5º LIVRO DO ANO

"EXCALIBUR", BERNARD CORNWELL


"O destino é inexorável"

Este livro vai trazer as melhore descrições de batalhas medievais que eu já li em toda a minha vida. Resumindo a história, em "Excalibur" encontramos o povo sofrendo sob o reinado de Mordred, o herdeiro de Uther, a quem Artur é jurado, uma espécie de psicopata que tornou-se rei. Ele mata e estupra sem pena junto com guerreiros de reputação duvidosa que fazem parte de eu exército, cobra impostos que lhe são mais convenientes e isso só reforça a merecida fama de Artur de ser um governante justo e bondoso, ao contrário de Mordred. Artur tem que lutar, mesmo contra sua vontade e entristecido pela traição de Guinevere que sempre foi o seu grande amor, mesmo alimentando o sonho de não ter de governar nada além de sua própria vida, Artur tem que lutar. E, como sempre ao seu lado, está o nosso narrador Derfel, lorde fiel a Artur, guerreiro justo e correto.

Neste livros vemos a primorosa descrição de grandes batalhas (baseadas em documentos citados ao final do livro pelo autor) contra as invasões saxãs que levarão ao ápice dessa história que também nos explicará como Derfel, guerreiro de Mitra virou um cristão encerrado num mosteiro sob a proteção do nojento bispo "São" Sansum, autointitulado santo e que sempre foi esperto em conseguir alianças com os reis para se proteger, ampliar seu domínio cristão e acumular riquezas na Terra (interessante as referências que o autor faz na figura de Derfel sobre a estranha predileção de Sansum por um outro "santo" que vive com ele para aprender os mistérios... ele cita que é um rapazola, mal saído da infância...Captou a insinuação?). Derfel o odiava e pensou em matá-lo várias vezes no decorrer da narrativa, mas de repente está sob suas asas. A explicação, posso dizer à você, é simplesmente fantástica e coerente, condizente com nosso lorde Derfel Cadarn. Aliás, como eu disse no começo, este livro encerra uma história de uma forma encantadora, emocionante e completa. Todos os questionamentos que foram sendo feitos pelo caminho não ficam sem resposta: encontram uma explicação muito bem colocada neste excelente encerramento. Outro detalhe é que Derfel não tem a mão direita eo autor te faz imaginar todo o tempo o que terá acontecido e numa determinada altura da história você vai imaginar que já sabe o que houve. Mas autor de qualidade é outro nível...

A reviravolta na batalha do Minydd Baddon (capítulo maravilhosamente bem dissecado, faz você se sentir na batalha) só chega quando você já está sem fôlego  depois de tantas lutas, tanto sangue nas espadas, lanças quebradas, escudos rachados e o coração na mão. Reencontros, traições, alianças inesperadas, o poder do feminino na cultura pagã (que eu sempre achei interessante)... Tudo é tecido de tal forma que a narrativa te engole: é difícil parar de ler. Acontece tanta coisa! É uma vida ali: gente que você  gosta de repente faz uma coisa terrível que te faz odiá-la, pessoas que você não esperava buscam ajuda ou dão ajuda...

É difícil falar da história sem soltar algum spoiler e como não quero fazer isso vou apenas dizer: FECHAMENTO COM CHAVE DE OURO DE UMA TRILOGIA SIMPLESMENTE INCRIVEL!


"As crônicas de Artur" é, com certeza, uma das melhores coisas que eu já li na minha vida. Além da descrição perfeita de batalhas medievais épicas, como eu não me canso de dizer,  há romance sem ser apelativo, há relações humanas muito próximas das reais, daquelas que podem ser vivenciadas por todos nós no cotidiano. Há amizade, há amor, há intrigas, traições, reconciliações, humor, todo tipo de emoção que nós humanos - simplesmente isso - podemos vivenciar. O conflito que começa a se formar entre cristãos e pagãos, os jogos de interesses para que essa ou aquela religião tenha vantagens, a inevitabilidade da guerra por territórios começar a usar esses interesses religiosos para ter vantagens e, acima de tudo e o que para mim é o mais bonito é a questão da lealdade. A amizade entre Derfel e Artur, Galahad, Sagramor, Culhwch é de causar inveja. A certeza de colocar sua vida na mão do outro sem nenhum medo é de emocionar. Aliás, em vários momentos eu chorei lendo esses livros, simplesmente porque é de uma escrita perfeita, detalhista e mexe com temas que tenho para mim como muito importantes: lealdade, franqueza, fidelidade. 

