72º LIVRO DO ANO

"AINDA ESTOU AQUI", DE MARCELO RUBENS PAIVA



O protagonismo feminino nos dias de hoje tem sido não apenas debatido como incentivado. Uma mulher assumir papeis de destaque em diversos âmbitos da sociedade é algo até esperado. Lógico que ainda cabe muito debate e discussão sobre as mudanças necessárias para que o reconhecimento por esse protagonismo seja de fato consumado e vivido, mas isso cabe em outra discussão. Hoje estou pensando numa mulher que foi criada para ser uma esposa e mãe dedicada à família (mesmo que fugindo um pouco à regra aqui e ali)  que vê-se sozinha  com cinco filhos e uma vida para tocar em frente. De repente. Numa manhã, sua vida foi transformada.

Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva, ou simplesmente Eunice Paiva é essa mulher que viu o marido, o deputado (cassado) Rubens Paiva, ser levado de sua casa sem truculência por homens sem farda. Saiu dirigindo o carro da esposa pelas ruas do Rio de Janeiro em 20 de janeiro de 1971 e nunca mais voltou. Eunice e uma das filhas que estava na casa também foram levadas no mesmo dia, mais tarde. Eunice ainda ficou detida por 12 dias, amenina não. Sem saber se o marido estava morto ou vivo, quem estava com as crianças ou motivo por estar presa... 

A história de Rubens Paiva vai, aos poucos , sendo esclarecida com fragmentos de uma história que é ainda recolhida aqui e ali até hoje. Sua morte em decorrência de tortura, posterior esquartejamento e desova do corpo em algum lugar desconhecido, disso já sabemos. A história de Eunice eu só conheci agora, pelas palavras de seu filho Marcelo Rubens Paiva. Eunice está com Alzheimer. Tudo o que essa mulher viveu está perdido em memórias soltas, desconexas, que às vezes surgem em momentos de lucidez, mas que vão, aos poucos, se apagando, sumindo, perdendo o sentido.

A família reunida.

Esse mundo é uma piada de mau gosto.

Uma mulher vaidosa, inteligente. Marcelo diz que em sua casa não havia TV, havia livros. E que sua mãe já havia lido de tudo quando ele nasceu. 

Eunice e Rubens

"Quando eu nasci, ela já tinha lido de tudo. Os russos Dostoiévski e Tolstoi, os franceses Balzac, Flaubert,   Vitor Hugo e Proust no original e, do inglês, de Hemingway a Fitzgerald, passando por Henry Miller, além de toda literatura brasileira."

Eunice tem uma história de vida fantástica. Não virou "a viúva do Rubens Paiva", papel no qual ela poderia se acomodar. Eunice voltou a estudar, formou-se em direito, especializou-se em direito indígena por pura paixão. Brigou até o fim para saber o que havia acontecido com seu marido e depois brigou para que fosse reconhecido os documentos que comprovassem a morte  dele para poder continuar sua vida, organizar-se em bancos, enfim, sua maneira prática de ver as coisas sempre conduzindo suas atitudes. 

Marcelo, quando viu que essa doença cruel que vai transformando a pessoa que você conhece em outra que você precisa aprender a conhecer/conviver, decidiu que seria um desperdício - pra dizer o mínimo - perder essa vida fantástica, cheia de reviravoltas dela no destino e do destino nela, que essa mulher viveu. Da menina pobre do Brás para a escola de grã-finos de São Paulo. Do casamento com o deputado para a viuvez da ditadura cruel. Da mulher de luta, de fibra para a mãe com o filho de vinte anos tetraplégico em uma UTI após um acidente tolo. Meu Deus, mais um. Apenas enfrentando desafio após desafio. Como tanta gente faz todo dia, é verdade. Mas são as histórias como as da Eunice que nos fazem olhar com outros olhos para a nossa própria vida.

Tem um trecho do livro em que Marcelo fala que quando ouve uma pessoas dizer que está doente, ele pensa se essa pessoa imagina o que é estar de fato doente. Gripe não é doença. Alzheimer é. Não é competição de dores e dissabores, mas leia a história da Eunice e pense. Pense no absurdo que já ocorreu neste país e que pode voltar a acontecer de novo. Nenhuma ditadura - de esquerda ou de direita - é bem vinda, NÃO PODE ser bem vinda. As consequências desse tipo de (des)governo são terríveis e levam anos para desaparecerem - quando desaparecem. 

Mas esse livro não é sobre ditadura. Esse livro é sobre continuar. Porque é esse o convite da vida.

Ao ler o relato de seu filho nesse emocionante livro, me vem à cabeça o tempo todo a palavra resiliência. 



Eunice sofreu sim, Eunice chorou escondida dos filhos. Mas para eles foi sempre um modelo. Não era uma mãe carinhosa ou participativa nas reuniões de escola, especialmente em relação a Marcelo. Talvez com as meninas fosse diferente, mas Eunice ... Eunice era peculiar. Única.

Era não. É. 

Ela ainda está aqui.


Primeira foto da família, já sem Rubens Paiva.


"Por anos, fotógrafos nos queriam tristes. Deflagramos uma batalha contra o pieguismo da imprensa. Sim, éramos a família modelo vítima da ditadura, mas não faríamos o papelão de sairmos tristes nas fotos. Nosso inimigo não iria nos derrubar. Guerra é guerra. Minha mãe deu o tom: a família Rubens Paiva não chora em frente às câmeras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima. A família Rubens Paiva não é a única vítima da ditadura. Esteve em guerra contra ela desde o primeiro dia. O País é a maior vítima. O crime foi contra a humanidade, não contra Rubens Paiva. Nossa luta não tem fim. Precisamos estar bronzeados e saudáveis para a contraofensiva. A angústia, as lágrimas, o ódio, apenas entre quatro paredes."

(texto de Antonio Callado, relatando seu encontro com Eunice após ela sair da prisão )

Maravilhoso.

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