45º LIVRO DO ANO

"SÓ GAROTOS", PATTI SMITH




Meu pai é quase 20 anos mais velho do que minha mãe. Após o término de um casamento imaturo em Minas Gerais, ele veio para São Paulo: meio louco, meio sem destino, meio revoltado, meio triste... Meu pai já era um homem nessa época, mas ainda jovem. Assim como a cidade que o recebeu: transformando-se aos poucos na monstruosa beleza que é hoje. Eu cresci fascinada pelas histórias que meu pai contava e até hoje é muito gostoso andar pelo centro de São Paulo com ele: há muitas histórias sobre algumas esquinas, alguns prédios, alguns bares que ainda estão lá ou onde hoje só existe a estrutura física de algo que há 40, 50 anos atrás era outro estabelecimento. Prédios que ele viu nascerem e mudanças que ele viu acontecerem. 

Ler este livro para mim foi mais ou menos me sentir novamente assim: ouvindo histórias de alguém que teve a ousadia de desbravar. 

Patrícia Lee Smith é poetisa, cantora e musicista. O livro vai narrar sua trajetória desde menina, quando já tinha várias ideias diferentes dentro de sua cabecinha, parte de sua adolescência e o seu desabrochar para a vida adulta que vai acontecer na louca Nova Iorque dos anos 1970. E tudo isso ao lado de seu amigo/irmão Robert Mapplethorpe, que viria a ser mais tarde reconhecido como um grande fotógrafo. A vida dos dois depois de se cruzar nunca mais se separou. É emocionante ver Patti narrar o que foi a vida dos dois jovens: tantos perrengues, fome, cansaço, momentos de se sentir perdido e outros de não ter certeza de ter se encontrado. Mas em nenhum momento o desejo de ir embora. Ali era o lugar deles. O momento deles. Fantástico.



"Eu era uma criança sonâmbula sonhadora. Irritava meus professores com minha facilidade precoce para a leitura e ao mesmo tempo com uma incapacidade de aplicá-la a qualquer coisa que eles considerassem prática. Todos acabavam dizendo em seus relatórios que eu sonhava acordada além da conta, que eu estava sempre em outro lugar. Onde ficava esse lugar, não sei dizer(...)"
(pág. 18)

Patti me pareceu uma artista de verdade. Uma artista de outro tempo. Aqueles artistas que possuíam um comichão que apenas dizia a eles o quanto eles eram diferentes e precisavam explodir para o mundo. Ir para uma grande cidade com 20 anos na cabeça e nada no bolso para muitos (eu inclusive) soaria como loucura. Mas, ao ler sua história, parece a coisa mais natural do mundo, como se fosse o caminho mais óbvio para ela. E ela mesma conta que nem sabia ao certo que tipo de talento a faria artista: se ela cantaria, desenharia, tocaria... Ela apenas sabia que precisa ir. E essa estadia incluiu fome (muita fome), frio, favores de amigos e desconhecidos...

O encontro com Robert, amigo fiel até o fim  foi tão incrível quanto toda a história de Patti: apesar de já ter visto-o antes, um dia ele a ajudou a escapar de uma situação perigosa. E nunca mais se desgrudaram. Primeiro, pareciam namorados. Mais tarde, mesmo com Robert descobrindo sua homossexualidade, ele nunca deixou de declarar seu amor por ela. Patti sempre foi o porto seguro de Robert em tudo: trabalho, dinheiro, amor. Um encontro tão fantástico que dá vontade de acreditar na coisa do universo estar movendo suas peças num imenso tabuleiro...


Robert e Patti





A capa do álbum "Horses" foi feita por Robert Mapplethorpe, assim como diversas outras fotos de Patti. Sobre esta aqui, no livro, ela diz :  
       
"Até hoje quando olho para essa foto, nunca me vejo. Vejo nós dois." (pág. 230)

Patti acabou fazendo sucesso como cantora e ficou conhecida como a mulher que trouxe um novo apelo a cena do punk naquela época. Ela trouxe certa intelectualidade, sendo uma artista que queria, principalmente, que sua arte influenciasse as pessoas, que fosse capaz de modificar algo ou alguém. Aquela coisa de acreditar na arte, ter amor e alma naquilo que se faz... coisa em falta hoje em dia.

É isso. O livro é sua trajetória especialmente ao lado de Robert, já que ela finaliza a história com a morte dele, em 1989, por complicações decorridas do HIV.  Ela já estava casada, seu segundo filho havia nascido. Mas o amor fraternal além de todas as contas entre eles permaneceu. Que coisa linda e rara...


" Por que não consigo escrever algo que faça despertar os mortos? Essa busca é o que arde mais fundo. (...) Mas tenho um cacho de seu cabelo, um punhado de suas cinzas, uma caixa com suas cartas, um pandeiro de pele de cabra." (pág. 254)


O título em português ficou meio estranho, já que o original - "Just Kids" - foi tirado de um trecho em que ela conta que num certo dia, ela e Robert foram até a Washington Square e ficaram admirando o movimento de turistas, artistas e gente muito louca de qualquer coisa. Um casal os observava quando a mulher pediu para tirar uma foto, já que eles deviam ser artistas e o marido respondeu "São só garotos". Ou seja, no sentido de serem muito jovens. Quase crianças. Achei a tradução meio estranha, talvez meio sem sentido... Mas foi o que ficou.

A história de Patti me remeteu também à Raul Seixas: alguém que parecia ser diferente, mas apenas era o que poderia ser. Uma história bela e tocante e que apenas é o resultado de escolhas de uma jovem de Chicago.

Valeu cada linha!

BOA LEITURA!


"Caminhos que se cruzam voltarão a se cruzar." 
Patti Smith

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