60º LIVRO DO ANO - MÊS DO HORROR #14

"O ÚLTIMO PASSAGEIRO", MANEL LOUREIRO

O ano é 1939. Em pleno Oceano Atlântico Norte, o cargueiro Pass of Ballaster encontra um imenso navio a deriva: Valkirie. Numa breve inspeção, cercada de muito medo, descobre-se que o navio está vazio. Completamente vazio. Ostenta luxo e riqueza nos ambientes, mas também há uma atmosfera densa, estranha, apavorante... No grande salão de festas, um grande painel central é ornamentado por uma suástica segura por duas grandes águias. Uma sigla - KDF - também pode ser vista e, o mais espantoso de tudo: um bebê. Um bebê, enroladinho em seus paninhos, abandonado no meio do nada dentro desse grande navio. Um bebê judeu. Com uma estrela de Davi pendurada em uma correntinha em seu pescoço. Vivo.

Quase 70 anos depois, o bebê transformou-se em Isaac Feldman. Adotado por uma família judia, o bebê encontrado sozinho num navio cresceu e tornou-se um dos homens mais ricos do mundo. É certo que há grandes dúvidas (especialmente por parte das autoridades) sobre como essa fortuna se formou e como se mantém, mas a sua quantidade exorbitante é inegável. Esse excêntrico milionário com uma história tão peculiar também tem um projeto em andamento: reconstruir minuciosamente o ambiente no qual foi encontrado em 1939. Com isso, ele compra o Valkirie por um preço absurdo, quase indo a falência, e o restaura fielmente, retirando apenas os emblemas nazistas. E planeja, juntamente com uma grande equipe em mar e em terra, refazer a trajetória do navio, na esperança de descobrir um pouco mais de sua história. Com o auxílio de uma equipe bem diversificada ele planeja recriar minuciosamente a noite da viagem em que foi encontrado, baseando-se em anotações no diário de bordo do Pass of Ballaster e estudos sobre a situação climática, entre outros.

Numa dessas estranhas "coincidências" da vida, Kate Kilroy é uma jornalista que trabalha num jornal britânico. Ela está tentando sair de um período de luto: há três meses seu marido Robert Kilroy, também jornalista, morreu. E uma parte dela morreu junto. Certo dia, tentando retomar sua vida, ela volta a redação e recebe uma proposta: acompanhar uma história mais leve, iniciada meio que por "hobby" por seu marido, que trata sobre a estranha história de um transatlântico que foi comprado por um milionário, restaurado e que, possivelmente , será usado para obter mais dinheiro ainda. Como uma válvula de escape, uma maneira de evitar a dor latente, Kate começa a se interessar pela história cheia de peculiaridades do tal navio e acaba se envolvendo numa trama obscura e sombria.

Durante a investigação para a reportagem, Kate entra em contato com Isaac e é convidada a embarcar no Valkirie, para documentar toda a empreitada. E aceita, acreditando que irá apenas presenciar o resultado da restauração e a viagem. Mas não é bem isso o que acontece...

Com um bom enredo, este livro de Manel Loureiro (espanhol que é escritor e advogado, que atualmente escreve para um jornal e colabora com uma radio) consegue transmitir uma atmosfera de muito medo e suspense. Os primeiros capítulos, que mostram o encontro dos navios, a exploração do Valkirie cheio de sombras, ecos e estranhos sons são de amendrontar mesmo! A história vai caminhando bem depois disso, apesar de não escapar de ser um pouco previsível. Até o encontro de Isaac e Kate o livro vai bem, com detalhes relevantes para o leitor se contextualizar na história e conhecer melhor os personagens.

Porém, se você está acostumado com literatura de terror sobrenatural, vai concordar comigo que infelizmente alguns clichês são inevitáveis. A gente sai da casa mal- assombrada  vai para o navio mal assombrado. Depois do embarque e de uma breve apresentação sobre os tripulantes e passageiros (todos cientistas, seguranças ou funcionários do próprio navio) , as coisas começam a ficar estranhas... Os elementos sobrenaturais começam a aparecer aos poucos... As pessoas começam a ter visões que, a princípio, não sabem se são reais ou sonhos, se só estão muito empolgadas ou amedrontadas com  a viagem. Mas Kate começa a notar que tem alguma coisa muito estranha acontecendo, uma espécie de transformação.

Pois bem.

Na minha opinião, a narrativa meio que se perde do meio para o final. As coisas ficam meio "atropeladas", muita informação, muita coisa acontecendo. O autor quis inserir muitos detalhes, muitos acontecimentos e a história vai ficando meio repetitiva. Chega mais personagem, tem uma cenas de sexo meio desnecessárias (que você entende o motivo bem no final do livro). O desfecho ficou meio capenga, meio raso, eu diria. No afã da finalização, achei tudo meio rápido demais, com umas soluções apressadas. 

Apesar de quase 400 páginas de história, o livro é rápido de ler: a narrativa é muito fácil de acompanhar, os capítulos são curtos,  mas o final deixou um pouco a desejar. Não senti muita empatia pela Kate, nem pelo drama pessoal dela. Alguns acontecimentos eram previsíveis e as cenas de perseguição eram muito detalhadas, o que me deixou um pouco enfastiada. Em alguns momentos, me peguei pensando se a personagem tinha três mãos ou eu que tinha perdido algum detalhe na descrição.


... leitura é uma experiência pessoal e o que não deu muito certo para mim pode funcionar esplendidamente para você. Portanto, para mim foi bem irregular mas pode não sê-lo para ti. #ficaadica

BOA LEITURA!







SPOILERSPOILERSPOILERSPOILER

(o próximo parágrafo tem um spoiler gigantesco, se não não tem interesse, pare por aqui e se considere avisado)
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O final tem fantasma do bem, conjuração, escuridão... Uma confusão!
Na verdade, é como se o navio fosse a própria assombração, como se ele - ela - tivesse vida própria - um pouco Overlook Hotel, sabe? Ela quer vingança, ela quer que essa viagem se repita infinitamente.
Mas, ao recriar a viagem o que Isaac queria mesmo era voltar no tempo - utilizando a hipótese do buraco de minhoca que a física trata. Com os estudos que ele financiou sobre o Valkirie, um cientista levanta a possibilidade de Isaac recriar aquele dia especificamente. O que eles não sabem é que o navio utiliza isso para assombrar os passageiros, que vão sendo engolidos pela escuridão. Em um determinado momento, Kate está subindo uma escada em fuga e segurando uma coisa. Um dos braços dela está profundamente ferido no cotovelo e... ainda assim ela para e se recosta. E eu fiquei me perguntando com qual terceiro braço ela se equilibrou na escada, segurou o pacote e ainda o arrumou!
Lá pelas tantas o marido morto aparece (ele tem um papel crucial no desfecho) mas o final que o autor destinou como prêmio de consolação para a heroína eu achei de muito mal gosto.
Por ter um início promissor, eu fiquei decepcionada com o desenvolvimento de certas cenas e com o final. 
Fazer o quê, não é mesmo?
Valeu a leitura. Não é o primeiro nem será o último livro de terror a fazer isso comigo...



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