58º LIVRO DO ANO - MÊS DO HORROR #11

"CHRISTINE", STEPHEN KING



Esse romance, publicado em 1983, vai trazer Stephen King muito disposto a conversar com seu fiel leitor. São quase 500 páginas contextualizando a história. O narrador, melhor amigo do protagonista, parece uma pessoa como qualquer outra: ele quer que a gente acredite, por mais absurdo que possa parecer o que ele vai contar, que é verdade, que realmente aconteceu. Ele narra a história quatro anos depois de tudo.  Lógico, toda história de terror/horror flerta e muito com o absurdo. Mas aqui nos deparamos com um horror sobre rodas. Christine é um carro no mínimo, peculiar. Um Plymouth Fury 1958, fabricado em vermelho e branco - cor exclusiva, já que a maioria dos modelos eram azuis - e uma história, como eu disse,  peculiar...



Encontramos Christine pelos olhos de Arnold "Arnie" Cunningham. Arnie é o típo que hoje em dia chamamos de "nerd": magrelo, excelente aluno, com um problema grave de acne no rosto. Ele é o saco de pancadas da escola. O que o salva, muitas vezes, é sua amizade com Dennis Guilder. Amigos de infância, criados junto em Libertyville (um subúrbio daqueles que nos acostumamos a ver em filmes estadunidenses dos anos 1980), Dennis é o oposto de Arnie: está no time de atletas (é jogador do time de futebol), é bonito, não é um aluno exemplar mas também não é ruim... e já livrou Arnie de muitas encrencas! Um dia, voltando de carona com Dennis de um trabalho nas férias, Arnie avista Christine num quintal com a placa de "Vende-se" nela. Até então, ela não tinha nome para Arnie, mas foi, inegavelmente, amor a primeira vista, a pesar da triste aparência do carro (a história se passa em 1978, ou seja, Christine já é uma carcaça bem desgastada pelo tempo. Sabe-se, só de olhar, que para ela ter condições de rodar novamente, será necessário muito investimento de tempo e dinheiro).

Mesmo diante do protesto do amigo (que sabe que o carro, praticamente uma sucata, não vale nem metade do que Arnie vai pagar por ele - com muito gosto por sinal) e dos pais - especialmente de sua controladora mãe, Regina - Arnie compra Christine, que a partir daí já tem nome e passa a ser tratada como uma pessoa. Uma namorada. Como, aparentemente, ela era para o antigo dono, um veterano de guerra chamado Ronald LeBay nem um pouco educado ou simpático e que, apesar de demonstrar muito apego ao carro, diz que é o momento de desfazer dela. 

Dennis observa essa relação entre o carro e Arnie se desenvolvendo e nota uma coisa a mais: Arnie também está mudando. Supostamente, Arnie está reformando Christine. Mas a reforma, além de perfeita, é muito rápida. Christine vai parecendo cada vez mais nova, o que custaria muito dinheiro e mais ainda tempo, coisa que Arnie não tem. E, ao mesmo tempo, Dennis percebe que a acne de Arnie está diminuindo bruscamente. E sua atitude não é mais de um gatinho acuado: ele está se tornando um cara que enfrenta os valentões, mesmo quando pode levar a pior. E começa a enfrentar mais problemas com isso. Mas, o que mais impressiona é a conclusão a qual ele chega: aparentemente, Christine está se refazendo. Revivendo. Sozinha. Ou quase...

Arnie começa a se afastar do amigo, vendo-o cada vez menos, mas ainda assim é possível para Dennis notar o quanto o proprietário daquele carro não parece com seu melhor amigo. E é essa transformação que é o mote do livro.

Como eu disse, as primeiras páginas (as 500 primeiras, basicamente) contextualizam o universo de Arnie e Christine. Stephen vai dando detalhes da vida familiar dos protagonistas, conta detalhes deles e também do antigo dono de Christine. Particularmente eu acho interessante, ainda que um pouco extenso. Fica bem claro qual o papel de cada um nesta complicada história. Também acho que esse é o estilo que fez de King o autor que ele se tornou: ele fala, fala muito! Seus livros são conhecidos por serem bem detalhados. Pode até ser um personagem menor, mas é bem possível que saibamos de sua vida, sua infância, o que o influenciou para ser como é. Eu sou fã do King, sempre disse isso, e gosto desse estilo (que parece ter se modificado com o tempo, vide livros como "Joyland" e "Revival", tão "curtinhos" que deixam "It" e "A dança da Morte" tímidos... pode ser uma adequação ao mercado e ao público moderno, mas eu não gostaria de uma mudança. Mas isso é assunto para outro post... Eu também tendo a me empolgar quando escrevo...hehehe) 

Talvez, o que tenha influenciado na minha leitura seja o fato de que eu conheci primeiro o filme de John Carpenter, também de 1983 e ali (OBVIAMENTE) é bem mais rápido o desenvolvimento da história. Eu acabei lendo com uma certa ansiedade, esperando para ver os acontecimentos do filme em algum momento. Não caia nessa bobagem! São mídias e linguagens diferentes, inclusive o desfecho de ambos são totalmente diferentes. Gosto do filme também, mas é inegável que muitos detalhes foram sacrificados na película, como por exemplo o motivo de Christine ter esse poder (que no livro é explicado) e também a aparição de certos personagens que contribuem bastante para o toque de terror na trama. Mas acho que ambos tem seu valor, ninguém compromete ninguém...

Fica então a dica de um livro que traz um terror diferente, bem escrito e bem ambientado. Gostei muito! E, se achar válido, aqui está o trailer do filme.

BOA LEITURA!






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