51º LIVRO DO ANO

"REPARAÇÃO", IAN McEWAN


Li recentemente "A balada de Adam Henry" deste mesmo autor e gostei muito. Mesmo tendo algumas passagens em que para mim estava óbvio qual seria o desfecho, foi uma leitura prazerosa que me despertou o desejo de ler mais obras desse autor. Um dia, navegando pela internet, encontrei um vídeo da Isabella Lubrano falando sobre "Reparação". Fiquei interessada, especialmente pelo fato de que ela iniciava o vídeo falando sobre o que tem sido chamado de  "cultura do estupro" neste país. Comprei o livro em junho e comecei a lê-lo no final de agosto. E, se tem uma coisa que ficou muito claro para mim é que a leitura é mágica pois o livro vai conversar com você de acordo com o que você viveu , suas crenças e experiências no decorrer de sua vida. A experiência de Isabella e de outras pessoas pode ser bem diferente da minha, que vivi coisas muito diferentes, passei por coisas que transformaram minha visão de mundo. "Reparação" está na lista da revista Time entre os 100 maiores romances de língua inglesa publicados desde 1923.Ou seja, é, sem dúvida, um livro incrível, mas que afeta as pessoas de acordo com suas vidas (como qualquer história) e é esse o encantamento da leitura!

Este romance já virou filme : "Desejo e Reparação", direção de Joe Wright,  2007), que ainda não assisti. 

Vamos ao livro: 

É uma história familiar permeada de equívocos que vão marcando de forma terrível a vida dos Tallis, na Inglaterra de 1935. O pai, um funcionário público de alto escalão está sempre na cidade. Como o período é instável e a possibilidade da guerra é cada vez mais real, ele passa dias trabalhando. A ação acontece na casa de campo da família, aliás uma enorme construção cheia de cômodos e de espaços, com um terreno que tem lago, tem fonte... enfim, uma mansão no campo. É o verão mais quente da Inglaterra dos últimos anos e, aos poucos, a casa vai ficando cheia. Além da Emily Tallis (uma mãe ausente, sempre com dores de cabeça que a impedem de ficar muito tempo fora do quarto - mas não fica claro qual é doença dela) e de seus filhos Leon (o mais velho, que veio visitar a família e trouxe um amigo empresário como companhia - que está investindo numa barra de chocolate que alimentará os soldados no front, em caso de guerra), Cecília, a filha do meio, com 18 anos (que acabou mais um ano na Faculdade e está de férias) e Briony, filha caçula com aspirações a se tornar uma grande escritora. Chegam também Robbie, também em férias da faculdade (o filho da empregada que tem uma história com a família Tallis, muito querido por todos e que tem os estudos bancados pelo sr. Tallis), e os primos , filhos da irmã da sra. Tallis. São eles os gêmeos Jackson e Pierrot , crianças de 6-7 anos e a filha mais velha, Lola, de 15 anos. Lola se aproxima de Briony, mas logo elas tem um conflito devido a personalidade de ambas.

Pois bem, a protagonista dessa história é Briony. Ela está entrando na pré-adolescência, prestes a completar 12 anos e está em conflito consigo e com o mundo. Sempre escreveu histórias e peças de teatro que foram lidas ou encenadas para toda a família na sala de casa. Porém, agora, ela acha que seus temas são tolos e infantis e ela quer algo mais, ela quer saber o que é a vida e escrever histórias "maduras". E com esse intuito e uma imaginação fértil, ela vai fazer um coisa que marcará para sempre a vida de todos naquela casa...

Briony presencia duas situações que interpreta de forma equivocada - ou por ser muito jovem ou por estar sentindo muita raiva das mudanças em sua vida - e as leva às últimas consequências. Pela janela, ela vê o final de uma situação na qual estão Robbie e  Cecilia e faz suas deduções. Depois, uma carta equivocada e um flagrante coroam a imaginação de Briony. E para finalizar, um encontro no jardim acaba por colocar Robbie numa situação que o marcará para sempre.

O livro é cheio de pormenores, de detalhes muito sutis, quase psicológicos. O fato de estarmos o tempo todo no pensamento dos personagens torna tudo muito real, muito sensível até. São vários acontecimentos que culminam num equívoco que levará anos para ser elucidado e, nesse meio tempo, muita coisa vai acontecer. É uma história que mexeu muito comigo, mas especialmente me deu muita raiva. É uma injustiça sem tamanho o que acontece e muda a vida de todos os que estão ali naquela casa. E tudo por conta de uma menina (que não sei até que ponto tinha uma pitada de má-intenção em sua atitude), pessoas sórdidas e manipuladoras e a conveniência de tudo isso junto. 

Li e vi resenhas falando do quanto o livro provocou lágrimas, mas posso dizer que esse livro mexeu com minhas emoções sim, mas eu fiquei com muita raiva de toda a situação! Muita injustiça junta, muita coisa errada e arrependimentos tardios. Talvez a vivência de cada um é que torne isso da leitura tão magnífico, como cada um vai sentir e reagir sobre determinada situação, como eu já disse. É uma história que vai tratar disso : como nem sempre o que se vê é o que é de fato, como certas coisas (ou todas elas ) são interpretações e o perigo de não se medir certas atitudes. 

O livro é escrito de forma narrativa, descrevendo as situações pormenorizadas, em grandes parágrafos o que me deu ataque de ansiedade em certos momentos (aquela sensação de "conta logo, pelamordedeus" sabe?) , mas foi uma leitura que me acrescentou muito e me fez pensar. Quando a ação começa, quando você vê o que vai acontecer chega a dar uma certa agonia... Mas um livro que consegue causar isso nas pessoas não pode, de jeito nenhum, ser um livro ruim. Pelo contrário: fazer você se indignar com uma história ficcional pode ajudar a refletir sobre as histórias reais que estão a sua volta. Ou seja, só acrescentou... 

BOA LEITURA!


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