6º LIVRO DO ANO

"A SANGUE FRIO", TRUMAN CAPOTE


Uma escrita apaixonante, a narrativa de um crime. Um romance de não-ficção.

 É isso o livro de Capote.

Uma manchete chamou sua atenção no distante novembro de 1959: uma família - pai, mãe e um casal de filhos adolescentes foram encontrados mortos com tiros de doze em sua propriedade, no Kansas. Não há motivo aparente para o crime. Nada muito significativo foi levado, a não ser alguns dólares (pouco mais de quarenta). O senhor Capote decide então ir para Garden City e conversar com todos aqueles que de alguma maneira pudessem colaborar com informações: vizinhos, moradores da cidade, parentes, curiosos, investigadores, policiais... e a partir daí, começou um novo tipo de literatura, unido ao jornalismo.

Assim, vamos conhecer um pouco da rotina da família Clutter, uma típica família do interior dos EUA. O pai, Herbert,  um fazendeiro que administra suas propriedades e sua esposa Bonnie. Juntos tiveram quatro filhos, três meninas e um garoto. As duas mais velhas já cuidando de suas vidas (uma casada e uma noiva, prestes a se casar dali há alguns dias) e ainda morando com eles Nancy de dezesseis anos e Kenyon, de quinze - um rapagão mais alto do que seu pai. Frequentadores da igreja, todos queridos pela comunidade, participativos. Enfim, a família perfeita. A não ser pela "doença de nervos" de Bonnie (que parece, pela descrição, mais com depressão pelo o que conhecemos hoje) que a faz se recolher e passar períodos isolada do convívio familiar. Mas, mesmo assim, ela está melhor, sente-se confiante com um diagnóstico médico mais positivo em relação ao seu estado de saúde.

Truman nos dá alguns detalhes da vida e das personalidades da família, tornando-os conhecidos nossos, nos familiarizando com eles. 

Mas faz o mesmo com os assassinos - Perry Smith e Dick Hickok. Temos conhecimento da infância, juventude e vida adulta (ou seja, vamos tentando compreender o que leva dois seres humanos a fazer o que eles fizeram). A vida de Dick parece ter sido mais sossegada: uma família comum, não miseráveis, mas também não ricos. Já a família de Perry é a típica família disfuncional. Brigas, bebedeias, agressões, abandono... tudo isso fez parte da infância de Perry.

De uma maneira muito natural a gente acompanha uma linha de tempo sendo traçada juntamente com um paralelo entre a vida dos Clutter e os planos da dupla criminosa e vai sentindo raiva, pena, revolta de tudo o que vai acontecendo. E, principalmente, pelo o que está por acontecer.

É muito interessante ver as notícias transformando-se em livro. Uma história, vários ângulos desta história. A captura, a finalização com o julgamento. Os recursos, a mudança nas histórias contadas pelos assassinos. Com toda a revolta que dá imaginar tudo o que a família passou, em dado momento você se pega questionando certos conceitos que você tem. Qual é a maneira correta de se lidar com isso? Existe julgamento mesmo ou é só o cumprimento de uma legislação, mas com o final já previamente definido?

Pontos interessantes: Capote foi com Harper Lee para o Kansas para começar suas investigações e nunca usou gravador - dizia ser capaz de guardar as informações com fidelidade e achava que gravadores podiam intimidar os entrevistados. Ele levou quase seis anos para concluir o livro, que saiu em forma de Capítulos no Jornal New Yorker. Truman Capote dizia que não poderia terminar o livro  sem ter o julgamento final, após todos os recursos que foram impetrados. 

Um livro que mudou a maneira de se contar um drama policial, unindo realidade e literatura. 

Boa leitura!

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