10º LIVRO DO ANO

"O XARÁ", JHUMPA LAHIRI



História leve, bonita e tocante... Vamos acompanhar a trajetória até os 33 anos de Gogól Ganguli. Gogól é o primeiro filho de um casal de indianos que está iniciando a vida nos Estados Unidos. Esses casal - Ashima e Ashoke - são bengalis, ou seja, pertencem a um determinado grupo étnico e isso reflete em todo o seu modo de vida: como se vestem, como comem, o que comem, como cuidam da casa e dos amigos, qual a ligação com a família (profunda, aliás...) Sozinhos em terra estrangeira, eles usam esses costumes, agarram-se à eles para se estabilizarem, para saberem quem são mesmo tendo de falar e conviver com pessoas e costumes tão diferentes dos seus. 

Quando nasce Gógol, vamos aprender que os bengali tem o hábito de terem dois nomes : o nome "de criação" que será usado por todos os familiares e amigos próximos e o nome que será conhecido nos documentos, escrituras etc. Uma espécie de nome social - o nome "bom" (esse costume é chamado de daknam). 

"Os nomes de criação são um resquício persistente da infância, um lembrete de que a vida nem sempre é tão séria, tão formal, tão complicada."

Pois bem, ao nascer, os pais precisam escolher um nome para a certidão de nascimento do menino para poderem sair do hospital americano - que não está nem aí para as tradições bengalis. Mas, segundo o costume quem deve escolher esse nome "bom" é um parente mais velho - no caso a avó de Ashima. Como a avó mandou uma carta da Índia com o nome escolhido - estamos no fim dos anos 1960, ou seja, comunicação não era nem de longe o que é hoje - o jovem casal não havia se preocupado em decidir um nome. E, num impulso, o pai escolhe Gogól - como o escritor russo, Nikolai Gogól, do qual era fã.

A tal carta nunca chegou ao seu destino...

Com isso, começa a vida de Gógol Ganguli, um americano filho de pais indianos com nome russo. Ou seja, uma miscelânea cultural.

Os pais fazem questão de deixar claro a origem de Gogól e a importância em se preservar seus costumes. De quando em quando, a família viaja para a Índia para passar temporadas e não perder suas raízes. A mãe está sempre vestida com um sári, mesmo nos EUA e ele aprende a chamar os parentes pelas alcunhas corretas, a falar ao telefone com primos que ele sequer imagina quem sejam e a conviver com todos os bengali que seus pais conhecem na América, como uma grande família indiana. Mas o menino vive nos EUA, estuda nos EUA e tem amigos americanos também. Obviamente esse conflito todo vai atingir seu ápice na adolescência, quando todos os conflitos imaginários ou não atingem seu ápice. Aliás, a essa altura Gógol já tem uma irmã que é até mais americana do que ele... E a partir daí , uma nova etapa da vida deles começa.

O livro vai nos levando assim, de etapa em etapa, de adaptação (ou não) em adaptação. Difícil querer parar.

Vamos acompanhando os conflitos do rapaz, suas aventuras amorosas, seu jeito de lidar e rejeitar tudo o que ele é para seus pais e para si mesmo. E também as decepções que seus pais sentem, vendo o filho em muitos momentos não compreender ou mesmo rejeitar hábitos que para eles nunca foram sequer questionados - porque não foi assim que eles aprenderam...

A autora baseou-se em sua própria história para escrever "O xará" e tem uma forma de contá-la muito leve, muito fluida... parece uma conversa que temos com alguém que tem um conhecido em comum, como um velho amigo de escola que foi nossa companhia mas que depois perdemos o contato e então vamos sabendo o que aconteceu com ele, como conduziu sua vida. Como um reencontro...


"A questão da identidade é sempre muito complicada, especialmente para aqueles que são culturalmente deslocados, como imigrantes, ou para aqueles que cresceram em dois mundos simultaneamente, no caso dos filhos. Quanto mais velha eu fico, mais consciente estou de que tenho, de alguma forma, u senso de exílio herdado dos meus pais. "
Jhumpa Lahiri

Gogól é um ser humano calmo, mas muito cheio de conflitos, alguns bobos que parecem uma reles implicância juvenil, outros mais profundos. Ele questiona o que não concorda ou não vê sentido e vai assumindo sua posição conforme vai ficando mais velho, fazendo escolhas muitas vezes dolorosas, difíceis de compreender por seus pais. Confesso que em alguns momentos eu tive vontade de sacudi-lo, em outros momentos eu tive raiva dele, em alguns outros momentos eu o compreendi. O gostoso dessa leitura é que muito rapidamente passa a ser parte dessa família, dessa história. Você também está lá.

Minha edição (belíssima, por sinal!) foi o livro de fevereiro enviado pela Tag, uma edição exclusiva em capa dura e com a dedicatória da autora. Junto com o livro, foi enviado também o conto "O capote", de Nikolai Gogól, que faz todo o sentido para a história que nos é contada. E eles tiveram o cuidado de fazer uma edição com o aspecto desgastado, como se fosse o exemplar lido e relido inúmeras vezes pelo pai de Gogól. Um capricho! (aliás, excelente conto. Recomendo!)

Fica então a dica de um livro gostosinho, cheio de conversa e de cultura indiana... e eventuais conflitos, afinal é a vida não é mesmo?

   

BOA LEITURA! 📚

"Nada o tirava da leitura. Nada o distraía. Nada o fazia tropeçar." (...) "Leia todos os russos, e depois leia de novo, o avô disse. "Eles nunca vão te deixar na mão."

"Ser estrangeira é uma espécie de gravidez eterna - uma espera perpétua, um fardo constante, um sentimento contínuo de indisposição."



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