66º LIVRO DO ANO

"OS IRMÃOS KARAMÁZOV", de Fiódor Dostoiévski



Um clássico torna-se um clássico porque, mesmo que passados muitos anos desde sua publicação, ele ainda é desafiador, ainda convida o leitor a compreendê-lo. Ele "passa no teste do tempo", já disse a maravilhosa da Claire Scorzi (aqui o canal dela).

"Os Irmãos Karamázov" foi o último livro escrito por Dostoiévski, lançado no final de 1880. O autor morreu em 28 de janeiro de 1881. Diz-se que a intenção do autor era continuar a obra, o que deve ser verdade já que ela termina nos deixando algumas interrogações... 



A história gira em torno da vida destes três irmãos: Dmitri, Ivan e Aliêksei. O pai deles, Fiódor Pávlovitchi Karamázov, era um homem dado a boemia e gastos tolos que enriqueceu primeiramente pelos dotes que recebeu de dois casamentos e, mais tarde, manuteniu a riqueza abrindo uma cadeia de bares pela cidade e entorno (não fica claro onde se passa a história). A primeira esposa era uma moça rica que ficou com ele por três anos, depois fugiu abandonando marido e filho. Acabou morrendo ainda jovem. Dmitri, o filho desse casamento, fica sendo cuidado por Grigori, o empregado da casa, até que um parente vem buscá-lo para ser criado longe. É curioso observar que quando o referido parente chega e pergunta pela criança, Fiódor até se espanta, pois havia esquecido que tinha um filho.  No segundo casamento, mais uma vez, ele tem uma jovem e bela esposa, de família abastada, que lhe entrega um bom dote. Tem com ela dois filhos - Ivan e Aliêksei, também chamado de Aliócha. Foram casados por 8 anos, até a morte dela. Mais uma vez, as crianças são levadas e criadas por parentes.

Há ainda um suposto quarto filho... Quando a mendiga louca da cidade, conhecida de todos e muito tranquila - Lizavieta - aparece grávida, todos desconfiam de quem poderia ser capaz de tamanha maldade. Por aí você pode deduzir qual era a fama de Fiódor (desagradável, maneiras exageradas, bronco, inescrupuloso...) A desconfiança fica ainda maior quando, na noite em que começam as dores do parto, Lizavieta esconde-se num banheiro no quintal da casa do Karamázov e tem o bebê, mas morre em seguida. O casal de criados - Grigori, o mesmo que cuidou de Dmitri, e sua esposa Mafra - acabam ficando com a criança, que se torna um criado na casa. 

Esse é o pano de fundo para uma história que vai se desenrolando. Nessa edição da Editora 34, a história está em dois volumes. No primeiro volume vamos nos aprofundar um pouco mais nos personagens principais:

Dmitri é o mais velho e também muito parecido com seu pai: perdulário, passional, por vezes mal compreendido... Tem uma autoestima muito boa, se acha muito inteligente, muito acima da média.
Ivan é um intelectual ateu, que baseia sua vida e seus comentários no raciocínio, na razão. Não nutre grandes esperanças em relação a humanidade, já que para ele se não existe Deus não há motivo para o ser humano escolher o caminho do bem. É desse personagem também a parte mais incrível desse primeiro volume, chamado de "O grande Inquisidor", que é um poema de sua autoria que ele vai explicando ao Aliócha. É fantástico! Ivan imagina a volta de Jesus na época da Inquisição. O grande Inquisidor que dá título a poema , ao confrontar-se como Messias ali, em carne e osso decide prendê-lo. Assim, simplesmente assim. Mas o desenrolar dessa cena é uma das coisas mais incríveis que você vai ler na sua vida. 
Aliêksei, ou Aliócha, é o retrato da esperança. Jovem, crédulo - mora num mosteiro, ele é a representação do espiritual, de inocência, além de ser o ponto de equilíbrio dos irmãos. Ele faz uma espécie de mediação entre os acontecimentos ali.
Já Pavel Smierdiarkóv, o suposto filho bastardo, é silencioso, observador. Discreto seria a palavra correta. Comporta-se como o criado que é: subserviente, só fala quando é questionado...

Todo o livro é permeado por longos debates, cenas descritas com muitas, muitas páginas. Não espere  nada resumido! Além disso, há vários personagens coadjuvantes que tem suas próprias tramas correndo paralelamente à trama prinicipal. 

O primeiro livro nos dá um panorama da vida de cada um dos rapazes e do pai deles. Há um inconformismo por parte de Dmitri, que quer receber de seu pai sua parte do dote da mãe - sua herança. Fiódor diz que de maneira alguma pagará nada a ninguém. Como eu já disse, Dmitri é um "gastador", está sempre precisando de dinheiro. Mas, segundo ele mesmo, seu objetivo era outro para esse dinheiro - até nobre, eu diria. Mas Fiódor sente-se até ofendido com a possibilidade de "dar" dinheiro ao filho.

O segundo volume, maior em número de páginas, já nos coloca a par de um crime. Fiódor Karamázov foi assassinado. E, apesar de muitas pessoas não gostarem dele pelos mais variados motivos, logo a suspeita recai sobre... Enfim, não vou falar. Mas neste volume, destaco também um diálogo maravilhoso entre Ivan - o incrédulo Ivan - e, nada mais, nada menos do que o Diabo. Como é possível? Circunstâncias, meu caro, circunstâncias...

A obra toda é permeada por discussões filosóficas, religiosas, éticas, jurídicas. Dostoiévski pretendia escrever uma obra que entrasse para a história, especialmente deixando um retrato da sociedade russa de seu tempo. Foi meu primeiro contato com a escrita do autor e gostei muito. Gostei mais de Dostoiévski do que de Tolstoi, que li pela primeira vez também este ano. Não sou uma conhecedora de literatura, ainda mais especificamente literatura russa, mas achei uma leitura intrigante, interessante. Uma leitura em que você fica ansiosa por saber o que está acontecendo. Mas não se iluda: a linguagem é fácil, completamente acessível, mas sem dúvida tem momentos em que o autor se deixava escrever, escrever, escrever sem ter fim, num aparente devaneio em alguns momentos que, para mim, eram cansativos. Mas, não seria um clássico se não te desafiasse!

BOA LEITURA!😊

"não existe imortalidade da alma, então não existe tampouco a virtude, logo, tudo é permitido."
(fala de Ivan que permeia sua vida e seus pensamentos, pág. 127)


"Não é Deus que não aceito, entende isso, é o mundo criado por ele, o mundo de Deus que não aceito e não posso concordar em aceitar."
(pág. 325)


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