2º LIVRO DO ANO

"VIDA E PROEZAS DE ALÉXIS ZORBÁS", NIKOS KAZANTZÁKIS



Escrever sobre esse livro acabou mostrando-se uma coisa muito difícil, já que eu ainda não encontrei palavras para descrevê-lo; para falar de sua profundidade e leveza, de como cada atitude do protagonista me levava para um outro mundo , um outro lugar bom de se estar...  Dizer que foi uma incrível experiência de leitura é reduzir muito o que significou para mim. Eu ri e chorei com Zorbás, aprendi muito com suas vivências e me fez pensar em várias coisas desse breve hiato chamado vida. A veia filosófica que permeia toda a narrativa torna só mais saborosa a leitura.

Vamos à história:

O narrador, do qual não sabemos o nome, é um intelectual, um homem dos livros. Após ser chamado de “roedor de papeis” por um amigo – já que dedicou boa parte de sua vida a ler e escrever – ele decide ir à Creta explorar uma mina de linhito e assim passar mais tempo entre os trabalhadores, os homens mais "simples" por assim dizer. Um pouco antes de embarcar ele encontra com um estranho que muito espontaneamente se aproxima e se oferece para acompanhá-lo, apresentando-se como Aléxis Zorbás.

Conforme vamos acompanhando a leitura, conhecemos e nos apaixonamos por Zorbás. Ele é um homem vivido, já tem 65 anos, passou por muita coisa: guerra, fome, trabalho... Sua simplicidade é encantadora porque ele não se envergonha dela. Zorbás é divertido, fala o que pensa, é um galanteador – um grande “problema” para ele são as mulheres, as quais ele acha que deve “proteger” e agradar sempre, independente da idade, classe social ou aparência. É vivido, também sabe como agir quando necessário – um bom “malandro”, por assim dizer. É um pensador, quando para e observa o cotidiano e consegue extrair dele encantamento. É valente, não gosta de covardia. Sofre com a perda de um filhinho há muito tempo atrás, questiona Deus em seus desígnios e tem certeza de que a filha não precisa de sua preocupação, pois "é mulher" e será protegida por um homem - mas tudo dentro de sua simplicidade. Recria em sua mente às vezes de maneira ingênua, quase infantil diálogos imaginários entre figuras históricas ou icônicas. Quando está feliz, toca seu santir  – mas só quando está feliz. Quando faltam palavras, ele dança, como se seu corpo pudesse expressar tudo o que sua boca não pode dizer. Impossível não amá-lo!

Ele chega com o “patrão” (o narrador) a uma pequena aldeia em Creta e eles começam a participar da vida simples e cotidiana do lugar. Logo estão colocando em prática a ideia da mina, empregando trabalhadores locais e se integrando a todos ali. É uma vida simples, sem intelectualidades, mas com muito mais aprendizagens do que se poderia imaginar. Todos os dias são uma aventura, mas não pense você que são coisas artificiais, arranjadas. Não: com Zorbás a aventura é a própria vida. Conversar com o monge do mosteiro para poder construir num terreno que pertence à eles, participar de uma comemoração religiosa, o simples fato de conversar com as “autoridades” locais são acontecimentos se são encabeçados por Zorbás. É delicioso vê-lo em ação! É uma aprendizagem a cada encontro...

É uma narrativa do cotidiano, mas encantadora!

Essa edição recebi no kit de janeiro de 2017 da Tag-Experiências Literárias. É uma edição exclusiva para assinantes em parceria com a Editora Grua e está deslumbrante! A tradução foi feita diretamente do grego por Marisa Ribeiro Donatiello e Silvia Ricardino.

A primeira edição da obra data de 1946. Há também um filme baseado no livro chamado “Zorbás, o grego” (1964). O autor morreu em 1957 e não testemunhou o sucesso de sua obra. Apesar da licença poética que compõe o personagem, o autor diz que Zorbás foi um homem que de fato existiu: Yióryis Zorbás, que ao lado de Homero, Bergson e Nietzsche , tocou profundamente o autor. 

Levando-se em conta a época, obviamente, o papel das mulheres é depreciativo. O machismo é o tom do tratamento dado:

“Essa misoginia é claramente fruto da época e do contexto cultural em que ele foi criado. O leitor percebe e repudia esse traço ultrapassado da cultura sem, contudo, deixar de apreciar a obra.” (Maria Ribeiro Donatiello, tradutora)

Ou seja, apenas a característica da sociedade daquela época.

“Vida e proezas de Aléxis Zorbás consegue ser ao mesmo tempo um romance de aventura, que se lê com febre, e um romance de formação, que transforma. Como em todo grande livro, sua leitura não é apenas uma experiência literária de excelência. É uma experiência de vida.”
(Carlos Eduardo de Magalhães, editor da Grua livros)

É isso. Você vai rir e chorar, ter um pouco de raiva também – raiva faz parte do humano, ora bolas – mas vai apaixonar-se por Zorbás e ter muita pena na hora de se despedir dele (passa tão rápido 😢...) Mas, se não esquecê-lo, o livro provavelmente já terá feito seu papel.

BOA LEITURA!😃

“Enquanto estamos vivendo um momento feliz, dificilmente percebemos. Apenas quando ele passa e nós olhamos para trás, entendemos de súbito – e às vezes com espanto – o quanto éramos felizes.” (pág. 90)


“Porque eu vivo de fato todos os mistérios, então não tenho tempo. Uma hora é o mundo, noutra a mulher, noutra o vinho, noutra ainda o sentir, não tenho tempo para pegar nessa asneirenta da caneta. Foi assim que tudo caiu na mão dos escrevinhadores: aqueles que vivem os mistérios não tem tempo, aqueles que tem tempo não vivem os mistérios. Entendeu?” (pág. 266)



“Meu velho, que engenhoca é o homem!A gente coloca nela pão, vinho, peixes, rabanetes e saem suspiros, risos e sonhos. É uma fábrica! Eu acho que dentro da nossa cabeça existe um cinema, daqueles que falam.” (pág.308)

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