18º LIVRO DO ANO

"VIDAS SECAS", GRACILIANO RAMOS
Li este livro pelo meu app Kindle no celular. Aliás, recomendo. Muito prático, bonito e fácil de usar (pensar que não ganho um centavo pra falar isso, é só por saber que funciona mesmo...rs)

Vamos ao livro.

"Vidas Secas", de Graciliano Ramos é considerado um dos 100 livros essenciais da literatura brasileira na lista da revista Bravo (que já comentei anteriormente). Encontrei na biblioteca do Kindle, baixei e deixei ali para ser lido em situações fora de casa ( tipo ônibus, espera de médico e por aí vai). Minha surpresa foi descobrir que é uma leitura relativamente fácil. A linguagem usada pelo autor é muito acessível, a história é curta... Mas tem um "porém"...

Que livro triste!

Pode ser a fase da vida, o momento do dia, não sei dizer. Sei que senti uma tristeza enorme quando lia essa história. Principalmente por ela ser tão real, tão próxima de nós. Ainda, em pleno século 21, ouvimos histórias horríveis de seca no nordeste do país (para não fazer considerações pelo mundo); esse ano tivemos inclusive uma crise hídrica horrível em São Paulo (fruto do mais do desgoverno do que necessariamente da escassez de chuvas...enfim) mas eu me lembro muito claramente de quando eu era pequena e víamos cenas horríveis de seca e fome no nordeste no noticiário. As carcaças de bicho caídas no meio do que parecia um deserto sem fim, mas era só a caatinga ardendo, poerenta... pessoas comendo palma, um tipo de cacto, muito amargo ou tomando fubá com água barrenta de algum açude perto do fim.

"Vidas Secas" nos conta a história da família de Fabiano, retirante que sai com a família enfrentando a fome e o calor escaldante em busca de um lugar melhor, que proporcione abrigo, trabalho e comida. Vão com ele a esposa, Sinha Vitória, e seus dois filhos, só chamados de "mais velho" e "mais novo". Ah, claro, e a cachorrinha Baleia (que é uma história a parte...)

A "secura" da vida está em tudo. No desalento, no cansaço...No analfabetismo, que impede de contestar a conta do patrão (que sempre é bem menos do que Sinha Vitória, mulher inteligente, calculava), que faz o menino levar cocorote na cabeça porque queria entender a palavra inferno - como uma palavra tão bonita poderia ser uma coisa tão ruim? Há uma família, há laços ali, mas é uma falta de perspectiva tão grande que chega a ser desalentadora. É só esperar o dia amanhecer e viver como der. Sem saber, sem descobrir. É quase uma vivência "natural", como li no posfácio comemorativo aos 70 anos do lançamento do livro (2008). São como várias crianças ali, juntas, sem saber muita coisa da vida, sem saber como melhorar e querer tão pouco como melhoramento pra vida. 

Os capítulos vão representando o fluxo de pensamentos dos personagens e vai variando. Lógico, Fabiano, o pai da família, aparece mais vezes, mas até Baleia, a cadelinha tem também seus "pensamentos".  Os momentos de injustiça, de dúvidas, os devaneios, os medos... Fabiano é "cabra macho", um homem distante dos filhos porque seu pai deve ter sido distante dele, achando que era assim que se ensinava um homem a ser homem. A mulher é seu porto seguro, mas não vemos cenas de carinho, de contato. Mesmo com os filhos, há cuidado e preocupação, mas bem diferentes do que hoje em dia nos convencionamos chamar de "família". Os tempo, a visão do tempo, as mudanças que vem com ele são coisas que só a leitura desse tipo de obra pode proporcionar para a gente.

É uma leitura muito boa. Um texto que consiga tocar tão profundamente o sentimento do leitor não é um livro ruim, pelo contrário. Esses são os bons, aqueles que despertam você para a história.

Obrigada por ter chegado até aqui. Não repare a bagunça, volte sempre. 

;-)

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