57º LIVRO DO ANO - MÊS DO HORROR #4

"CONFISSÕES DO CREMATÓRIO", CAITLIN DOUGHTY



O livro, por si só, já uma obra prima. Capa dura, de muito bom gosto, daqueles que você tem orgulho de exibir na estante. Colorido e ilustrado de acordo com o assunto, acabamento de primeira. A Dark Side tem sido exemplar na qualidade visual de seus lançamentos mais recentes.



Folha de Guarda.



Contra capa.


Lombada e a carta da Morte do Tarot ;-)

Vejam vocês, deixei o livro para o "Mês do horror" por imaginar que ele seria sombrio por conta do tema. Ledo engano: o livro tem sua narrativa muito clara, muito jovem, muito lúcida. E ao que se propõe a autora, falhei miseravelmente ao deixar o livro para ler numa época de leituras aterrorizantes...

Porque o objetivo de Caitlin é, principalmente, proporcionar uma reflexão sobre como consideramos a morte: algo a ser temido, evitado, escondido. Por este tema, eu imaginei que o livro teria uma narrativa mais "baixo-astral" e não é nada disso! Muito pelo contrário: Caitlin Doughty se propõe a lançar uma discussão sobre como a nossa sociedade encara a morte, algo tão intrínseco a vida, a única certeza que temos. No decorrer do livro ela vai mesclando sua experiência de trabalho em um crematório com suas impressões sobre a morte desde de pequena. 


A autora.

"Olhar diretamente nos olhos da mortalidade não é fácil. para evitar isso, nós escolhemos continuar vendados, no escuro em relação às realidades da morte. No entanto, a ignorância não é uma bênção - é só um tipo mais profundo de pavor." 

Por sua formação acadêmica, Caitlin também estudou muito sobre a Idade Média - época que morrer era tão comum que chegava a ser banal... Porém, como arranjar um emprego na área era bem limitado, ela acabou se candidatando a uma vaga no Crematório Westwind. Porém, ela conta que sempre teve uma certa proximidade com a morte e alguns problemas em gastar o seu tempo pensando em como evitá-la - muito mais por seus pais do que por si mesma. Presenciou um evento num shopping com uma criança que a deixou marcada pelo resto da vida e desenvolveu um certo fascínio pela inevitabilidade da morte.

Com isso, as experiências que vivenciou no crematório foram não só enriquecendo sua vida, mas modificando a maneira como ela enxergava a morte. Ela refere-se especialmente sobre o que chama de "indústria da morte": a quantidade de pessoas que lucram com esse momento, oferecendo embalsamento, caixões chiques (algumas vezes com a oferta de serem imitações de caixões de famosos), cerimônias rebuscadas e caras (usando sempre o apelo emocional do "mamãe merece o melhor") e por aí vai. Ela faz duras críticas à esse mercado lucrativo e a maneira cruel como se mantém.

Como eu disse, em muitos momentos ela faz referências sobre como o modo da sociedade lidar com seus mortos foi se modificando com o passar do tempo.  Ela cita o preparo do corpo (em geral, realizado por familiares, quase sempre mulheres), o tempo em que a pessoa morta ainda permanecia na casa, onde poderia ser vista para  as despedidas devidas, as cerimônias mais variadas em que a morte era sempre uma despedida, mas que fazia parte de nosso cotidiano. Não que sempre um tio ou um parente morresse por dia, mas o fato de que não se tentava disfarçar a morte ou evitá-la. Hoje, queremos o quanto antes nos livrar do peso da dor, enterrando logo nosso ente querido morto como se, de alguma maneira, isso transformasse sua morte em um simples desaparecimento, mais fácil de lidar do que a eternidade. Para exemplificar, a autora cita rituais de antropofagismo (feito por respeito ao morto, não por prazer em comer carne humana), de enterros nas épocas de grandes epidemias (em que não havia tempo para chorar: o negócio é juntar os cadáveres e jogá-los logo numa vala, de preferência todos juntos para economizar tempo e espaço), nas piras que devolviam o corpo à natureza ou pessoas que escolhiam ser enterradas de maneira mais natural possível - um corpo enrolado no lençol colocado em uma cova em meio a natureza... ou seja, de como o ser humano encarava a morte - não fugia dela às pressa ou tentativa evitá-la a todo custo. Outra parte que me chamou a atenção é aquela em que ela trata da questão da longevidade: até que ponto isso é positivo prolongar a vida mesmo quando se vê que não há maneira de garantir sua qualidade? Por que a indústria de cosméticos lucra tanto com cremes anti-idade? 

É interessante como, de maneira natural e "descolada" ela levanta preciosos questionamentos sobre o momento da morte. O que fazer com seu cadáver? Quando chegar o seu momento, o que você gostaria que fosse feito? E quando chegar o momento de cuidar dos seus que se forem primeiro, como será?

É comum fugirmos desse tipo de assunto, porque incomoda. Porém, é o único evento do qual nenhum de nós escapará. Fomos feitos para isso, de certa forma. Importante mesmo é o que você fará no intervalo. Depois, está feito.

A autora lança mão através de uma escrita prazerosa e com um ritmo fácil de acompanhar questionamentos interessantes sobre a morte: o quanto ela é apenas mais um momento - o último - da vida e o quanto saber que é o disso é estar pronto para encará-la. E "estar pronto" não quer dizer exatamente estar doente e se preparar para o pior ou não sofrer quando perdemos alguém. Estar pronto é saber que fizeste aquilo que querias fazer. É saber que falou o que queria para quem queria, que fez as coisas que queria fazer e estar com a sensação de dever cumprido - que pode estar com você aos 20 ou aos 90 anos. 

Por isso, digo: errei ao tentar encaixar um livro tão cheio de morte no mês do horror. Talvez tenha me estendido um pouco e devaneado outro tanto, mas é muito bom quando você consegue ver que uma jovem autora consegue tratar de um tema tão espinhoso de uma maneira positiva e, principalmente, de uma maneira que nos faça ponderar sobre onde estamos errando. Em que momento um evento tão natural  passou a ser objeto de assombro e o quanto sofremos  antecipadamente por estabelecer essa mudança que vai contra a nossa natureza?

"Por mais que a tecnologia possa ter se tornado nossa mestra, precisamos apenas de um cadáver humano para puxar a âncora do barco e nos levar de volta para o conhecimento firme de que somos animais glorificados que comem, cagam e estão fadados a morrer. Não somos nada mais do que futuros cadáveres."

BOA LEITURA!!!


Arnold Böcklin – Self Portrait With Death

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