8º LIVRO DO ANO

"DESONRA", J. M. COETZEE


Esse livro eu recebi da TAG- Experiências Literárias, uma espécie de clube de livros da qual eu participo. E escolhi participar justamente para ter este tipo de experiência de leitura. Dificilmente eu compraria este livro, não por algum motivo específico, mas sim por desconhecimento. Ou por prioridade (já que minha lista de livros por ler/adquirir apenas aumenta) e este título não estava incluso em nenhuma delas. Porém, posso afirmar que é uma leitura maravilhosa!

Eu já conhecia boa parte do enredo, porque havia visto o filme com John Malkovichi (e o critério de leitura desse mês é ler livros que viraram filmes...) há muitos anos atrás e foi um filme que me chamou muito a atenção, apesar de não ouvido falar dele na época de lançamento (ou seja, não foi um blockbuster... Obrigada, Internet! Obrigada, Torrent! Algumas coisas só vocês nos proporcionam!!!), mas é uma história profunda e tensa, que traz situações que nos levarão a questionamentos interessantes e necessários.

O livro narra a história de David Lurie, um professor universitário (branco) que vive na África do Sul  numa época conturbada, pós- Apartheid, numa sociedade que parece ainda estar se ajustando a essa realidade (e acredito que ainda não tenha se ajustado, até hoje). David já se separou duas vezes, mas diz estar tranquilo sexualmente (essa parece ser uma preocupação e prioridade dele, esse tipo de bem estar). Uma vez por semana, uma hora e meia, ele conta com os "serviços" de uma bela e jovem mulher (negra) que, diante de seu pagamento, passa as tardes com ele. Porém, um dia, essa rotina é quebrada: a mulher não pode (não quer?) mais encontrá-lo. Nesse meio tempo, sem saber bem o que fazer, David Lurie faz a pior "escolha" possível:  envolve-se num escândalo sexual com uma de suas alunas (negra). Esse é o primeiro incômodo do livro... Justamente porque falando assim, pode parecer muito simples, mas não é. Não foi bem um namoro. Mas também não foi exatamente um estupro... A questão é: até que ponto o professor branco não submeteu sua aluna negra? Até que ponto David Lurie não usou da hierarquia nessa relação para obter prazer? E essa hierarquia dizia respeito apenas a relação professor-aluna ou se estendia a questão racial ainda muito recente?

Esse é o primeiro conflito do livro. David não é um protagonista fácil de se simpatizar. Ele é fruto de uma sociedade muito mais complexa do que se pode imaginar, cresceu num lugar em que é muito complicado essa relação de poder homem x mulher, brancos x negros (escrevendo isso, fica mais evidente ainda o quanto as coisas no nosso mundo ainda são complicadas. Na verdade, me parece que este tipo de conflito só está começando a ser pensado em toda a sociedade. Talvez em algumas este tipo de conflito seja acessível ao diálogo, mas de maneira geral o mundo todo ainda não superou esses conflitos. Talvez pareça mais óbvio na África do Sul dessa história contada por Coetzee, mas na verdade esse é um conflito atual e democrático: atinge a todos, no mundo todo, de alguma maneira). 

O desenrolar da história encaminha para uma denúncia de abuso, um julgamento dentro da instituição de ensino e o afastamento do professor, que então resolve se distanciar de tudo buscando refúgio na casa da filha, longe da cidade. Lucy, filha do segundo casamento, mora atualmente sozinha numa fazenda, onde vive do que planta (para se alimentar e para produzir lucro) e tem um canil. Conta com a ajuda de um homem, Petrus, que vive com sua esposa na propriedade. Aparentemente, pai e filha se dão bem, mas um acontecimento terrível coloca essa relação em xeque e o conflito se estabelece. E você, leitor, ficará no meio desse conflito, analisando ambas as partes, compreendendo (ou não) cada uma delas. E vai entender melhor o que se passa na cabeça de David: um homem (que se julgava) tão autossuficiente de repente se vê tão ultrapassado, desnecessário... Mas, já aviso de antemão: não será fácil, não será simples entender isso. Conforme as coisas vão aparecendo, conforme as situações vão se colocando, sua compreensão de que não são tão simples as escolhas que os protagonistas dessa história precisam fazer. E mais: as consequências dessas escolhas são inevitáveis, marcantes e profundas...

O filme é muito, muito bom, com uma atuação marcante de Malkovichi. O livro, portanto, não poderia ser diferente e nos deixa com a impressão de um soco no estômago. Ou melhor: de algo que está ali, é incômodo, mas que precisa ser resolvido, não pode mais ser protelado. Os conflitos são muito bem construídos pelo autor, ele consegue transmitir o pesadelo vivido sem ser vulgar ou ofensivo demais ao leitor. Muita coisa não precisa ser profundamente exposta para que você consiga compreender tudo o que ela envolve. A palavra desonra do título pode ter seu significado compreendido em vários momentos da história. 

Leitura fantástica, rápida não apenas pela quantidade de páginas, mas também pela maneira como envolve você na trama, "Desonra" é uma livro que merece ser lido e que ecoará em seu cérebro por um tempo após o final da leitura. 

Super recomendo!

BOA LEITURA!

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