6º LIVRO DO ANO

"O CAMINHO ESTREITO PARA OS CONFINS DO NORTE", RICHARD FLANAGAN


Mais um livro cuja leitura foi negligenciada, mas que se mostrou uma grata surpresa por mesclar realidade e ficção e também por ser aterrorizantemente humano. Difícil falar dele, tamanha a complexidade de seu tema. Triste e belo. Me levou a tantas divagações, tantas emoções...

Viverei mil anos e nunca vou conseguir entender a "lógica" da Guerra. De qualquer Guerra. Não sou ingênua, sei que há muitos interesses em jogo -  interesses financeiros, principalmente - alguém sempre estará lucrando com a indústria da guerra. Mas a que preço? Quanta dor, revolta e lágrimas valem seu lucro? Quanta morte, loucura, trauma vale sua fábrica? Quanto custa uma vida? Pode soar poético, mas não é essa minha intenção. Guerras - todas elas - para mim apenas representam o quanto o ser humano pode ser bestial, insensível e cruel. Pois, quando o soldado está no front, ele não pode ser humano. É uma luta pela vida, é uma luta pela pátria. Matar, torturar, destruir e estuprar passam a ser cotidianos. Você não vê uma criança: você vê um alvo ou uma bomba caminhando. E ainda temos que pensar que, enquanto soldado, é como se você não se responsabilizasse por seus atos. Você os comete pela Pátria. O mesmo pai de família que ama seus filhos e esposa pode ser um torturador. Ou o rapaz que ama os animais em sua casa participa de estupros coletivos... Viu como é difícil? 

Tenho uma dificuldade imensa para apreciar qualquer obra - livro ou filme - que envolva guerra. Não consigo gostar, não consigo me envolver, tenho dificuldade em compreender, em me concentrar...

Mas - e que bom que sempre existe um "mas" - recebi esse livro (outro que veio através da TAG em maio de 2016). Iniciei sua leitura por três vezes. Na última, cheguei até a página 100 e desisti novamente - não estava indo: muitas idas e vindas, um monte de personagens... estava difícil me envolver.  Devolvi à estante e resolvi aguardar o momento (sempre há um momento para um livro, pode acreditar). 

E então, chegou o momento de ler "O caminho estreito para os confins do Norte." E foi por acaso, pensado mais como uma nova tentativa, aproveitando as férias e as leituras maravilhosas que fiz esse mês. Que excelente escolha!

A história do livro vai girar em torno da construção da Ferrovia da Birmânia ou Estrada de Ferro Thai-Burma, mas popularmente conhecida como Ferrovia da Morte. São 415 quilômetros entre Bangok (Tailândia) e Rangum (Birmânia, hoje Myanmar). Ela foi uma alternativa às tropas japonesas durante a Segunda Guerra Mundial para o escoamento de material e suprimentos para a Campanha da Birmânia. Foi construída por milhares de trabalhadores asiáticos e mais de 100.000 prisioneiros de guerra australianos, ingleses, holandeses... Foram mais de 250 mil pessoas envolvidas nessa construção. As condições normais para os trabalhadores já seriam complexas, imaginem em tempo de guerra: sem comida suficiente, sem remédio, sem higiene, roupas, notícias... Contudo, ela foi concluída em tempo recorde e, sem dúvida, em cima de muitos cadáveres.



 A ferrovia foi fechada em 1947. Há um museu mantido pelo governo australiano no trecho onde morreram a maior parte dos soldados do país. Há um trecho em funcionamento na Tailândia, entre Nong Pla Duk e Nam Tok (essas informações eu obtive através da leitura da revista da TAG que acompanha cada livro, falando sobre o autor e contextualizando a história, entre outras informações).

