11º LIVRO DO ANO

"PARA PODER VIVER - a jornada de uma garota norte-coreana para a liberdade", YEONMI PARK



Confesso que ainda não sei muito bem como escrever sobre o que eu acabei de ler. Ainda estou digerindo tamanha barbaridade e especialmente, tentando entender porque nunca ninguém faz nada. Só minha indignação é muito pouco pra salvar o povo norte-coreano. Era necessária uma boa dose de indignação d equem pode fazer alguma coisa efetivamente... Onde será que eles estão?

Nenhuma - NENHUMA - ditadura é boa, seja ela de "esquerda" ou de "direita". Sempre o que se observa é que apenas existe uma grupo de pessoas que quer tomar o poder para si - não libertar ou dar dignidade para o povo oprimido, é oprimir à sua maneira.

As pessoas da minha geração, em sua maioria, sabe o que é uma ditadura por estudar nos livros ou escutar as histórias de pais e parentes no geral. Se você, assim como eu, nasceu no final dos anos 1970 dentro de uma família de origem muito simples, só vai contar mesmo com o que conseguir ler, porque essas pessoas de origem mais humilde muitas vezes tem uma lembrança até positiva do período militar: "havia emprego, havia comida, havia vergonha na cara"... Elas, dentro de suas limitações, não conseguem perceber a falta de liberdade, a privação de expressão. Não conseguem perceber pais de família sendo levados para nunca mais voltarem apenas por dizerem o que pensavam - e lutarem para que outras pessoas também pudessem fazê-lo - sobre o governo - "subversivos". Era mais fácil aceitar a classificação dada pela mídia controlada e cerceada e voltar para a TV. 

Nós, criados em "liberdade", conseguimos nos assombrar com as notícias que chegam da Venezuela ou da China, conseguimos nos assustar com o que era a URSS e o que já foi Cuba. 

Nós - os da "democracia capitalista" - temos acesso à roupas, diversão, músicas, política... Não é o regime governamental perfeito, aliás longe disso: ainda há muita, muita desigualdade, corrupção, má distribuição de renda... Mas eu estou aqui escrevendo sobre isso, assim como milhares de outras pessoas que escrevem também, fazem vídeos expressando suas opiniões, músicas, estou usando minha banda larga pela qual posso pagar e sem medo de ser perseguida ou censurada por isso, posso ligar minha TV e assistir o que quiser. Posso usar redes sociais e discutir o que eu estiver com vontade - ainda que seja de forma vazia, mas posso. Tenho liberdade para isso. Tenho tanta que às vezes nem me dou conta de que a tenho.

Mas, vamos falar da Coreia do Norte.

Sei muito pouco sobre o país, muito menos do que eu gostaria e muito mais do que os governantes de lá desejariam que eu soubesse. Aliás, o que sabemos é o pouco que se conseguiu descobrir principalmente através daqueles que conseguiram escapar - sim, escapar, porque é um tipo de regime tão bom que os governantes no poder impedem que as pessoas tenham a opção de sair de  onde estão, blindando fronteiras, confiscando passaportes, criminalizando o ato de ir e vir. Nas férias eu assisti dois  documentários meio que por acaso sobre o país (aliás, recomendo: "The propaganda Game" e "Under the skin", ambos disponíveis na Netflix, ambos chocantes) e fiquei estarrecida. Tenho idade o suficiente para saber que o mundo está muito longe de ser cor-de-rosa, mas é chocante observar o que algumas pessoas estão passando agora, nesse momento em que estamos aqui vivendo nossas vidas. A constante vigilância, a privação de bens essenciais - como água encanada, energia elétrica, comida - a lavagem cerebral desde o momento em que se acorda até a hora de dormir. Isso é de uma crueldade e opressão desumanas. Revoltante. Para que eu e você possamos viver tranquilos aqui, é preciso sublimar isso, porque imaginar o que está acontecendo não nos deixaria viver.

