74º LIVRO DO ANO

"A INCRÍVEL E FASCINANTE HISTÓRIA DO CAPITÃO MOURO", GEORGES BOURDOUKAN


A história que deu origem ao livro é talvez tão interessante quanto o livro em si: Georges Bourdoukan, jornalista, estava fazendo uma pesquisa na Biblioteca Mário de Andrade sobre um outro assunto quando, em meio aos livros, ele encontrou uma obra manuscrita do século 17 que tratava sobre um determinado Capitão Mouro. Uma carta do governador da capitania de Pernambuco pedia providências quanto à ação de um mouro no Quilombo dos Palmares que estava trazendo dificuldades para as tropas reais que tentavam a todo custo invadi-lo e dizimá-lo.

Como bom jornalista, Georges ficou intrigado com aquela informação tão pouco difundida. Foi atrás de mais  detalhes, procurou nos documentos possíveis e disponíveis no Brasil, não encontrou nada de relevante e foi fazer o caminho contrário... Com as informações que achou em conversas e pesquisas em bibliotecas na Andaluzia, Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia ele resolveu nos contar essa história.

O autor mescla acontecimentos históricos que ele encontrou pelo caminho de suas pesquisas com outros romanceados. Obviamente, ele não tinha transcrito em lugar nenhum  os diálogos entre o tal Mouro e Zumbi, chefe dos Palmares, então é claro que uma dose de imaginação foi usada aqui...

Vamos à história:

Karim Ibn Ali Saifudin era o capitão de de um navio de peregrinos que pretendiam chegar até Meca mas que foram atacados por  piratas no norte da África. O navio naufragou e Saifudin ficou semanas boiando agarrado a um pedaço de madeira até ser resgatado por um negociante que, mais tarde, descobre ser um judeu "convertido" ao cristianismo, Ben Suleiman, que estava a caminho do Brasil para visitar o irmão que fugiu da Espanha com a família (todos "convertidos"). Chegando no porto da capitania de Pernambuco, Ben Suleiman segue para a fazenda do irmão, a dois dias de viagem dali. 

Ben Suleiman vai explicando a situação atual da terra onde se encontram: a escravidão, a inquisição e o chamado mal-de-bicho tem assolado o lugar ( o tal "mal-de- bicho" é atribuído aos negros trazidos da África - chamados de "bichos" - mas, na verdade, era uma doença que tinha os sintomas da febre amarela e depois da varíola. O doente morria com diarreia, já sem o controle do esfíncter). Ben Suleiman descobre que o mouro que o acompanha é um homem muito inteligente, um médico que fica abismado com a falta de higiene que encontra na cidade: fezes são atiradas pela janela, não há cemitério ou hospital, lixo em todo lugar ou jogado na praia... Ele logo entende porque da doença estar se espalhando. Também fica negativamente impressionado com a maneira como os negros são tratados - quem não ficaria? ou melhor, quem, com o mínimo de humanidade, não ficaria?

Enfim, na fazenda ele descobre a convivência pacífica que o irmão de Ben Suleiman tem com a vizinhança, que é formado por alguns mocambos  e pela relativa proximidade com o Quilombo dos Palmares - já que o Quilombo ficava embrenhado na mata. Achei interessante uma passagem sobre como era comum que estes palmarinos procurassem as fazendas que viviam da plantação de cana-de-açúcar a fim de realizar trocas de produtos - o que não os impedia de invadir eventualmente essas fazendas para libertar escravos  e sequestrar mulheres (outro "material" em falta no país de modo geral...) Numa dessas incursões e numa determinada situação envolvendo um homem que havia sido salvo por Saifudin numa outra ocasião, ele conhece Zumbi e acaba (depois de várias situações que não me cabe contar) indo parar no Quilombo. Ali, Saifudin se torna uma espécie de "braço direito" de Zumbi, conversando e orientando-o quanto à defesa do lugar e aprendendo muito sobre a cultura do lugar.

Como eu já disse, o livro é interessante por mesclar fatos com narrativas criadas pelo autor, sem no entanto comprometer o que se sabe histórico. Domingos Jorge Velho também é um dos protagonistas e é descrito já sem muitas firulas, como o homem selvagem que era (e nojento, diga-se de passagem, mas ser sujo e nojento estava muito em voga nessa época pelo o que a história registra...) Até que ele apreciava carne humana é dito: ele comia pedaços dos corpos de escravos (me espantou, mas é fato que os negros eram vistos como animais - para o bandeirante, era o mesmo que matar um boi ou um porco. Horrível, eu sei, me senti muito enojada e incomodada em vários momentos do livro especialmente com o tratamento dado aos negros trazidos para o Brasil, mas acho interessante ressaltar que essa é a formação do nosso povo, não é mesmo? Conhecer o passado nos ajuda a compreender o presente).

Minha intenção não é fazer um resumo do livro, então está dada a introdução: é a história de como um mouro agiu ao lado de Zumbi na resistência do maior e mais famoso Quilombo que a história brasileira tem registro, de como a história sobre a escravidão no país nos envergonha profundamente, de como um selvagem pode ser conveniente, no caso do bandeirante sujo e fedorento Jorge Velho... Tudo isso com muitas informações históricas interessantes.

É uma parte do nosso passado interessante de revisitar. Achei que talvez Zumbi foi retratado como um herói próximo do perfeito: muito justo, muito corajoso. Mas essa é uma opinião pessoal. O interessante é ler e tirar suas conclusões.

BOA LEITURA! 😉


"Sem instrução, não farão história. Se quiserem deixar algum registro cabe a vocês fazê-lo, pois, em caso de derrota, a história será contada pelos vitoriosos." 

" A região dominada pelo Quilombo dos Palmares não era do tamanho de Portugal, como alguns queriam fazer crer. Mas tinha uma dimensão respeitável, maior que a de muitos países, 90 léguas de extensão por 50 léguas de largura, ou seja, 27.000 quilômetros quadrados."

" Nesta terra, quando um branco importante comete um crime, pode apresentar um escravo para ser interrogado em seu lugar. Este sofre todo tipo de tortura para confessar, mesmo não sabendo do que se trata. Se não confessa, seu amo é inocentado. {se confessa} (...) o dono é condenado. Mas é o escravo quem cumpre a pena em seu lugar."


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