27º LIVRO DO ANO

"AS VINHAS DA IRA", JOHN STEINBECK

Coloquei várias capas, já que o livro já teve várias edições desde o seu lançamento em março de 1939.


                                                                                                            Esse aqui foi o que eu li.






Esse é do aplicativo Kindle para celular, que eu também leio sempre que possível (afinal, o celular está sempre à mão...)


Terminei a leitura desse clássico de John Steinbeck e, olha, que belezinha de leitura!

É um drama que conta a história da família Joad: a mãe, o pai, os filhos jovens adultos Noah, Tom e Rosa de Sharon, Al,  os filhos pequenos Ruthie e Winfield, tio John, o avô, a avó e o marido de Rosa, Connie. Eles são empurrados para uma aventura nada divertida  depois que grandes empresas agrícolas passaram a dominar as fazendas que trabalhavam com o sistema de "meeiros" (segundo o dicionário Aurélio, meeiro " Que ou quem cultiva um terreno de outrem, com quem tem de dividir o produto daí resultante."., eram famílias que tinhasm onde morar e trabalhar, garantindo seu sustento). Ou seja, com o advento das grandes empresas do setor agrícola, com suas máquinas, esse sistema quase "caseiro" foi sendo varrido muito rapidamente e as famílias foram sendo despejadas.

Falando bem sinceramente, quando comecei o livro me lembrei dos desenhos que assistíamos quando criança, daquelas famílias enormes tratadas como caipiras em situações cômicas. Mas a profundidade era muito, muito maior...

A gente começa vendo a situação da família: eles estão vendo todos os vizinhos sendo despejados, algumas casas abandonadas antes de serem queimadas ou que os grandes tratores passassem por cima delas. Estão sem trabalho, o pouco dinheiro que tem está acabando. O filho mais velho, Tom, está preso por homicídio : na saída de uma festa se desentendeu com um cara e acabou matando-o após uma briga de bêbados. O pai (é interessante que o autor trata os demais personagens por seus nomes, mas o pai, a mãe, o avô e a avó são tratados assim mesmo, sem nomes) acaba vendo um folheto laranja que diz que na Califórnia (muito, muito longe de onde eles estão) há colheita de sobra e emprego para todos. Sem muitas opções, eles decidem por todo mundo em cima de um caminhão e pegar a estrada, cheio de planos e sonhos. Nesse meio tempo, Tom recebe condicional e vai embora para casa, estranhando que as casas vizinhas estão abandonadas ou sequer existem mais. Nesse caminho , ele encontra Casy, o antigo "pregador" da Igreja que está aparentemente meditando no meio do nada que a cidade está se tornando e acaba convidando-o para acompanhá-lo.

A chegada de Tom, a princípio, gera certa apreensão, mas quando ele explica que saiu "limpo", sem fugir de sua pena, a família fala dos planos e logo incluem Tom e Casy.

Pois bem, quando eles caem na estrada é que a coisa começa a adquirir o ar de drama que é o mote da história. É uma viagem longa, sofrida, cheia de percalços, com idosos, crianças, mulher grávida, falta de água (imagina atravessar o deserto da Califórnia?) sem contar a desconfiança de policiais, comerciantes, moradores que não aceitavam bem a chegada de forasteiros. A maioria (foi um verdadeiro êxodo) eram famílias grandes, mas a maior parte de gente decente que se viu obrigada a sair da terra conhecida desde o nascimento e que, ao verem filhos passando fome e adoecerem, são capazes de coisas que não fariam em uma situação normal. Enfim, a história toda é muito triste, porque é muita ansiedade ficar imaginando o que vai acontecer. Você adquire  empatia muito grande com os personagens e muitas coisas tristes acontecem, às vezes com os próprios Joad, às vezes com pessoas ao seu redor.

Como se pode desconfiar, a chegada na Califórnia não é exatamente o que se esperava, já que eram milhares de pessoas com o mesmo intuito - trabalhar na colheita de frutas- e o excesso de mão de obra faz os salários oferecidos despencarem. Fora o tratamento desumano que recebem... E os Joad vão vivendo...

Quero destacar, especialmente, o papel da Mãe nesse contexto todo. Pouco a pouco ela vai tomando o comando da situação, mostrando-se uma figura forte, de opinião. Ela transforma os Joad em um matriarcado. Ela toma decisões importantes, chama todos à sua responsabilidade, não desmorona em situações que fariam qualquer um se destruir emocionalmente. Ou seja, em tempo de feminismo e empoderamento feminino, é tocante ver como uma figura responsável principalmente por cuidar da família acaba se transformando na figura principal, de decisões em uma época que isso era praticamente impossível de ser visto. É muito lindo acompanhar a transformação dessa mulher. Como ela é forte!

Não vou falar mais pois já contei bastante, mas este livro é de uma beleza crua, uma história tocante que em muitos momentos, inevitavelmente, eu me lembrei de "Vidas Secas". A dor, a tristeza, a coisa do dia tornar a nascer e ter de ser enfrentado é muito profunda, muito verdadeira, muito bela, mas de uma maneira triste. Não desista dessa narrativa por ser triste, encare-a por ser forte, por ser um belo exemplo do que é ter que encarar situações adversas, mas que estão ali e precisam ser superadas.

O filme (que ainda não assisti) também é muito elogiado e está disponível no YouTube. E esse texto pode deixar bem mais clara a importância dessa história para o país mais influente do planeta do que eu fiz em meus humildes escritos. Mas leia o livro. Vale muito, muito a pena, não é uma história cansativa, não tem um vocabulário difícil, mas tem passagens fantásticas que tratam de humanidade, injustiça e de se fazer o que precisa ser feito. 

BOA LEITURA!

“Caminhamos porque somos obrigados a caminhar. É o único motivo por que todos caminham. Porque querem alguma coisa melhor do que têm. E caminhar é a única oportunidade de se obter essa melhoria. Se querem e precisam, têm de ir buscar. É pena que se tenha de lutar tanto assim.” 

“Uma mulher tem a vida toda nos braços, o homem tem ela na cabeça.” 

“Nos olhos dos homens reflete-se o fracasso. Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as vinhas da ira diluem-se e espraiam-se com ímpeto, amadurecem com ímpeto para a vindima.” 

“Tenha-se medo da hora em que o homem não mais queira sofrer e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade básica da humanidade, é a que a distingue entre tudo no universo.” 


JOHN ERNST STEINBECK

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