Isso é apenas uma breve ilustração sobre o que estava acontecendo. O autor resolveu escrever o livro como uma forma de manter viva as memórias de seu pai, ele mesmo um sobrevivente dessa ferrovia. Ou seja, Richard Flanagan cresceu ouvindo histórias sobre esse período da vida do pai e fez um longo caminho antes de escrever seu livro: aprofundou suas conversas,  foi até os locais, falou com pessoas que, assim como seu pai, passaram por aquele horror - inclusive com japoneses, que infligiram o horror, afinal. Destruiu os outros cinco manuscritos que já possuía e recomeçou do zero aquele que se tornou a versão final do livro. E seu  pai, Arch Flanagan, morreu na noite em do dia em que Richard lhe contou que finalizara a história.

Mas, como não queria escrever uma biografia, Richard Flanagan nos apresenta Dorrigo Evans, médico- cirurgião tasmaniano e oficial do exército australiano. O início do livro - as tais 100 primeiras páginas - são uma narrativa não linear e que exige um pouco mais de atenção por parte do leitor. Mas, com um pouquinho mais de insistência e boa vontade, vamos compreendendo as lembranças e tudo passa a fazer sentido. Aí você é tragado pelo livro e não quer parar. Mesmo sofrendo horrores!

Não é um livro restrito sobre a guerra, é uma história sobre vidas afetadas pela guerra, acredito eu.

O livro é dividido em três partes. Na primeira parte, vamos acompanhar Dorrigo sendo tratado como um herói de guerra - coisa que ele não se sente , sendo convidado para escrever o prólogo de um livro de ilustrações de um prisioneiro e que, antes da guerra, estava apaixonado por Amy, esposa de seu tio Keith, que era bem mais nova do que o tio. Eles vivem uma história linda e louca, mas então Dorrigo tem que partir repentinamente para a guerra. (como eu disse, são vários acontecimentos com idas e vindas no tempo, como um fluxo de pensamento). Na segunda parte, passamos a acompanhar a vida - vida?- dos soldados na construção da tal Ferrovia. E essa parte é belissimamente triste e bem escrita. É uma dor, uma angústia constante. As situações terríveis descritas com maestria e vivenciadas de fato pelos prisioneiros como fome, doenças tropicais das mais diversas, medo, surras... Tudo isso você acompanha tão de perto, tão próximo que é difícil não se desesperar, não sentir na sua pele o que eles estavam vivendo. (Talvez o mais terrível seja saber que nada daquilo é ficção - em certo momento foi a realidade de muitas pessoas...)

"O horror pode estar contido em um livro, com uma forma e um significado. Na vida real, entretanto, o horror não tem nem forma nem significado. O horror apenas é."

Richard Flanagan


Na terceira parte do livro, vamos acompanhar o julgamento de alguns dos personagens -  na realidade, 111 oficiais foram julgados, 32 sentenciados à morte por crimes de guerra - e também o que ficou dos que conseguiram voltar. Me emocionei em vários momentos, porque é isso que é guerra: ela não termina para quem esteve lá, imagino eu. Ela vem e vai, volta em momentos bobos, cotidianos. As lembranças do que se vive numa guerra devem ser eternas. Cruelmente eternas. 

Livro emocionante, angustiante, impossível de parar de ler depois que você se acostuma com ele. Recomendadíssimo!

BOA LEITURA!😊

"Por uma boa razão, os prisioneiros de guerra se referem à lenta descida à loucura que se seguiu com duas simples palavras: a Linha. Para todo o sempre, havia para eles dois tipos de homens: os que estavam na linha e o restante da humanidade que não estava. Ou talvez, somente um tipo: os homens que sobreviveram à Linha."
(pág. 34)

"Sua fome parecia um animal selvagem. Sua fome era desesperada, louca, dizendo-lhe que qualquer comida que ele encontrasse fosse engolida o quanto antes e o mais rapidamente possível ; apenas coma, sua fome guinchava - coma! coma! coma! E o tempo todo ele sabia que era sua fome que o estava devorando."
(pág. 208)

"Quanto mais pessoas tenho à minha volta, pensou Dorrigo, mais solitário me sinto." (pág. 113)

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