5º LIVRO DO ANO (RELEITURA)

"1984", GEORGE ORWELL



Seis anos depois, reli 1984. E, pode acreditar, está tão ou até mesmo mais maravilhosos do que a primeira vez! Talvez eu esteja mais experiente, talvez devido as transformações que temos vivido em nosso mundo atualmente, "1984" continua atemporal. Bobagem querer imaginar que Orwell fez previsões ao escrevê-lo... Ele apenas sabiamente transcreveu as intenções do que sabia ser possível diante dos fatos que viveu... 

George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair, um romancista/ensaista/jornalista inglês (nascido na Índia em 1903). "1984" foi concebido em 1948, quando Orwell estava doente e resolveu isolar-se em uma ilha da Escócia. O romance foi publicado em 1949 e, no ano seguinte, o autor morreu vítima de tuberculose. A contextualização histórica no momento da concepção do livro não era das melhores: a Europa havia acabado de sair da 2ª Guerra e pairava a ameaça nuclear sob as nações depois de Hiroshima e Nagazaki. Temia-se que a próxima Guerra estivesse muito próxima. Orwell também tinha vivido uma experiência de guerra, quando cobriu- e lutou - na Guerra Civil Espanhola (ele tinha uma preocupação muito grande de registrar tudo o que estava vivendo ali por medo de não ser publicada a verdade (que deu origem ao livro "Lutando na Espanha"). George Orwell era um dissidente de esquerda - ele se considerava mais à esquerda do que a esquerda, já que cobrava coerência dos regimes comunistas.

"1984" é uma distopia. O mundo conforme conhecemos não existe mais e agora está dividido em três continentes: Oceânia, Lestásia e Eurásia. O protagonista, Winston Smith, vive na Oceânia (que abrange o território  que hoje conhecemos como Londres). 


O lugar é dominado pelo Partido, na figura do chamado "Grande Irmão", que na verdade é uma representação do totalitarismo do SocIng - "Socialismo Inglês".


Através de cartazes espalhados por toda a cidade e de um instrumento chamado teletela, cada individuo é controlado minuciosa e diariamente. As teletelas são uma espécie de televisão adaptada (ou de um computador com câmera, para ser mais moderna). Ligada constantemente, ela transmite as notícias do Partido, acorda os cidadãos para fazerem ginástica e pode espionar a casa deles. Isso mesmo, ela funciona como uma câmera também. O cidadão nunca sabe quando essa função está acionada. 

A sociedade está basicamente dividida entre o Núcleo do Partido, que são os privilegiados que trabalham diretamente com o Governo; o Partido Externo, que são os cidadãos comuns que trabalham (ou são explorados) pelo Partido e os "Proletas", que são 85% do povo e vivem numa situação de total miséria financeira e intelectual, apenas lutando para sobreviver a cada dia. Isso não quer dizer que as pessoas que estão no tal "Partido Externo" tenham maiores privilégios... O próprio Winston trabalha num edifício chamado Ministério da Verdade, que é o encarregado de manipular, modificar e exterminar todo tipo de informação - notícias, entretenimento, educação, belas artes - de acordo com o interesse do Partido...

Ele vive num lugar imundo, chamado Mansões Victory, onde o elevador não funciona nunca e há um cheiro constante de repolho recendendo pelos corredores. Seu apartamento é pobremente mobiliado e tudo é muito limitado. O café não é café, é uma imitação, assim como o que se utiliza para adoçar é sacarina, não açúcar. A teletela ocupa uma parede inteira na sala, sempre ligada (somente os integrantes do Núcleo é que tem poder de desligá-las), a chamada Polícia das Ideias pode conectar-se com qualquer um a qualquer momento. Até o idioma é controlado : palavras são substituídas por expressões da Novafala, o idioma criado pelo Partido. Além do Ministério da Verdade (responsável pelas mentiras convenientes), há também o Ministério da Paz, que cuida dos assuntos de Guerra, o Ministério do Amor, encarregado de manter a lei e a ordem (ou seja, encarregado das torturas) e o Ministério da Pujança, que cuida das questões econômicas (ou seja, a miséria que assola). Note como Orwell foi sarcástico na escolha dos nomes... A intenção é reduzir o indivíduo a um autômato. O controle total estaria nas mãos do Grande Irmão.

O lema do Partido é outra contradição repetida à exaustão : "Guerra é Paz, Liberdade é escravidão, Ignorância é Força."




Winston , com todo esse mundo conturbado ao seu redor, está com um problema sério muito, mas muito sério: ele começou a pensar. Ele está consciente dos absurdos ao seu redor. Ele está raciocinando sobre o fato de ter modificado várias vezes uma mesma notícia já publicada, de ter eliminado fotos de prisioneiros que foram apresentados como culpados mesmo tendo sido anteriormente aliados ao Partido e isso está o incomodando... Ele sabe que está ajudando a manutenir inverdades convenientes.

"Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado."

