19º LIVRO DO ANO

"As meninas", Lygia Fagundes Telles


Esse é mais um livro que conheci graças à indicação da Tati Feltrin e que decidi ler por conta do desafio do Calendário Literário do Vitor Martins (lembrando que esse mê o desafio é "ler um livro nacional").

O livro tem uma narrativa que vem num fluxo de pensamentos que foi um pouco difícil para mim no começo. VEJA BEM, não disse que é ruim, disse que foi um pouco difícil porque sai do lugar comum que pode ser  ler sempre a mesma coisa ou sempre coisas muito parecidas. O ponto de vista de cada uma das personagens, os desejos delas vão meio que nos atropelando. Vão algumas páginas até que você consiga se acostumar.

São três personagens e a ambientação é no ano de 1969. As três meninas - Ana Clara da Conceição, Lia de Melo Schultz e Lorena Vaz Leme - vivem em um pensionato de freiras e são muito amigas apesar de serem provenientes de mundos tão diferentes: Ana Clara é modelo, dona de uma beleza peculiar, Lia é revolucionária, quer lutar contra a ditadura instaurada e Lorena é de família quatrocentona, a "dondoca" do trio. Apesar das diferenças, elas parecem muito unidas. E como é um livro que fala de gente, de cotidiano, cada qual tem seus problemas : Lorena, apaixonada por um homem casado, vive a espera da decisão dele; Lia está no aguardo da soltura de seu namorado também revolucionário para juntos continuarem sua luta e Ana Clara está com um sério problema com drogas.

São esses interesses que vão movendo a narrativa, como cada uma delas se envolve - ou não - no problema da outra. Foi essa narrativa fluida, especialmente sob o ponto de vista de Ana Clara, que me fez estranhar um pouco. Seu pensamento confuso -sempre sob o efeito de drogas, em turbilhão, me atordoou um pouco inicialmente, mas acho maravilhoso quando um livro mexe nesse nível de emoção com a gente. E, lógico, é aos poucos que você como leitor vai se ambientando na vida de cada uma delas, no momento em que cada uma vai se apresentando, mas sempre com esse fluxo contínuo, nada linear de pensamentos e diálogos. Muitas vezes, vai de uma para outra sem ser muito específico: são os interesses que vão nos mostrando que é outra menina falando.

A imaturidade, a descoberta da vida, a influência das memórias e vivências da infância não tão distante faz dessa história delicada mas ao mesmo tempo densa, profunda. As meninas estão vivendo agora os problemas, pensando e idealizando o futuro num país em plena ditadura militar (essa questão política é mais aprofundada com Lia, mas as outras duas conseguem mostrar o pensamento de muitas pessoas da época, que só queriam viver sem se preocupar em combater nada). Por isso a delicadeza da história: são jovens com problemas que podem parecer banais, mas que para elas são o centro do mundo, pois decidirão o futuro.

Temos descobertas no decorrer da leitura que me chocaram, especialmente sobre a infância (que pode ser uma época muito cruel, não é mesmo?), a relação com as famílias e com as freiras no pensionato - meio mãe, meio amigas... Ou seja, estamos falando de um livro publicado pela primeira vez em 1973 que consegue trazer temas que ainda representam tabus na nossa sociedade atual. Isso é fantástico! A autora escreveu sobre tantos temas que não conseguimos conversar tranquilamente hoje em dia numa época que - imagino eu - não se podia conversar tranquilamente sobre nada!

É um livro muito bonito, que quando chegou ao final me deu aquela vontade de recomeçar, pois tenho a impressão que eu o aproveitarei muito mais na releitura, já sabendo das surpresas e podendo me atentar a outros detalhes... É um final triste, mas ao mesmo tempo bonito. Deixa algumas dúvidas no meio do caminho, algumas incertezas mas que não comprometem a história, pelo contrário - só deixam aquele gosto de "quero mais". É um livro bonito, mas acho que a maioria só vai achá-lo bonito a segunda vista, sabe? Olha de novo que você vai ver que é muito além do que você esperava. E aí, quando você olha de novo, vê que ele é lindo... 

A escrita da autora é encantadora. É minha primeira leitura de Lygia Fagundes, mas pretendo ler mais. Ela tem vários contos publicados, coletâneas e romances e este ano ela foi indicada ao prêmio Nobel de Literatura. Foi uma das primeiras mulheres a se formar em Direito na Faculdade do Largo São Francisco - ou seja, uma desbravadora. Escrever a história de "As meninas" na época da ditadura, após o contra-golpe de 68 (num momento em que toda obra era vigiada de perto) foi mais que desbravar, foi ousar.

Excelente leitura!

Aproveite!!




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