64º LIVRO DO ANO

"A LOUCA DA CASA", ROSA MONTERO



Esse livro chegou através da TAG- Experiências Literárias do mês de outubro. Eu participo dessa espécie de Clube do Livro para vivenciar este tipo de experiência literária: ter contato com algo que provavelmente eu não compraria espontaneamente. Este livro é um exemplo.

Com pouco mais de 170 páginas, a obra apresenta uma narrativa não linear que vai mesclando ficção, fatos e divagações da autora espanhola. Assim, você que como eu está mais habituado a uma leitura imersiva pode demorar um pouco até ser cativado pela história. Rosa vai fazer várias citações de autores famosos, falar de alguns aspectos da vida de tais autores (alguns bem pouco elogiosos, outros permeados por suas próprias perspectivas) e misturá-los aos seus pensamentos e opiniões. O livro me passou a impressão de um bate-papo no final de uma tarde de domingo bem quente, sabe? Quando alguém que sabe de muitas coisas começa a divagar e "jogar conversa fora" com você... E contar coisas que você ficará espantado por saber que são reais e outras que talvez provoquem dúvida.

Eu demorei um pouco para "engrenar" essa leitura justamente por isso: o livro não se propõe a ser equilibrado, linear. Para mim, foi uma leitura intercalada de momentos muito bons e outros nem tanto, mas nada que chegasse a comprometer o andamento. Inclusive, para mim, a mudança de perspectiva ocorreu quando a autora começou a contar uma história pessoal que envolve um certo ator americano no verão de 1973... essa história volta a ser narrada mais duas vezes e você, pela fala da autora no decorrer do livro, começa a se questionar até que ponto isso aconteceu mesmo ou não foi apenas e tão somente um devaneio de  escritor, uma história que foi contada por sua "Louca".

Porque o livro também é muito disso, de tratar um pouco sobre como os autores vão deixando fluir uma história que estava por ali, na cabeça e de repente vai tomando forma em palavras. O daimon, segundo Rudyard Kipling - ou seja,  "um desses demônios greco-romanos ou védicos que são gênios tutelares, espíritos intermediários entre os humanos e o além" (pág. 33), o encantado que  (gostei muito dessa parte) não pode ser controlado: ele deve fluir, fluir sem lógica, só vai deixando os dedos escreverem sem "pensar conscientemente"... passado esse momento de "piloto automático", o autor pode (e deve)  corrigir, substituir, modificar sua escrita, mas quando esse "ser" se manisfesta , é aconselhável manter afastado qualquer tipo de lógica e raciocínio. "A louca da casa" na verdade é essa imaginação, esse impulso criativo meio louco que habita a mente do ser escritor. É ela que pode chamar a atenção dele para uma cena cotidiana que pode ter uma história, ou imaginar todo um acontecimento para uma foto de casamento jogada ali na beira de um córrego, por exemplo: por que está lá? Foi perdida ou jogada de propósito? Aí vai da Louca de cada um... rsrsrs

Chamou minha atenção também o fato de Rosa  falar de outros escritores e seus triunfos, fracassos e e hábitos cotidianos. O escritor enquanto ser humano mesmo, não apenas esse fantástico fazedor de sonhos. 

A leitura é muito boa, inspiradora especialmente para quem tem interesse de se aventurar pelo mundo das histórias escritas. De uma forma muito espontânea, Rosa dá um show de como o processo criativo vai se concretizando na páginas  até tornar-se esse objeto de desejo: o livro! Ela brinca com você em alguns momentos, mas sempre levando muito a sério o ofício e a paixão de criar histórias e deixar A Louca da Casa ir aos poucos organizando o seu espaço!

BOA LEITURA!

"Mas a palavra é o que nos torna humanos. "
(pág. 66)

Interessante como a autora se coloca sempre como uma pessoa de comunicação,. Ela coloca sua beleza, sua sedução sempre nas palavras. 

"Pode-se vender a alma ao poder por tantas coisas. E o que é pior: a um preço tão baixo. Por exemplo: não é por nada, mas não me parece muito apropriado que um escritor da estatura de Garcia Márquez aceite ganhar uma casa de Fidel Castro, uma fantástica mansão em Siboney, a região dos antigos ricos de Havana. Para começar, não penso que escritores devam receber opulentos chalés presenteados por chefes de Estado; o fato de que, neste caso, o chefe de Estado seja um ditador e o país misérrimo torna a história ainda mais complicada."
(pág. 40)

"( ...) Italo Calvino divide os autores entre escritores de fogo e escritores de cristal. Os primeiros fazem sua obra a partir de emoções; os segundos, da racionalidade."
(pág. 139)

" Sem dúvida, a imaginação está estreitamente ligada ao que chamamos de loucura, e ambas à criatividade de qualquer tipo."
(pág. 149)

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