47º LIVRO DO ANO

"O CASAMENTO", NELSON RODRIGUES


Serei bem sincera ao comentar que meu conhecimento sobre a obra de Nelson Rodrigues é bem parco e modesto, limitando-se a sinopse de alguns filmes e peças de teatro e a minissérie que passou no Fantástico há muitos anos atrás chamada  "A vida como ela é" (tem alguns episódios no Youtube). Tudo isso... Que é bem pouco, sei bem.

Minha impressão sobre Nelson Rodrigues nunca foi das melhores. Concordo que ele esfrega na nossa cara um monte de puritanismos e falsos moralismos ao colocar situações no mínimo escabrosas envolvendo relacionamento e sexo - basicamente, esse é para ele o cerne de todo conflito humano. Imagino que muito do que se lê em em sua obra pode ser definido como uma espécie de pensamento, aquele pensamento enterrado o mais profundamente na mente de alguém. Algo que, por vezes só de pensar seria o suficiente para envergonhar a pessoa, mas que Nelson transforma em atitude e deixa sempre em suspenso um comentário como "todo mundo é assim"... Lógica Rodrigueana. Portanto, minha impressão sempre foi de uma obra ofensiva, feita propositadamente para afrontar e para chocar.

Cabecinha profícua de especificidades humanas, hein, senhor Nelson?

Este livro recebi da TAG- Experiências Literárias, espécie de clube do livro do qual participo e que escolhi fazer parte justamente para ter contato com obras que, possivelmente , eu não leria em outras circunstâncias que demandassem eu comprar. E, nesse sentido, esse livro valeu a pena.

Vamos à história:

Sabino Uchoa Maranhão é um rico empresário do ramo imobiliário no Rio de Janeiro do final dos anos 1960. Ele vai casar sua filha mais nova, Glorinha, a caçulinha, preferida do papai. Pois bem, às vésperas do casamento, o ginecologista da menina (e da mãe e das três irmãs de Glorinha) procura Sabino para revelar uma situação que cai como uma bomba: ele flagrou o  futuro genro de Sabino beijando seu assistente na clínica. Dois homens se beijando! Deduzindo que o futuro genro é um pederasta (pior espécie de pessoa, segundo o médico), Sabino passa a se sentir encurralado: revela o segredo e cancela o casamento milionário ou deixa tudo como está? A partir dessa dúvida, vamos viver as 24 horas que precedem o casamento e tudo o que foi acontecendo de mais louco nelas. 

O enredo é interessante, mas...

Minha opinião: livro complicado, difícil. É um livro de pouco mais de 250 páginas, mas conforme ele vai se desenrolando, vai ficando chato. Há muitas repetições de fala mesmo (por exemplo: "O seguinte, o seguinte. Ela estava batendo um documento..." ou "Boa ideia, boa ideia".) Cada pequena frases é repetida duas vezes na mesma sentença e muitas vezes aparece de novo na linha seguinte, tornando os diálogos cansativos. Apesar de ser claro que o recurso é usado para frisar um pensamento ou a insistência dele isso torna os diálogos chatos, desnecessariamente longos.  Muitos pensamentos aleatórios dos personagens nos levam para longe da ação, tirando o foco sem acrescentar nada. Me deu impressão de uma história corrida, escrita para terminar logo (diz-se que foi escrita em dois meses...). Não achei de boa qualidade. E a obra em si  achei crua demais. A intenção é utilizar o sexo para chocar, colocando várias situações que eu acho nojentamente desconfortáveis... Há de tudo: incesto, adultério, falso moralismo, assassinato, suicídio... E situações bem explícitas. Há que se contextualizar o enredo, pois também há muito preconceito, misoginia e machismo, mas como eu disse era uma outra época (se hoje em dia ainda existe tanto isso, imagine num Brasil de 40 anos atrás!). As mulheres são colocadas como seres que não merecem confiança nenhuma, os homens traem por uma questão de princípios. É necessário uma certa dose de paciência e estômago para se concluir a leitura.

A questão não é o que ele aborda, mas como ele aborda. Sei que é uma característica de sua escrita, mas que para mim não rolou muito. Começou bem e desandou... Talvez daqui há algum tempo role uma releitura, mas agora não foi uma experiência prazerosa e não é o tipo de leitura que eu recomendaria. 

Mas, tem gosto para tudo e essa foi apenas a minha impressão. 

(pág. 180)





(1912-1980)

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