1º LIVRO DO ANO - #12livrospara2017

"VITÓRIA", JOSEPH CONRAD

A primeira leitura do ano foi o livro de janeiro escolhido para o meu desafio de 12 livros para 2017:



O livro foi publicado pela primeira vez em 1915, foi o último grande romance escrito por Conrad. O autor, aliás, é uma história a parte: seu pai era ativista político na Polônia, defendia a liberdade do país. Em 1861, entre mudanças e exílio, a mãe de Conrad (na verdade, Józef Teodor Konrad Korzeniowski) morreu de tuberculose. Como educação formal, o pai entregou a vasta biblioteca ao filho. Em 1869, o pai de Conrad morreu e ele ficou sob a tutela de um tio que acompanhou de perto como a perda dos pais desestabilizou o garoto (de apenas 12 anos) psicologicamente, refletindo em seu rendimento escolar, que caiu bruscamente. Atendendo aos apelos do sobrinho que estava fascinado pelo mar devido a suas últimas leituras, aos 17 anos o enviou para Marselha, na França, para dar início a sua carreira naval. Serviu por quatro anos, foi expulso quando se descobriu que ele não tinha permissão do Império russo para navegação estrangeira, endividou-se, tentou suicídio... E, com a ajuda do tio, recuperou-se física e financeiramente, retornando a Marinha Inglesa (que não exigia a tal permissão). Abandonou a carreira naval em 1894, aos 36 anos, e passou a dedicar-se a literatura. Escrevia em inglês, língua que aprendeu aos 21 anos (já dominava polonês e francês) e tirou de seus 20 anos de experiência com navegação marítima a inspiração para seus escritos. Morreu aos 66 anos de ataque cardíaco e deixou obras como "Nostromo" (1904) , "O coração das trevas" (1899) e, claro, "Vitória".

A narrativa desenvolve-se de maneira lenta, construindo-se pouco a pouco. Porém, isso insere o leitor na história,  no clima quente e abafado de Samburan, uma ilha perdida num arquipélago malaio. Um sueco, Axel Heyst, estabelece morada ali, onde antes os diversos bangalôs existentes estavam destinados aos  trabalhadores da Companhia Carbonífera Cinturão Tropical, da qual ele era o gerente. A CCCT faliu, todos foram embora exceto Heyst, que permanece morando isolado na ilha com um único chinês que escolheu ficar ali, Wang, servindo com discrição o sueco. Heyst é dono de uma personalidade atípica: ele tenta evitar o sofrimento afastando-se dos outros e evitando ao máximo criar laços emocionais, pois aprendeu com seu pai que o mundo é um lugar cheio de dor e desilusão. Não é antipático, apenas não quer contato, não quer envolver-se... Por estar sempre tão afastado da "civilização", nem desconfia - e não entende quando descobre - que existem várias histórias fantásticas sobre ele correndo pela cidade. Ele acaba cercado de mistérios apenas por ser recluso.

Mesmo assim, ele vê-se numa trama quando, de súbito, decide ajudar uma moça que é a violinista de uma orquestra hospedada temporariamente no hotel que fica na cidade mais próxima da ilha onde Heyst habita. A garota é explorada e maltratada pelo casal que comanda a tal orquestra e, além disso, está sendo assediada pelo dono do hotel , o fofoqueiro e desagradável (e casado) Schomberg. Com a fuga da tal garota, Schomberg monta em sua cabeça vingativa uma história em que ela, na verdade, foi mais uma vítima de Heyst, que é apenas um explorador, aproveitador... E, por um acaso do destino, Schomberg tem a oportunidade de compartilhar sua versão dos fatos com um estranho e misterioso trio que se hospeda em seu hotel. 

Os personagens tem muitas nuances psicológicas que vão se desnudando aos poucos no decorrer da trama. Inveja, maledicência, ganância, maldade, fidelidade, lealdade são alguns dos sentimentos que vamos  descobrindo no  decorrer da leitura. A humanidade de cada personagem me agradou muito, pois não há maniqueísmos: há pessoas que sentem, que vivem emoções que são muito humanas, muito comuns à todos nós. Isso confere credibilidade e profundidade à narrativa, que vai muito além de apenas contar uma história: quando você compreende a amplitude do que está envolvido, nada é previsível. E o final me comoveu, me surpreendeu e me deixou pensando sobre o livro durante um bom tempo...

Essa edição é exclusiva para os assinantes da Tag Experiências Literárias e veio no kit de novembro/2016. 

Fica a dica de um livro que será descoberto as poucos, montando lentamente uma história que fará com o que o leitor continue analisando as motivações de cada um ali mesmo após o final da leitura.

BOA LEITURA PRA VOCÊS!😉

"Homens de consciência atormentada ou de uma imaginação criminosa são conscientes de muitas coisas que mentes de um matiz pacífico e resignado sequer suspeitam."

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