7º LIVRO DO ANO

"LARANJA MECÂNICA", ANTHONY BURGESS


Conheci primeiro o filme do magnífico Stanley Kubrick, que, obviamente, me chamou a atenção logo de cara por ter a direção OLHA DE QUEM e também por toda a polêmica que o cerca até hoje (tendo sido banido de alguns países, completamente censurado em outros e por aí vai...tem o trailer aqui, mas hoje em dia deve ser bem mais fácil de encontrar o filme. Vale a pena! Também há resenhas, discussões, debates... tudo o que você imaginar sobre o filme.)

Malcolm Mcdowell como o Alex imaginado por Kubrick e eternizado para o mundo.

Confesso que acho um exagero para os dias de hoje. Na sociedade em que vivemos as coisas que Alex (o protagonista) faz em nada diferem das notícias que lemos, ouvimos e assistimos. Mas, enfim, algumas hipocrisias são mais persistentes do que outras...


O livro traz a história de Alex, um adolescente que vive em uma Londres decadente assolada pela violência. Apesar de sua pouca idade (15 anos), Alex não é vítima dessa violência, mas sim algoz. Ele e seus companheiros formam uma gangue juvenil que passa as noites em busca de surrar, estuprar, brigar e roubar. E tudo isso com uma dose extra de "ultraviolência". Numa de suas aventuras, Alex comete um crime que termina com a morte de uma pessoa e acaba preso. Depois de dois anos na cadeia, ele aceita participar de um experimento que promete "curar" sua "doença" - ou seja, fazer com que ele abandone esse estilo de vida violento, deixe de achar "normal" fazer tudo o que faz. Todos esses acontecimentos são narrados pelo próprio Alex. Ele usa todo o tempo um dialeto próprio, o "nadsat", uma espécie de gíria comum entre os jovens dessa sociedade imaginada por Burgess e, no começo da leitura eu precisei consultar diversas vezes o glossário no final do livro. Depois, você meio que se acostuma e já consegue deduzir ou mesmo já decorar os significados de algumas palavras.... (Minha edição, essa da foto, é comemorativa aos 50 anos da primeira  publicação, por isso tem vários extras também: textos e entrevistas do autor e até mesmo a reprodução de um original do livro, com correções e desenhos do autor).

Minha edição sem a jacket. <3

Alex é um protagonista muito carismático. Apesar de descrever verdadeiros horrores praticados por ele e seus "druguis" como uma coisa muito trivial, você não consegue odiá-lo. Ou melhor, talvez você precise muitas vezes se lembrar quem está contando a história, porque o autor consegue colocar bem a coisa de Alex ser o fruto de uma sociedade que agora o teme. Afinal, em algum momento alguém (pais, sociedade, governantes...) errou feio para que as coisas degringolassem como aconteceu na história que acompanhamos.A relação de Alex com os pais, além de fria, é de pura dominação: os pais o temem, evitam perguntar onde consegue objetos e dinheiro que traz para casa, quando ele diz que estava trabalhando eles não pedem detalhes, quando vão acordá-lo para ir para o colégio ele diz que não quer ser incomodado e a mãe, antes de sair para trabalhar deixa a refeição pronta apenas para ser esquentada... Não parece com muita coisa que ficamos sabendo hoje em dia?  Apesar de sempre estar com os mesmos amigos, não existe um laço entre eles. O que os liga é apenas a violência. Consome drogas, não frequenta a escola, já foi detido outras vezes, não trabalha... Não há novidade na receita de como se faz um meliante. É interessante a discussão proposta por essa história: quem é mais bandido? Quem é mais errado? Alex ou aqueles que agora querem subjugá-lo?

Interessante que o filme é muito fiel ao livro, encerrando-se apenas um capítulo antes do final escolhido por Burgess. Mas a experiência do livro sempre vai ser mais completa, na humilde opinião desta que vos escreve.

"Laranja Mecânica" é a obra de um autor visionário, alguém que de alguma maneira enxergou muito antes exatamente o que estava para acontecer. Um livro lançado em 1962 não poderia estar mais atual em sua discussão sobre violência, limites e o controle que o Estado tenta exercer o tempo todo sobre nós e, especialmente, sobre aqueles que de alguma maneira se destacam.

Leitura de primeira qualidade. Vale muito a pena!



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