12º LIVRO DO ANO #mulheresparaler

"DE CUBA COM CARINHO", YOANI SÁNCHEZ


Sou curiosa por tudo o que acontece em Cuba, ou pelo menos tento me informar por um motivo bem simples: eu (e boa parte do mundo) quero (emos) entender como as coisas podem continuar da maneira que estão lá. 

Não sou ingênua a ponto de achar que o capitalismo selvagem que nos engole todos os dias é o melhor regime de governo,pelo contrário: consigo enxergar  as arbitrariedades desse sistema e toda sua injustiça - tanto nas mãos de tão poucos e essa concorrência absurda entre todo mundo. O dinheiro nunca é o suficiente, compramos não por necessidade, mas por querer ter. Por que? Porque sim! Mas o que acontece em Cuba é uma afronta ao bom senso. E tenho curiosidade em saber o que passa uma pessoa que viva lá, com todas as privações possíveis. E o pior, o constante fingimento literalmente "para inglês ver" de que tudo está bem: os turistas tem alguns limites ao andarem pela ilha, já para que vejam o que é interessante (ou organizado) para ser visto.

Já li outros dois livros sobre a ilha de Fidel ("Nossos anos verde-oliva" e "A vida secreta de Fidel"), obviamente escrito por pessoas que não estão mais em Cuba. É revoltante, assustador. pessoas que pedem a volta da ditadura deveriam ler mais. Mas, como eu disse, o nosso sistema também não são só flores - muito pelo contrário. Tenho a impressão que vivemos uma ilusão capitalista sob o jugo de ferro de uma ditadura encoberta. Uma confusão.

Este livro, especificamente, é uma compilação de textos do blog Generacion Y, alimentado por Yoani Sánchez, cubana formada em filologia hispânica e que chamou a atenção do mundo ao driblar todas as limitações impostas pelo governo castrista e publicar na internet  o que acontece em seu país. Coisas que chocam, que revoltam... eu quase pintei o livro todo tentando destacar o que mais me chamou a atenção.




Yoani é casada e tem um filho já adolescente. Não se conforma com os acontecimentos políticos de seu país e se achou covarde no tempo em que não falou o que pensava, não se manifestou contra as imposições existentes. E hoje vive com quatro brutamontes que se revezam na portaria do edifício em que mora apenas para vigiar seus passos (isso em 2007, mais ou menos, época da escrita do texto). Ela fala da caderneta de racionamento, do fato de morar numa ilha e não ter peixe para comer, até sal faltar. De crianças que fazem juramentos pretendendo ser "como Che" (sem sequer terem noção do que estão fazendo) numa sala de aula em que há seis - SEIS - retratos do líder decrépito que a acusa de ser "um produto da CIA", uma "infiltrada dos inimigos da revolução". Yoani é uma forte, sem sombra de dúvida.

O livro é rápido de ser lido, muitos textos são curtinhos mas todos tem muito a dizer. Difícil é destacar uma passagem apenas. Como quando ela cita que para usar a internet dos hotéis - ou seja, restrita a estrangeiros hospedados - ela se passa por turista, já que sua pele clara pode enganar os mais incautos. Ou como ela disse que seu círculo de amigos vai diminuindo com as partidas clandestinas pelo mar do Caribe, em direção a Cuba. Ou como conseguiu montar - sim, montar- seu primeiro computador até conseguir - também no mercado negro - o seu laptop. Como tudo o que temos aqui, às vezes com desperdício, lá é artigo de luxo, raridade. A desmotivação dos professores, as poucas opções de estudo e salário miserável, o descaso com os hospitais nos quais famílias tem que levar tudo, desde o lençol da cama até as seringas descartáveis e o veneno para matar as baratas, material de limpeza para o banheiro... É um relato assustador.

Isso é ser revolucionária. Isso é ser forte. Isso é matar um leão por dia. Enfrentar o sistema. Não se corromper.

O livro só não me deixou melhor porque me fez refletir sobre o quanto somos acomodados com a nossa situação e como é difícil sair do lugar comum. O quanto ainda temos que evoluir intelectualmente para conseguir mudar tanta coisa errada em nossa sociedade atual. O quanto nos falta coragem e inteligência, mas nos sobra arrogância.

Leia sim esse livro. Vale cada linha!

"Em uma sociedade como a minha, pronunciar-se é o caminho mais curto para atrair problemas."


"Tomamos cuidado para que ninguém se aproxime lascivamente dos nossos filhos, porém, poucos se dão conta quando a mão-boba se concentra nas mentes e não nos corpos."

"Como também não tenho vocação para mártir, procuro fazer com que não me falte o sorriso, porque as gargalhadas são pedras duras para os dentes autoritários. Assim, continuo a minha vida, sem deixar me transformar em puro gemido, em um só lamento."

Comentários

Postagens mais visitadas