22º LIVRO DO ANO #VEDATONA

"FIDEL, O TIRANO MAIS AMADO DO MUNDO", HUMBERTO FONTOVA


O autor Humberto Fontova, segundo a "orelha" da obra, é um cientista político formado em Harvard, mestre em estudos latino-americanos, colunista e comentarista político em língua inglesa e espanhola. Em 1961, aos 7 anos de idade, ele, sua mãe e irmão eram aceitos como refugiados políticos. O pai ainda ficaria um tempo em Cuba, como prisioneiro político.

Eu viverei mil anos e nunca vou conseguir entender Cuba, menos ainda a atitude dos EUA sobre o país. Não me refiro somente ao embargo imposto durante tantos anos, mas especialmente ao estado de inanição que "os donos do mundo" mantém a respeito dos Castro. Tento ler tudo o que consigo a respeito, mas sempre tenho em mente que é um lado contando a história. Um simpatizante de Fidel jamais escreveria uma biografia dizendo sobre sua tirania e crueldade, assim como alguém contra o Castrismo (existe gente a favor? Sério?) jamais exaltará algo feito por ele, ainda que fosse de alguma maneira positiva. Mais ou menos parecido com a eferverscência política que assola nosso país (e que vou me abster de falar qualquer coisa.) Outro dia li que "pesquisas apontam" (adoraria conversar com as pessoas que dirigem certas pesquisas...) que "esquerdistas são mais inteligentes". Fico me perguntando se, depois de um mês vivendo como um autêntico cubano  - não como um turista visitando a ilha, que aliás tem uma belíssima natureza - ou como um venezuelano, se após passar por tudo o que aquela população passa, todas as privações, se ainda se considerariam inteligentes. Apoiar qualquer tipo de ditadura é, para mim, claro sinal de falta d inteligência, nunca de abundância dela.

Já li outros livros de cubanos hoje exilados :"Nossos anos verde-oliva", de Roberto Ampuero, um autêntico comunista, forjado na ilha, visitante da Alemanha Oriental e que tem muito a contar sobre o regime e "A vida secreta de Fidel", Juan Reynaldo Sanchez (esse ex-funcionário de Fidel, conhecedor de algumas ~peculiaridades~ do ditador); li recentemente o "De Cuba com carinho", da Yoani Sánchez, blogueira que ainda está na ilha (e pelo jeito vai demorar bastante para conseguir sair de lá, infelizmente...) e que mantem seu posicionamento anti-castrista ferrenhamente (aliás, caso interesse, todos tem resenha aqui no meu "broguinho"). Tenho o que parece ser uma espécie de curiosidade mórbida sobre como vivem as pessoas com tamanha restrição de TUDO ainda mais nos dias de hoje, que parece que precisamos ter sempre mais e nunca é o suficiente. Isso me refiro ao mais básico, como comida, bebida, roupa, informação. Acho um absurdo um regime como esse não apenas se perpetuar como também gerar frutos  no mundo de hoje (mas esse é apenas um absurdo dentre outros tantos que vemos todos os dias... O mundo é muito grande e cabem muito absurdos nele. )

Enfim, vamos ao livro.

Fontova vai nos contar do seu ponto de vista o golpe dos irmãos Castro, alguns detalhes talvez desconhecidos ou pouco divulgados da vida deles e o modo de governar. É principalmente, uma crítica não apenas a Fidel e seus asseclas, mas principalmente a toda uma sociedade que passou a enxergar tudo o que acontece em Cuba como "normal". A passividade da ONU, dos Estados Unidos e do mundo que ainda trata Fidel como um chefe de Estado respeitado, quando muitas vezes critica outros governantes que fazem igual a ele. Critica o que chama de "idiotas úteis" como Oliver Stone, Michael Moore e Steven Spielberg, que se deliciam com o encantos de Fidel e se encarregam de reforçar a imagem de "líder bondoso" que ele adora ver difundida. Jornalistas que poderiam denunciar  ou ao menos dar voz a testemunhas que viram de tudo na ilha - tortura, perseguição, morte, requintes de crueldade que chocam quando contados em detalhes - mas que preferem não se indispor. Fontava lança um olhar sobre tudo isso, com base em noticiário, entrevistas e testemunhas oculares. Essa parte é interessante...

O que talvez vá exigir um pouco mais de  paciência é que Fontova faz tudo isso movido a paixão. Em muitos momentos ele é sarcástico, debochado. A fim de desvalorizar a figura emblemática de Fidel, no afã de  mostrar o "verdadeiro" Fidel, Fontova se perde um pouco ou erre um pouco a mão. Em alguns momentos vai dar voz a teorias da conspiração no mínimo curiosas (como quando diz de documentos que comprovariam o envolvimento indireto de Fidel na morte de Kennedy - os EUA saberia disso e teria "deixado quieto". Por quê?), em outras vai narrar atrocidades detalhadamente, com descrição fidelíssima a gestos, palavras que acabam meio que teatralizando a narrativa de execuções no paredón (coisas horríveis demais). Veja bem, sendo de quem trata o livro - Fidel Castro é, para mim, capaz de tudo isso e muito mais - acredito que Fontova peca um pouco ao colocar em risco sua credibilidade usando desse ódio destilado. Não que eu não veja razão para ele odiar Fidel, apenas acredito que há maneiras diferentes de se fazer isso. Eu, que não sou tão graduada como ele me preocuparia em escrever ipsis letteris o que eu quisesse contar - do que vi, do que vivi. E para dar mais credibilidade, escreveria evitando despejar sarcasmo... Imagino o quanto deva ser difícil saber que seu pai está preso, que você pode passar todo tipo de provação por estar em uma terra estranha e, apenas por ser humano, impossível não se emocionar com os relatos de cubanos que arriscaram suas vidas - o livro começa com uma narrativa falando de um bote cheio de cubanos que é perseguido pela polícia de Fidel para pedir a entrada nos Estados Unidos. Uma coisa terrível, com várias mortes de mulheres e crianças. Mas escrever com emoção é para mim, que escrevo movida por mera intuição, sem técnica. 

Quer ver o exemplo? " Eis um pequeno chorão metido, queridinho da professora, filhinhos da mamãe (seus pais eram bolcheviques ricos) , m abstêmio sem senso de humor,um burocrata fatigante,um notório estraga-prazeres e um completo retrógrado" (pág.145-146). Sabe de quem ele está falando? Che Guevara. 

Espero que eu tenha me feito entender. Talvez você deva ler o livro e a paixão contida nele vá te tocar de outra forma. Eu espero viver para ver Cuba livre da ditadura dos Castro. Mas acho que credibilidade é tudo. Me ocorreu agora que talvez esse livro tenha apenas um público específico: cubanos e descendentes que precisam conhecer melhor Fidel e saber que ele não é o que Hollywood transmite. Nesse caso, estou aqui de xereta. Mas ainda assim eu pensaria em uma forma melhor.

Lembrando que esta é minha opinião sobre o livro, mas que cada pessoa é uma pessoa. Se você quer tirar suas conclusões, por favor, faça-o. Saber nunca será demais nem ocupará espaço.

Boa Leitura!

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