61º LIVRO DO ANO - MÊS DO HORROR #16

"A PROFECIA", DAVID SELTZER


 



Livro lançado em 1976 causou furor na época, inclusive sendo adaptado para o cinema no mesmo ano com Gregory Peck no papel principal. (não encontrei fontes seguras na internet, mas li informações de que na verdade o livro é baseado no roteiro do filme e não o contrário. Fica aí uma dúvida não esclarecida...)

Na década de 1960/70 houve um grande hype em torno de livros de terror/ horror, com lançamentos como "O exorcista" (1971), "O bebê de Rosemary" (1967), "Horror em Amityville" (1977), todos adaptados para o cinema. É importante contextualizar essas obras, pois na época foram aclamadas como aterrorizantes e talvez hoje em dia já não provoquem o mesmo impacto. Novos tempos, novos medos... Naquele tempo, a religiosidade estava mais em alta e as pessoas eram mais ingênuas, acredito eu.

O livro é uma sucessão de fatos que prendem você a leitura e portanto te fazem devorar o livro. Alguns capítulos são mais extensos, mas na maior parte são capítulos curtos que expõe logo ao leitor os acontecimentos a serem esclarecidos, impondo um ritmo de leitura constante, difícil de parar.

O autor baseou-se na citação bíblica que diz que o anticristo nascerá na terra, entre a humanidade e terá um sinal que o distinguirá dos demais - o 666, o número da imperfeição. Aproveitando-se de todo o misticismo que cerca essa  crença, David Seltzer conseguiu criar uma atmosfera de suspense e medo, aquela sensação de que pode acontecer com qualquer um.

A história começa com dois nascimentos concomitantes na Itália, no sexto dia do sexto mês na sexta hora (6º dia, 6º mês, 6ª hora, sacou?). Um dos bebês é o filho de Jeremy (Robert no cinema) e Katherine Thorn, ele um diplomata estadunidense vivendo na Europa. O outro, meus amigos... o outro é o próprio anticristo, parido de uma chacal nos porões do Ospital Generale de Roma sob os cuidados de um organizado e improvável grupo satanista. E, com a proteção deles, será direcionado para ser criado por uma família rica e bem aceita na sociedade. Para tanto, tal seita assassina o bebê dos Thorn e alega que ele nasceu morto - Katherine tinha dificuldade para engravidar e já havia passado por alguns abortos, Jeremy acreditou facilmente na história. Ao receber a notícia de que outro filho morreu, Thorn se desespera. Oportunamente, um padre oferece uma troca: a "mãe" de um bebê saudável faleceu ao dar a luz. É só trocar, Katherine jamais desconfiará... Thorn aceita a proposta e recebe um lindo menino de ar angelical que apresenta como seu filhos a esposa,  a quem batizam de Damien.

Conforme a criança vai crescendo, coisas estranhas vão acontecendo... A babá do garoto se mata durante a festa de quatro anos da criança (mas não apenas se mata, ela pula da janela com uma corda amarrada no pescoço gritando "Damien, é por você!"), logo em seguida aparece uma outra babá que ninguém solicitou mas que vai ficando na casa já que o menino é muito "apegado" a ela... Um enorme cachorro preto também passa a viver na casa sob a alegação da nova babá (muito esquisita e mandona, por sinal) de que o garoto gosta muito do "cachorrinho" - um enorme cão pastor capa preta, com olhos amarelos e uma mandíbula sempre arreganhada e cheia de baba... 

A essa altura já se percebe que tem alguma coisa muito esquisita acontecendo. Uma visita ao zoológico de Londres - onde a família vive atualmente- deixa Katherine intrigada. A reação de Damien ao ter que acompanhar os pais a um casamento também chama a atenção. E pra piorar o que já não estava bom, o menino está cada vez mais afastado de sua mãe e apegado a babá misteriosa (que, aliás, pinta-se como uma meretriz a noite e parece não dormir e sim estar sempre murmurando uma espécie de reza pelos cantos do quarto enquanto a criança dorme...).O distanciamento do filho afeta Katherine: ela lamenta por isso, por outro lado começa a ter medo da criança. E desejar que ela nunca tivesse existido. Já Thorn passa a ser seguido por um padre que acaba lhe dizendo que deve tomar cuidado: sua esposa está grávida (!), o menino que ele cria como filho vai matar o bebê (!!) , vai matar a esposa, ou seja , sua própria  mãe (!!!) e, assim que garantir-se como único herdeiro, vai matar o próprio Thorn(!!!!). Ele então passa a investigar a situação, já temendo estar enlouquecendo...

A partir daí, estabelecido esse clima de tensão, a conclusão não é demorada, não há muita enrolação até o final. Você já entendeu o que está acontecendo e fica na expectativa de que Thorn compreenda também a dimensão do problema que está enfrentando. Mesmo apavorado, ele tem que tomar uma decisão drástica... o menino permanecer vivo significa não apenas a sua morte, mas um prejuízo para toda a humanidade.

Essa história me apavorou por muitos anos. Eu demorei muito para assistir ao filme, já que eu tinha verdadeiro pânico desse tipo de história. Pela minha cabeça passava o terror de já existir um anticristo entre nós, se desenvolvendo como uma criança comum ou pior - e se eu tivesse a tal marca??? Como eu nunca havia tido coragem para assisitir o filme  (que passava com certa frequência na TV), eu sabia do que acontecia pelo o que meus amigos contavam para mim, então eu ia montando a história na minha cabeça... e como não há terror maior do que nossa própria imaginação, imagine a coisa aterrorizante que era pra mim esse filme... Fui assistir anos depois,  já adulta. 

Dentro de um contexto, acredito que o livro funcione sim como terror. É uma sucessão de acontecimentos que não tem como você não querer saber o que virá a seguir e sempre mexe com a cabeça da gente essa coisa de uma pobre e inocente criança ser na verdade a encarnação do mal. Imagina só o desespero de você ter que eliminar da terra uma criança, pior ainda, seu próprio filho? Como lidar com isso? É essa aura de terror, de suspense que vai se formando em sua mente e que permeia todo o livro, desde a primeira página. 

Gostei, foi uma boa leitura! Recomendo!

"Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis." (O LIVRO DO APOCALIPSE, XIII, 18)

"A bíblia diz que todos os apóstolos de Satã tem essa marca."

"Pela terceira vez desde a criação do planeta, Satã iria expelir sua prole, confiando-a aos seus discípulos na Terra até que atingisse a maturidade. Já tinha sido tentado duas vezes antes, sem sucesso."

"Seis é o signo do Demônio (...) Sete é o número perfeito, o número de Jesus. Seis é o signo de Satã. (...)"

"Acreditamos que representa (o 666) a Trindade Diabólica. O Demônio, o Anticristo e o Falso Profeta."

"Para cada coisa divina há outra que não o é. Essa é a própria essência da tentação."

(não foi possível numerar as páginas das citações - todas retiradas do livro - porque li em PDF )

E, se ficou curioso, eis a profecia que dá nome ao livro/filmes - porque houve continuações... (e hoje em dia, até série...)

 "Quando os judeus retornarem à Sião (a criação do estado de Israel) / e um cometa varar o céu / o Sagrado Império Romano (que seria a União Europeia) se erguerá / e você e eu iremos morrer. / Do mar eterno (interpretado como o mundo da política) ele se ergue / criando exércitos em ambas as costas / virando o homem contra seu irmão / até o homem deixar de existir."


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