30º LIVRO DO ANO

"AS BOAS MULHERES DA CHINA", XINRAN


Atualmente, no Brasil, as coisas estão fervendo. A política está em meio a uma série de denúncias, a presidente está afastada e há uma série de acusações por todos os lados - direita, esquerda, centro... Ninguém está satisfeito, todos se sentem injustiçados ou perseguidos. E, na última semana, chegou a grande mídia a triste notícia de um estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro. Uma coisa medonha: uma menina de dezesseis anos foi estuprada por 33 homens, que colocaram na internet imagens do crime, certos da impunidade. 

Esse é o ambiente em que este livro pequeno, mas profundo , me encontrou.

Xinran, a autora, é uma jornalista chinesa nascida em 1958 que entre os anos de 1989 a 1997 apresentou um programa de rádio de grande sucesso chamado "Palavras na brisa noturna". O programa se propunha a discutir situações de mulheres dentro do contexto que o país se encontrava - ainda sob o domínio de uma ditadura brutal que já havia causado danos irreversíveis ao seu povo. E, como já se sabe, as maiores vítimas dentro de regimes brutais são as mulheres. Xinran, a princípio, não pretendia debater exclusivamente isso, até porque muitos assuntos eram proibidos - como homossexualidade ou críticas políticas, por exemplo. Mas Xinran, ela mesma com tantas dúvidas e feridas, passou a tentar desvendar as características das mulheres que formavam a sociedade chinesa, tentar compreendê-las ou apenas ouvi-las.

Com isso, ela passou a atender toda noite ouvintes e, com o tempo, passou a disponibilizar uma secretária eletrônica para que as ouvintes deixassem suas histórias. 

E que histórias!

Quanta dor e sofrimento um ser humano pode aguentar antes de enlouquecer? Até que ponto chega a maldade humana? Em grandes catástrofes, a solidariedade aumenta, não é mesmo? 

Essas perguntas permeavam minha mente o tempo todo durante a leitura desse livro. 

Além das atrocidades cometidas sob o manto do Partido, da implantação do Comunismo e dos anos da chamada "Revolução Cultural", quando filhos dos chamados contrarrevolucionários eram humilhados, estuprados e sofriam todo tipo de tortura psicológica que se pode imaginar, Xinran também vai falar com duas mulheres que sobreviveram ao grande terremoto de 1976 que deixou mais de 300 mil mortos. Essas histórias, especialmente, me marcaram profundamente, a ponto de eu ter que interromper a leitura para me recuperar. É muita dor, muita dor para um só povo. 

Estamos falando, obviamente, de uma cultura bem diferente da nossa. Os chineses tem uma certa "aversão" ao feminino, como se a mulher fosse apenas mais um apetrecho do lar do que um ser humano (mas às vezes tenho a impressão de que muita gente pensa assim também no ocidente...). Acredito que hoje possam ter ocorrido algumas mudanças, mas é impossível saber já que o Partido continua governando e não é possível ter certeza de nada que se publica a respeito de lá. Na verdade, eu muito mais espero que tenham acontecido mudanças do que de fato acredito. Até que ponto a situação política do país pode ter influenciado o pior e mais cruel lado dos seres humanos que viveram esses anos de chumbo a partir de 1969?

Uma coisa que me chamou muito a atenção é a questão da sexualidade. Ela não tinha espaço nem dentro de casa. Então você vê mulheres, jovens adultas que não sabem como se engravida ou como é uma relação sexual. Até que ponto... até que ponto... É chocante...

Xinran passou a procurar mulheres e ouvir suas histórias. E juntou tantas que precisava escrever isso em livros. Eram muitas vidas dentro dela, ela precisava expandir para não explodir.  Mas na China isso seria impossível, então em 1997 ela foi para Londres com seu filho Panpan, onde mora até hoje.

Eu não vou contar as histórias que li, pelo contrário, vou pedir que você, de alguma forma, leia esse livro. É profundo. É triste. É belo. É revoltante. É uma forma de conhecer outra cultura, outro mundo que a gente nem sempre imagina que pode existir. E isso é importante: saber o que se fez de mal para que não se repita. Saber o que está errado para que se combata.

Aproveite profundamente esta leitura. Tenho certeza de que ela vai mudar a sua maneira de ver algumas coisas. Nós também somos essas mulheres. Não esqueça disso.

(só um adendo: cheguei nessa preciosidade através de uma indicação da lindinha da Duda Menezes do Book Addict. Valeu!)

" No trem de volta para casa , chorei durante todo o trajeto. Chorei de novo quando peguei a caneta para escrever as experiências dessas mães. Acho muito difícil imaginar a coragem delas. Ainda estão vivas."



Comentários

  1. É uma leitura difícil por ser tão sofrida, mas muito importante. Chega ser chocante mesmo! E não é só por lá, tem disso em todo canto, infelizmente. Que mundo, heim? Leituras assim são super válidas para refletir o que estamos vivendo, e também pensar no outro.
    Fico feliz que a dica tenha sido bem aproveitada, Pat! =)
    Beijão

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