65º LIVRO DO ANO

"DIAS DE ABANDONO", ELENA FERRANTE



Eu estava com muita vontade de ler este livro depois de ver duas pessoas que acompanho e admiro muito (Tati Feltrin e Ju Gervason) falarem bem dessa história. Pelo o que li sobre as obras da autora, cada história é um tapa na cara e, lógico, isso me chamou a atenção. 

"Dias de abandono" narra a história de Olga, uma mulher comum com uma trajetória que pode ser a de qualquer uma de nós ou de alguém próximo de nós: casada há quinze anos, com dois filhos pequenos, sem trabalhar (deixou de trabalhar para cuidar mais dos filhos), um cachorro... Conheceu Mario, aproximaram-se por terem interesses em comum, casaram-se, antes do primeiro filho viajaram a trabalho e por prazer, conhecendo o mundo e outras culturas. Veio o menino Gianni, dois anos depois já estabelecidos em Turim veio Ilaria... Aí chegou Otto, o cão pastor, um tempo depois e a vida vai seguindo.

Houve contratempos como em todo casamento - todo casamento tem contratempos, não é? Mario teve uma "crise", mas passou. Mas tudo seguia normalmente... Mesmo depois daquela vizinha e sua filha adolescente, tudo passou. Até que , um dia, depois do almoço ele comunicou - assim, de maneira cordata e trivial - que iria abandoná-la. Assim. Sem nenhuma crise aparente, sem grandes discussões, sem brigas homéricas. Simples. Ele iria embora. 

Começa aí a derrocada da personagem. E a sua junto a ela, porque rola muito facilmente uma empatia aqui. Você mergulha na dor da Olga, no seu desespero. E o que para mim foi o mais agonizante é que Olga não se desespera com lágrimas, com gritos, com a prostração. No intuito de continuar a levar a vida dentro do máximo de normalidade, o leitor vai acompanhando as dúvidas, o ódio, a sensação de abandono que vai tomando conta dela. Em alguns momentos, parece que ela vai enlouquecendo, perdendo o desejo de continuar a viver a realidade imposta por essa brusca mudança em sua vida. Eu tive momentos da leitura em que minha vontade era entrar nas páginas e sacudir a Olga, sabe? Volta, volta, dá pra continuar, é difícil mas dá... Os questionamentos de Olga - estou feia? Não sei mais seduzir? Meu marido perdeu o interesse por mim de repente? E essa mulher quem é? Em que é diferente de mim? Mais nova, mais bonita? - tocam a alma da gente...  

Não sei... Mas em momentos em que Olga xinga, usa palavrões pesados quando começa a pensar sobre o novo relacionamento do marido (algo que não parece ser usual) ou quando se desliga divagando profundamente, perdendo-se em pensamentos e colocando em risco sua integridade física ou testa seu poder de sedução de forma desesperada e atabalhoada, vamos acompanhando Olga se perdendo numa espiral que vai envolvendo ela, seus filhos , o cachorro... Ela vai se deixando, se abandonando, mesmo sendo ainda jovem, bonita, com dois filhos pequenos que também foram abandonados... E lembrando de sua infância, de uma vizinha que foi abandonada pelo marido e ficou "falada" na vizinhança, apelidada de polverella (a pobre mulher abandonada.), perguntando-se se ela seria a polverella agora...

É um incômodo. Em resumo é isso. Uma história que incomoda, porque você vai pensando "volta, mulher, não faça isso". Penso em mulheres dizendo "nossa, que absurdo, ficar assim por causa de um homem", mas não é simples assim. Não é só isso. Acho que só uma mulher consegue entender o que acontece com Olga; com isso não estou dizendo apoiar ou concordar, mas compreender. Por outro lado, as pessoas tendem a agir de forma diferente diante de situações extremas, mas gostaria muito de ouvir uma opinião masculina sobre essa história. O final de um casamento pode ser muito tranquilo para uns, mas pode ser um desespero para outros. Afinal, é uma mudança profunda. E hoje em dia as pessoas não querem viver nada profundamente. Nem a dor. Ou especialmente ela...

E vamos acompanhando os dias de abandono de Olga. E vale a pena! Pode parecer exagero, mas as pessoas mais sensíveis ou que estejam passando por uma situação parecida talvez seja o caso de esperar um pouco antes de arriscar-se nessa leitura, porque ela é curta (o livro tem menos de 200 páginas) mas é duro. Cru. Pesado. Verdadeiro.


"Autumn", Benjamin Thomas Kennington


Elena Ferrante é o pseudônimo de uma autora que há anos mantêm-se no anonimato e que, há poucos dias, pode ter sido descoberta como se vê nessa reportagem aqui.

Foi meu primeiro contato com a escrita dessa autora, mas com certeza não será o último!

BOA LEITURA!


"Quer me mostrar que eu não sou mais como do seu sangue, me fez uma estranha, ele definitivamente me exilou de si."
pág. 54

"Minha urgência era outra, era urgência de entender. Por que ele tinha jogado fora, tão desenvolto, quinze anos de sentimentos, emoções, amor? Tempo, tempo, todo o tempo da minha vida tinha se perdido(...)"
pág.28


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