Sabe quando você ouve dizer que um leitor vive muitas vidas? Folheando os livros e vendo as marcações que fiz é essa mesma sensação que tenho: quanta coisa vivi e senti lendo a narrativa de Cornwell...

(vou ter que abrir um parêntese aqui porque se não vou EXPLODIR por não poder comentar certas coisas que eu adorei. Como é difícil não ter com quem conversar sobre um livro! Mas é spoiler, esteja avisado.)

SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER

Guinevere que traiu Artur com Lancelot e mereceu meu ódio por tantos capítulos se redimiu e me fez ver que ela era uma mulher ambiciosa, mas muito inteligente e que não poderia ficar presa num castelo. Ela tinha que participar dos acontecimentos, porque ela tinha muita capacidade para isso.  Lancelot, um mentiroso covarde que foi covarde até o fim, tentando comprar sua vida e liberdade assim como comprou bardos que cantassem a bravura que nunca teve. Derfel lutando até o fim por sua Ceinwyn quando ela ficou doente, por um feitiço de Nimue, que enlouqueceu pelo poder que a volta dos Deuses lhe traria. Derfel negociou aqui sua alma, mas sei que qualquer deus compreenderia o amor dele por sua linda e inteligente esposa. Artur que nasceu para governar, mas que lutou até o fim para mudar seu destino. Derfel. Derfel sou eu. Ou o que eu gostaria de ser. Inteligente, sereno, fiel, leal, guerreiro, herói e carrasco. Quase como Artur, mas conformado com seu destino. Amado por tantos, temido por muito mais. Inteligente, tranquilo, ponderado, prudente. No final, Artur e Derfel são faces e uma mesma moeda. Chorei quando um lembrava ao outro a necessidade de estarem juntos. Chorei na despedida dos dois e lamentei por Derfel e Ceinwyn, que mereciam melhor sorte. Chorei a morte de Sagramor, um guerreiro negro enigmático, que assustava por sua sisudez e por sua cor de pele, tão rara na Britânia daqueles tempos. Um homem, um guerreiro. A gratidão permeia essas alianças, o amor fraterno está ali descrito de uma maneira que eu não sei se verei em outra novela de cavalaria. O Bispo Sansum,  melhor representado na alcunha de "Lorde Camundongo", sujo, dissimulado, representando o que de pior pode ser produzido pela junção de religião e um homem com poder, ainda deu a volta por cima, já que sua alma era facilmente negociável. Morgana, irmã de Artur, tão diferente da Morgana que conheci em outras narrativas, mas tão mais real, crível. E, por fim, a despedida de Derfel de seu rei, amigo, irmão Artur e a partida dele na embarcação preparada por Merlin, muito antes de ser assassinado pela loucura de Nimue, sendo envolta por uma névoa densa... a caminho de Avalon (que nem é citado no livro, sou eu que estou falando com base no que já li a respeito).
DE. CHORAR.

FIM DO SPOILER FIM DO SPOILER FIM DO SPOILER


Muito, muito amor por essa trilogia, muito amor por essa história. Uma das melhores coisas que eu já li na minha vida. Recomendo a todos que tenham amor por novelas de cavalaria, mas também recomendo a quem gosta de histórias bem escritas, bem narradas com personagens apaixonantes e com finais de fazer chorar. 

Já estou com saudade.

É um livro que te faz sentir pena de ter terminado. Fazia tempo que eu não pegava um desse...

Um beijo, obrigada por ter vindo até aqui e LEIA ESSA TRILOGIA POR FAVOR!

TCHAU!



"Quando um homem promete alguma coisa para sempre, está jogando com a verdade"
(pág.66)


"Odi at amor, excrucior" ("Eu odeio e amo, isso dói")
(pág. 156)


" A batalha é uma questão de centímetros, e não de quilômetros. Os centímetros separam o homem de seu inimigo." (pág. 515)


"Éramos poucos, mas éramos os melhores guerreiros que Artur comandou."
(pág. 508)

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