3º LIVRO DO ANO

"O INIMIGO DE DEUS", BERNARD CORNWELL



A coisa mais incrível do mundo para uma pessoa que gosta de ler é quando um livro consegue ocupar uma parte significativa de sua vida , de seu dia-a-dia. Você prossegue normalmente com sua rotina, mas sempre em algum canto de sua mente está a história, a ansiedade pelo próximo acontecimento. Deve funcionar parecido com quem gosta de novela ou minisséries, mas um livro é algo que ocorre dentro de sua cabeça, com seus personagens... e por isso, é muito, muito mais incrível!

Essa trilogia "As crônicas de Artur" é simplesmente arrebatadora. Impossível não se apaixonar, não ter empatia pela narrativa de Derfel, então um lorde. (Derfel está agora muito velho, num mosteiro e se tornou monge. Está escrevendo a história de Artur para a rainha Igraine, apaixonada pelas narrativas dos bardos. Quando soube que Derfel era o mesmo Derfel cantado nas músicas, pediu que ele escrevesse a história para ela...) No livro anterior, "O Rei do Inverno", somos introduzidos nesse mundo de reis, rainhas e deuses pagãos. Aqui, neste segundo momento, Derfel vai nos contar de uma forma apaixonante como Mordred, o rei guardado por Artur que nasceu no inverno, cresceu, como era seu caráter (ou a falta dele), vai nos contar de sua vida doméstica com sua doce Ceinwyn e o crescimento de sua família, vai dizer sobre o culto a Ísis realizado pela rainha Guinevere, do qual homens são proibidos de participar, o amor que Artur tem por sua rainha, contar sobre Lancelot, um homem inteligente: um articulador, não um guerreiro... Vemos Merlin levando por uma busca incerta pelo caldeirão um grupo tão importante para a história, sendo ainda um druida respeitado, mas já não tão temido quanto antes.

 E, especialmente, a ascensão dos cristãos e a maneira combativa e agressiva que eles tem para lidar com os pagãos. Para eles, os pagãos devem ser varridos da Britânia para que Jesus possa voltar (vejam só, desde sempre...) O autor nos situa no ano 500 d. C. e os bispos e monges estão anunciando a volta do redentor para dali a cinco anos. Há uma tensão constante entre essas vertentes, como uma guerra que pode explodir a qualquer momento.

Há reviravoltas nesta história que são simplesmente impressionantes, inesperadas. Coisas que eu realmente me surpreendi, outras eu até desconfiava mas não consegui deduzir da maneira como foram feitas. Mas nenhuma delas compromete a qualidade da história, pelo contrário, tornam-na ainda mais saborosa. Já disse que antes eu conhecia os personagens "principais" pelos olhos da série "As Brumas de Avalon", mas aqui todos estão muito diferentes do que eu esperava. Mas é como conhecer um outro viés, olhar uma situação com outros olhos... Chorei muito numa determinada parte, com um acontecimento covarde que não vou contar se não estraga spoliler, mas chorei e senti no meu coração a dor que o personagem sentiu ( "e sua vingança se tornou a minha vingança, minha espada se pôs a seu serviço..." Ops! Já me sinto um cavaleiro do reino da Dumnonia! rs)

O que posso destacar de mais fantástico é a maneira como esse livro faz com que você se sinta lá, na cena. O narrador, como eu já disse, é Derferl Cardan. Ele tinha verdadeira admiração por Artur até conseguir chegar a seu cavaleiro jurado e conquistar o título de lorde, como alguém que admire um artista e consiga trabalhar com este artista. O amor fraternal entre Artur e Derfel é emocionante! Há tanto carinho, há tanta consideração, lealdade... Há um momento de discordância entre os dois (envolvendo a linda história de Tristan e Isolda... Nossa, muito lindo isso, gente! Um livro cheio de momentos tão maravilhosos! Tristes, bonitos, poéticos...) que eles ficam "rompidos". É uma cena de chorar, de se emocionar profundamente o momento em que passado meses desde esse rompimento Artur procura Derfel para se desculpar!  Lindo! A lealdade entre eles, a maneira como um confia plenamente no outro é uma coisa de espantar. A sua vida na vida do outro e vice-versa. Como é gostoso imaginar um mundo em que isso fosse possível... A traição paga com sangue. Forte isso, não? Alguns podem imaginar como uma barbárie, mas quando olho para os dias atuais, não sei se seria assim tão terrível. Quando se trata de seres humanos, sabemos que há muitos sentimentos envolvidos, muitos interesses em jogo e devia haver traições terríveis sim. Mas quando havia um encontro tão lindo de amizade, amor, fraternidade nesse nível aqui... 


É uma continuação muito bem realizada. Muitas vezes são citadas situações do primeiro livro, relembradas como importantes e/ou complementares para situações deste livro. Há uma nota ao final do livro em que Bernard Cornwell fala um pouco sobre seus estudos para escrever a trilogia e coloca como comum nas antigas religiões a busca por esse caldeirão mágico, substituído depois pelo Santo Graal dos cristãos. Você pode aprender muita coisa nas entrelinhas da história, muitas curiosidades, usos e costumes desta que é a Idade Média, bem o início dela. Aprender sem nem sentir que está aprendendo.

Marquei curiosidades, mas marquei muitas passagens dignas de cinema!


O livro chega a ficar coloridinho...

Minha intenção ao escrever tudo isso é que você tenha vontade de ler esses livros. Que ao ler minhas palavras você possa se interessar por uma história que merece ser lida. Espero que eu tenha conseguido.

Até a próxima!



(...) "Não é possível dar ordens ao amor, senhora, apenas a beleza ou a luxúria fazem isso. Quer que o mundo seja justo? Então imagine um mundo sem reis, nem rainhas, nem lordes, nem paixão nem magia. Gostaria de viver num mundo tão insípido? (...)



(...) "Ela é uma mulher forte que nasceu com mente rápida e boa aparência, e Artur amou a aparência e não quis usar a mente dela."


(...) "Exatamente quando você acha que ele está derrotado, ele começa a vencer."

(imagem meramente ilustrativa)




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