.
Toda a melancolia e angústia de Louis vai culminar com uma atitude inesperada: ele encontra numa noite pós outra discussão com Lestat uma criança chorando aos pés do cadáver já putrefato da mãe, vítima da peste. Desesperado, Louis acode a criança, mas faminto, não consegue resistir aos seus novos instintos (detalhe: aqui, nossa criança tem apenas cinco aninhos... E esse detalhe eu achei incrível e chocante, porque no filme a criança já tem 10 anos...E você, querido leitor, não pode imaginar como essa diferença conseguiu ser significativa e incomôda no decorrer da narrativa. Sério.)
Cláudia (este é o nome da menina) passa a ser tratada como "filha" dos dois e, em muitos momentos notamos sua semelhança maior com Lestat. Porém, conforme Cláudia "amadurece" ela passa a ser o ponto de discórdia da relação já meio frágil de Louis e Lestat. Afinal, apesar de estar presa ao corpo infantil, sua mente evolui como a de uma mulher com o passar dos anos e ela também passa a questionar enfaticamente a Lestat sobre a origem dos vampiros, não apenas deles. Mas ela não é melancólica como Louis: ela é muito mais sádica, incisiva e firme em seus ponderamentos nas discussões com Lestat. Impaciente e muito mais segura de si do que Louis. E esse conflito vai tomando proporções e gerando uma discórdia impossível de ser superada...

A partir daí a história vai ficando cada vez mais interessante, pois o leitor passa a ter uma relação de amor e ódio com os protagonistas que vai se alternando conforme vamos conhecendo seus dramas e motivos.

A escrita de Anne Rice é rica em detalhes e a autora não se priva de usar um vocabulário que é ao mesmo tempo rebuscado mas não difícil de ser compreendido. A diagramação do livro (essa edição da foto é da Rocco) tem o espaçamento bem pequeno entre as linhas e a letra um pouco menor do que estou acostumada, o que me deu a impressão de que eu passava muito tempo em cada página e no começo achei que a leitura não estava rendendo. Pura impressão mesmo: é só uma questão de pegar o jeito e tudo transcorre normalmente. Essa tradução é da Clarice Lispector.

Delícia de história, muito mais de drama do que de terror (inclusive, acredito que nunca foi a pretensão da autora, fazer um livro de terror). Tem erotismo, elementos góticos, uma dose de tristeza e dor que vão se mesclando o tempo todo na história, o que proporciona prazer na leitura, atiça sua curiosidade (mesmo você conhecendo o filme, pois são mídias diferentes e tem várias coisas diferentes também) e deixa a leitura fluida e clara, como tem que ser um bom livro. Louis é aquilo de filosófico que existe na gente, a angústia de viver cada dia sem saber bem o motivo, perguntar coisas que jamais terão respostas... Lestat é o fogo da revolta, é o não se importar, é o egoísmo que às vezes aflora em nosso ser, no cotidiano. E Cláudia é uma mistura dos dois: é melancólica por sofrer com a dúvida, mas encara o sofrimento com ardor, com luta, com busca. 

BOA LEITURA!

Cláudia (Kirsten Dunst), Louis (Brad Pitt) e Lestat (Tom Cruise), em cena do filme de Neil Jordan(1994).


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