32º LIVRO DO ANO

"VOZES DE TCHERNÓBIL" , SVETLANA ALEKSIÉVITCH


Decidi escrever ainda sob o impacto de ter acabado de terminar sua leitura.

Prêmio Nobel de Literatura 2015.

A jornalista Svetlana Aleksiévitch decidiu fazer um texto em forma de depoimentos, sem muita firula. De um jeito cru e por isso mesmo muito humano. A impressão é que nós estamos ali conversando com essas pessoas. E são pessoas diversas: jovens, idosos, crianças, gente que viveu Chernobil e gente que sobreviveu a ele. Gente que tem muito o que chorar, gente que nem sabia o que estava acontecendo e ainda assim teve que arcar com as consequências. E consequências terríveis, terríveis...

Quando falamos de Chernobil, há muito pouco de novidade, especialmente se, assim como eu, você for de uma geração nascida no final dos anos 1970/início dos 1980. Foi um acidente sem precedentes. O reator da usina explodiu, enviando para a atmosfera toneladas de resíduos radiativos. Isso aconteceu em 26 de abril de 1986. A União Soviética, debaixo do regime comunista divulgava que tudo estava sob controle, que estava tudo bem. Mas, quando a nuvem radioativa atingiu a Suécia, foi impossível manter a farsa. Mesmo assim, a cortina de ferro manteve a versão do controle e de que tudo era conspiração para derrubar o regime e coisas do gênero. Uma pesquisa breve pode te dar qualquer detalhe que eu aqui posso cometer o engano de esquecer de citar. O que eu acho importante ressaltar é que aconteceu muito mais do que um acidente: aconteceu um crime. 

O fato do governo soviético demorar dias para divulgar a verdadeira dimensão da tragédia e, ao mesmo tempo, precisar manter o teatro de que estava tudo bem aliado ao fato de que pouquíssimas pessoas sabiam do que realmente se tratava a energia nuclear trouxe consequências nefastas sofridas até hoje por milhares de pessoas.

O livro nos traz mais claramente essa dimensão. Ao entrevistar as viúvas dos liquidadores e dos bombeiros que assistiram seus maridos morrerem das piores maneiras logo após retornarem da usina, pessoas que testemunham como foi abandonar suas casas tendo a promessa de que em dois dias eles estariam de volta - quando, na verdade, nunca mais voltaram, pessoas que estão, aos poucos, retornando a zona que ficou restrita por ainda ter altíssimos níveis de radiação... Cada história... Uma mais chocante do que a outra.

Impossível para mim dizer aqui tudo o que li nesse livro. Posso tentar ressaltar o que mais me chamou a atenção. Como, por exemplo, o fato de que as pessoas não tinham a mínima noção do perigo que corriam. Os bombeiros foram para a usina com as roupas do corpo e voltaram com elas para suas casas depois, para seus filhos e família. As pessoas se recusavam a ir embora porque alegavam que estava tudo normal, não havia cheiro ou fumaça ou uma cor diferente no ar. Continuavam comendo, bebendo e festejando normalmente esperando "ver" a radiação para começar a se preocupar. Outra coisa terrível era o retorno das pessoas que trabalhavam ali: altamente contaminados com a radiação, ficavam internados e se sentiam bem, como se nada tivesse acontecido (período de latência) mas, de repente, caiam doentes: logo apareciam queimaduras terríveis que vinham de dentro para fora, fígados se desfazendo, pedaços de mucosas nas bocas desses homens, evacuação descontrolada. Maneiras chocantes, sofridas, terríveis de se morrer. Apesar do governo oferecer dinheiro para quem fazia os trabalhos mais perigosos (mesmo sabendo que possivelmente eles não viveriam o suficiente para usufruir do prêmio) e tratá-los como heróis com diplomas, medalhas e mensagens na televisão o fardo ainda era muito, muito pesado para ser carregado.

Uma coisa que me peguei pensando foi sobre o fato disso ter acontecido num país comunista. Sob a desculpa de não querer causar pânico, não se divulgava a dimensão da tragédia e, consequentemente, o que fazer para se proteger dela. Por outro lado, o fato de cidadãos criados para pensar sempre no coletivo - e alguns falam exatamente assim, no plural - não deixou espaço para pensar sobre o que se fazia. Simplesmente, alguém tinha que fazer. E a maioria que ainda vive diz que não se arrepende: alguém tinha que fazer o serviço.

Não é um livro fácil. Apesar de ter sido escrito de uma maneira (dentro do possível) leve é quase impossível ficar alheio ao que é narrado ali. Em muitos momentos eu simplesmente fechava o livro e ficava analisando as atitudes, as consequências, as pessoas. Você nota claramente que há uma sequela emocional profunda - algumas pessoas estão seriamente perturbadas pelo o que viveram, viram e perderam. Gente que parece ter perdido a sanidade mesmo. Gente que se acostumou a ser discriminada por ser de "Tchernóbil". Gente que lamenta e chora. 

Não é um livro fácil. É um livro necessário. Para o mundo. 

Tem muito material sobre Chernobil, mas destaco essa matéria aqui, esse blog aqui e um vídeo de um canal direcionado para o público jovem bem aqui. Fora documentários excelentes como esse aqui... e um monte de filminhos de terror que prestam um desserviço, mas que afinal estão por aí e podem chamar a atenção.

Boa leitura!

"Em casa, tirei toda a roupa que usei (na usina) e joguei no lixo. Mas dei o barrete para o meu filho pequeno. De tanto que ele me pediu. Pegou e não largou mais. Depois de dois anos, veio o diagnóstico: tumor no cérebro. (pág. 108)

"Você não deve se esquecer de que isso que está na sua frente não é mais seu marido, a pessoa que você ama, mas um elemento radiativo com alto poder de contaminação. Não seja suicida." (pág. 28)

"Tchernóbil é um enigma que ainda tentamos decifrar. Um signo que não sabemos ler. Talvez um enigma para o século 21. Um desafio para nosso tempo. Tornou-se evidenteque, além dos desfios religiosos, comunistas e nacionalistas em meio aos quais vivíamos e sobrevivíamos, nos aguardavam novos desfios mais selvagens e totais, embora ainda oculto aos nossos olhos. No entanto, depois de Tchernóbil algo se deixou entrever." (pág.41)



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