40º LIVRO DO ANO

"HIBISCO ROXO", CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE


O livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie foi escrito em 2003 e lançado no Brasil somente em 2011. A autora vive nos EUA desde os 19 anos (nasceu em 1977) e se destaca por ter uma prosa fluida, escrita de maneira profunda e  simples. Mais um daqueles livros que você quer ver chegar ao fim, quer saber o que acontece. Ele te pega...



A Nigéria, assim como outros países da África, é assolada por uma crise sem fim que atinge, obviamente, a população mais pobre (que também é a maioria). Só conseguiu se libertar da colonização britânica em 1960, tanto que a língua oficial é o inglês. São, no entanto, mais de 500 grupos étnicos, com destaque para os hauçás, igbos e yorubás. O país é dividido entre cristãos e muçulmanos, com alguns poucos praticantes de religiões tradicionais, como yorubá e igbo. Tem um presidente eleito por votação popular, com o poder moderado pelo Senado e uma Câmara de Representantes, mas tem sérios problemas quanto à corrupção e a influência direta do patrimonialismo, religião e perseguição religiosa. (por favor, não se confunda, estamos falando da Nigéria mesmo. Parece muito com um país que você conhece, possivelmente nasceu e vive nele até hoje, mas é mesmo uma breve descrição da NIGÉRIA.) Faço essa ressalva quanto a situação do país porque Chimamanda vai nos mostrar através da narrativa o quanto essa influência foi negativa para a autoestima do povo nigeriano. Eles sentem o tempo todo o quanto são olhados com desprezo, como se fossem inferiores e como foi fácil para o colonizador estabelecer esse olhar a partir do próprio povo. Em alguns momentos, um dos personagens fala que o correto é fazer como o "branco" faz, o quanto a cultura local atrasa o "avanço" do povo. O Brasil tem muito mais de África (continente) do que gosta de assumir. .. A alegria, o canto essas características semelhantes entre os dois povos são perceptíveis e nos orgulham, mas e a autoestima destruída, a necessidade de ser reconhecido como "grande" por um país de "primeiro mundo", a corrupção e a violência que assolam nossas terras? Uma leitura tão simples e que me mostrou tanta coisa... 

Dito isso, vamos a história do livro. "Hibisco Roxo" nos dará a oportunidade de visualizar uma família nigeriana que foge dos padrões que a maioria de nós pode estabelecer ou esperar quando se trata de imaginar uma família nigeriana (j´por nossa colonização também...). Conheceremos a família de Kambilli, uma menina de 15 anos que vive com seu Papa, sua Mama e seu irmão Jaja numa belíssima casa no centro. Ela e seu irmão estudam em um colégio particular católico, vão de motorista para a escola todos os dias. Tem mesa farta nas três refeições, empregados para cuidar da casa. Seu pai, Eugene, é um Homem-Grande, ou seja: rico. Ele é proprietário de um jornal independente e tem várias fábricas espalhadas pelo país. Porém, a parte boa da história pára por aí. Papa Eugene é um católico radical, que fala de Deus o tempo todo e o usa para justificar os maiores absurdos dentro de sua casa. Ele bate nos filhos e na esposa sempre que se sente afrontado, ou quando um deles não se destaca na escola, ficando em primeiro lugar. Bater no sentido de machucar, marcar mesmo. Kambilli já se habituou a ouvir a mãe apanhar sem soltar um gemido sequer e apenas ver o olho roxo ou os braços marcados; a ter sempre um nó na garganta sem ter certeza se deve responder o que está pensando, se isso agradará o tirânico pai ou significará receber um tapa no rosto ou coisa pior . Jaja, mais velho, tenta proteger como pode Kambilli, mas é tão retraído quanto ela. É uma casa regida por horários, repressão, silêncio e orações. Eugene renega o próprio pai pois diz que ele é "pagão" por ainda seguir as tradições religiosas de seu povo Igbo. Mesmo ele estando velho, doente e miserável, Eugene mal permite que as crianças o vejam 15 minutos por ano, no Natal, sempre com ordem para não comer ou beber nada em sua casa - para não se contaminarem com nada "pagão". Aliás, no Natal eles vão para a resideência que mantém na cidade natal e ajudam toda a comunidade. É visto como um "santo" por todos, claro. No dia-a-dia, no entanto, uma atmosfera de medo reina entre a família. Obviamente, sendo o homem de posses que é, é comum que pessoas se sintam orgulhosas em apertar a mão de Eugene, que sempre tem paciência para ajudar especialmente na Igreja, que frequenta uma vez por semana e dá ostensivas ofertas. Na verdade, é um homem descontrolado, que não sei se por carregar uma responsabilidade muito grande nas costas ou apenas para manter uma imagem, pode causar muita dor e sofrimento àqueles que deveria mais amar.

Vamos acompanhando a narrativa de Kambilli e é muito triste. Especialmente quando sabemos que esse tipo de coisa é mais comum do que imaginamos. Também é possível fazer um paralelo com a situação do país, passando por um golpe e a opressão política amarrando a todos. O que traz alguma dose de alívio é quando entra em cena Ifeoma, irmã de Eugene e professora universitária. Ifeoma é viúva, tem três filhos e mora no Campus da Universidade. Quando seus sobrinhos vão passar uma semana em sua casa é que vemos Kambilli ter noção do que é uma família, que é possível ser religioso sem ser impiedoso (a tia também é católica), que é possível dialogar - os dois primos mais velhos tem quase a mesma idade de Kambilli e Jaja e gostam de questionar, perguntar, saber. Kambilli é tão reprimida que não consegue conversar sem engasgar ou ter acessos de tosse, Ter contato com a dificuldade que a tia atravessa - não é paupérrima, mas está com o salário atrasado tendo três filhos para criar num país em recessão - ajuda a Kambilli ter uma visão do mundo real, não o pequeno reino de tirania que seu pai criou.

Sei que contei muito, mas pode ter certeza que nada disso estragará sua experiência de leitura. Pelo contrário: ao conhecer a história dessa família, conhecer tantos fatos, vamos querendo saber também o que poderá acontecer, já que são inúmeras possibilidades diante do que nos é posto. É uma história triste, mas também  de esperança. Em muitos momentos eu me perguntava "mas como pode isso acontecer sem ninguém reagir?", mas já vi tantas coisas acontecerem sem reação alguma de todos os envolvidos... É um livro que faz você refletir, mas toca de uma maneira única sua vida, seu interior.

Vale cada linha.

BOA LEITURA!


Comentários

Postagens mais visitadas