O Partido sempre está certo, o Partido nunca erra, nunca se engana. Enganar-se é sinônimo de fraqueza.



Ele passa a policiar até mesmo suas feições para não levantar desconfianças de que algo está passando por sua mente - algo que não seja o amor incondicional pelo Partido. Ele descobre um cantinho em seu apartamento onde a teletela não alcança. E compra um caderno que pretende usar como diário. Pretende escrever suas lembranças, suas angústias... mesmo sabendo que isso representa a sua sentença de morte. Se descoberto - coisa que ele sabe que possivelmente acontecerá -ele pode transformar-se em uma despessoa - simplesmente desaparecer. Cada rastro de sua existência será apagado. Mas é mais forte do que ele. E ele começa a escrever nesse caderno.

Além disso, uma moça chama a sua atenção pois está coincidentemente sempre nos mesmos lugares que ele. Ele desconfia que seja uma espiã em seu encalço. Mas, num determinado momento ele descobre que Júlia - é esse seu nome - está apaixonada por ele, o que representa outra contravenção, já que o Partido não apoia esse tipo de relacionamento. Casamento apenas caso não haja envolvimento emocional para cumprir o dever com o Partido : gerar filhos. Porém, Winston, na sua solidão e desajuste, não pode evitar o envolvimento e descobre que Júlia odeia tanto o Grande Irmão quanto ele (apesar de serem razões distintas: Winston é mais ideológico, Júlia é mais por rebeldia, por afrontamento típico dos mais jovens.) Ambos concluem que precisam encontrar a chamada Confraria - uma espécie de Núcleo de Resistência ao Grande Irmão, que tem como suposto líder Emmanuel Goldstein, declarado Inimigo do Povo. 

A história vai se desenvolvendo e você, caro leitor, vai ficando estarrecido não apenas por estar lendo uma obra tão extraordinária que fala de política, filosofia, relações humanas e amor de um jeito tão acessível. É complexo como você consegue enxergar aqui elementos que estão ativos em nossa sociedade há muito tempo. Orwell tinha medo de que o futuro fosse 1984, mas não poderia viver para sabê-lo. Nós nos vemos vigiados, perseguidos, coagidos e vivemos numa chamada "democracia". Raciocine se você pode mesmo fazer o que quiser, se é mesmo livre - ou se só tem uma ideia de liberdade. Temos exemplos de sociedades tão fechadas que só é possível saber um pouco a partir do que ela mesma permite que saibamos. Há regimes totalitários em vigência plena hoje! Agora, pense um pouco sobre nós. Estamos numa democracia mas... Será que as informações passadas são as reais? Será que não há manipulação por um grupo de pessoas com interesses diversos em tudo que é destinado ao povo? Será que também não estamos insensíveis ao fato de pessoas estarem fugindo de seus países por causa da guerra, de que crianças morrem afogadas e tem seus corpos arrastados pelo mar até a praia? Esse governo é mesmo o governo que você escolheu ou que você foi manipulado a pensar que escolheu? Não é complicado quando a gente começa a prestar atenção em alguns detalhes do nosso cotidiano? É muito mais cômodo não raciocinar sobre certos aspectos, porque assim a gente consegue viver mais tranquilamente. E com isso não estou dizendo que eu ou você estamos errados, não estou incitando ninguém a pegar em armas. Mas pense. Analise.

É isso que essa história faz com você, se você permitir. E essa Edição da Companhia das Letras (2009) ainda tem três Posfácios que enriquecem ainda mais sua experiência de leitura.

A linguagem é acessível, o conteúdo é que é explosivo. O autor foi genial ao criar um universo próprio, apavorante : há uma nova língua, uma maneira específica de se comportar, o crimepensamento, a Polícia das Ideias, o duplipensamento.... Ele foi minucioso, caprichoso nos detalhes. É uma obra prima da escrita, um clássico moderno e que deveria ser mais lido e relido por todos. 

Literatura de qualidade para tirar a poeira dos neurônios.

BOA LEITURA! 📚👦👧👨👩👪👳👲👱💣💢💥


  • Existem inúmeras imagens na internet sobre a obra e algumas delas foram utilizadas nesta postagem;
  • Existe um filme baseado neste livro, mas sinceramente eu recomendo muito mais o livro. o filme deixou a desejar - simplesmente porque a adaptação me pareceu não dar o devido valor a certos aspectos da obra escrita.

"Sabemos que ninguém toma o poder com o objetivo de abandoná-lo. Poder não é um meio, mas um fim.Não se estabelece um ditadura para proteger uma revolução. Faz-se uma revolução para instalar a ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder." (pág. 308)

"O mais comum era que as pessoas que caíam em desgraça no Partido simplesmente desaparecessem e nunca mais se ouvisse falar delas."
(pág. 59)

"Liberdade é a Liberdade de dizer que dois mais dois são quatro. Se isso for admitido, tudo o mais é decorrência."
(pág.101)



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