42º LIVRO DO ANO

"A DESUMANIZAÇÃO", VALTER HUGO MÃE

"Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia."



Mais um livro terminado para a Maratona Literária 2016, mais um livro que não estava na minha #TBR inicial e mais um livro que li no meu Kindle! Livrão, apesar das dores e dos pesares... Essa edição é da Cosac Naify e usa em muitos momentos o português de Portugal. Nada que impeça a leitura, mas que sem dúvida faz você dar aquela paradinha e voltar a ler de novo para ter certeza de que entendeu o que foi dito/escrito.

Como eu disse, é uma leitura densa, mas que é muito interessante desde as primeiras páginas.

A história se passa na Islândia e tem início com a morte da irmã gêmea de Halldora, Sigridur. Não é dito em nenhum momento do livro qual foi a causa da morte da menina, mas fica claro desde o início o quão devastador esse acontecimento foi para a família, em especial para Halldora. A garota passa a se ver como meio morta, já que parte dela morreu. Ela faz alusão a isso por toda a história, como se gora apenas metade dela estivesse viva. Elas sempre foram uma, sempre juntas desde o ventre... e de repente, ela passa a ser singular. Para piorar a situação, o vilarejo de pescadores onde ela vive também a vê assim, como a gêmea pela metade: ela sempre ouve conversas sobre como ela sobreviveu se a irmã morreu... E a "cereja do bolo" : a mãe. As atitudes da mãe só ajudam a menina a ficar cada vez pior.Obviamente, era de se esperar que a mãe sofresse terrivelmente, mas essa depressão na qual ela se afunda tem um alvo: a menina que está viva. Ela passa a desenvolver um certo ódio pela garota, como se de alguma maneira ela tivesse culpa pela morte da irmã. Ou melhor, como se ela tivesse culpa em continuar viva. Ela passa a acusar a menina e a se automutilar. O pai teme pela vida da filha, mas sempre tão submisso ( ou talvez retraído) não reage aos descalabros que vão acontecendo na sua frente. Eles são parecidos, Halldora e o pai, mas talvez isso não ajude tanto quanto deveria... Ele apazígua as situações, mas não protege a menina da mãe como (eu acho) que deveria.  Assim, Halldora vai ficando cada vez mais isolada e distante, desprotegida dentro de sua dor. Ela visita o túmulo da irmã constantemente e acaba se tornando próxima de Einar, uma espécie de vizinho bocó de quem ela e a irmã tiravam sarro quando mais novos e , por sinal, nem um pouco querido... Essa aproximação vai trazer uma mudança na vida da garota mas também ficaremos sabendo que o Einar também tem um drama pessoal muito pesado... mas diante de tanta coisa que já se passou até as mudanças são mais para serem temidas do que bem vindas. 

E por aí vai seguindo a história... Aliás, já falei demais.

O livro é curto, dividido em duas partes: na 1ª são narradas a morte de Sigridur e todas as suas (nefastas) consequências para a vida de Halldora até seu encontro com Einar. Na 2ª parte, vemos como a vida de Halldora fica quando, finalmente, ela se afasta da mãe.

O livro é triste, todo muito triste. Uma história dura e fria como os fiordes islandeses... (aliás, muito citados no decorrer da história).


Algumas fotos do que são os fiordes. 

"Fiorde é uma grande entrada de mar entre altas montanhas rochosas. Os fiordes situam-se principalmente nas costas da Noruega, Groenlândia, Chile e Nova Zelândia, onde são um dos elementos geomorfológicos mais emblemáticos da paisagem, e têm origem na erosão das montanhas devido ao gelo."

Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre


Acredito que a desumanização do título remete ao processo pelo qual Halldora vai passando. Ela tem apenas doze anos, mas conhece desde muito cedo a crueldade humana. Eu passei boa parte da leitura torcendo por uma reviravolta, uma reação positiva de mudança para as coisas melhorarem. Mas tudo sempre acaba voltando para morte e dor. Esse processo vai meio que "coisificando" a personagem. Ela sobrevive, não existe.

Triste, muito triste...

Mas , ainda assim, a escrita de Valter Hugo Mãe nos tira da zona de conforto e nos ganha logo de cara. Apesar da densidade da história (ou talvez justamente por ela) "A desumanização" é um livro bonito, profundo e triste.

Vale a pena arriscar.

BOA LEITURA!



"Um homem não é independente a 

menos que tenha coragem de estar 

sozinho. "

                                                              (Halldór Laxness)




"A maior vulnerabilidade do 

humano, a contingência de não 

lembrar  e de não ser lembrado." 


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