Em ambos os documentários, fica claro que só foi permitido filmar o que estava sendo monitorado pelo governo através de seus representantes que fiscalizavam as equipes o tempo todo. É um clima constante de medo, de apreensão. Ninguém pode falar o que pensa, tem que falar o que se espera que fale. Só foi filmado a capital - é como se não existisse periferia, gente pobre... As grandes estátuas dos líderes Kim Jong-il (morto em 2011) e seu filho e atual governante Kim Jong- un sendo veneradas em praça pública, seus retratos por todo os lugares, sempre abraçando crianças, sorridentes e pacificadores... Na Coreia do Norte, o que é difundido é que lá é o melhor lugar do mundo, o país mais rico e próspero, motivo de inveja dos demais países pobres e famélicos do mundo e que os "bastardos americanos" querem destruir esse paraíso da igualdade e retidão. Não há contato com o mundo exterior - nenhum jornal, livro ou revista, nem internet, nada, nada - e os cidadãos ficam na dependência das "informações" deturpadas que são transmitidas por rádio e TV. Rádio, aliás, que só tem uma estação que toca músicas que falam do quão bom é viver na Coreia e quão sortudos são seus cidadãos por terem um líder tão amoroso. TV também só funciona quando tem eletricidade, obviamente e só passa produções exaltando o estilo de vida do povo e seu líder maravilhoso.

Pronto. Imagine crescer assim, ouvindo isso diuturnamente.

Yeonmi Park tinha apenas 13 anos quando resolveu que iria embora da Coreia. O que a motivou? A fome. Sim, não era a privação da liberdade, não era não ter roupas novas ou internet para conversar, foi a fome. O fato de já ter tido uma pelagra no rosto por pura falta de vitamina. O fato de saber que quem possuía cachorro tinha que escondê-lo à noite, pois pode ser roubado para servir de alimento. O fato de ter que viver espalhando propina para poder ter atendimento médico, um pedaço de carne (uma vez por mês, quando muito) e um punhado de arroz para alimentar a família. Quem não tinha dinheiro algum, também não tinha nada, tudo só é conseguido através de suborno. Yeonmi cresceu passando por períodos quase prósperos, quando seu pai conseguia trabalhar no mercado negro vendendo roupas, metais e o que mais desse lucro - períodos que duravam menos - e por períodos em que ficavam sozinhas - ela e a irmã - em casa, por dias e noites, sem ter o que comer, sem eletricidade, morrendo de medo das noites em total escuridão enquanto a mãe saia para tentar trazer alimento.  Um dia, meio por acaso, ela descobriu um jeito de ir embora clandestinamente para a China. Apenas ela e sua mãe, através de um atravessador que suborna alguns guardas de fronteira para conseguirem chegar ao outro lado - e descobrir que a tendencia das coisas é só piorar, que onde não existe humanidade já se perdeu tudo...

O livro é uma narrativa da autora desde o seu nascimento e infância ao lado de seus pais e irmã mais velha (dois anos apenas) e tudo o que acontecia em sua vida. E, amigos, é estarrecedor. É triste, angustiante, pesado... e é ainda a vida de milhões de pessoas isoladas naquele pedaço do mundo e governadas por alguém que se julga melhor, maior e mais absoluto do que qualquer coisa que já tenha passado pela terra. Para os cristãos e religiosos em geral é só pensar que os Kim se portam como Deus, Jesus e por aí vai. Eles são "divindades" numa terra de ateus. Ainda assim , é difícil parar a leitura. 

É triste e tenso, mas muito, muito necessário para que se entenda que as coisas no mundo estão muito, muito erradas e que nenhuma ditadura é boa : na verdade é só uma transferência de poder. E a maior vítima sempre será a população. SEMPRE será: em menor escala, aqueles que se "venderem " à ela, em maior escala aqueles que tentam lutar contra ela. E de forma geral, TODOS os que nela estão - exceto o ditador e sua família.

Esclarecedor, necessário. Antes de ter 21 anos, essa menina já passou por experiências que eu em meus quase 40 não vou passar... Um exemplo de garra, de superação, de amor pela vida e pela liberdade. Reaprendeu a viver. E hoje está bem e segue lutando. Talvez você já conheça Yeonmi Park deste vídeo aqui que estava no Facebook Há alguns anos atrás. Talvez já tenha chorado com ela, como eu chorei. Também lamentou o fato de uma menina tão bonita, tão aparentemente frágil, ao invés de estar preocupada com a banda do momento ou com a roupa que vai vestir para ir à casa da amiga estar se preocupando em salvar a família. Mas vale a pena conhecer Yeonmi e apoiá-la. E a cada ser humano oprimido sobre a terra. 

BOA LEITURA! 📚


"Todo conceito de religião era estranho para mim. Na Coreia do Norte só cultuávamos os ditadores Kim, e nossa fé estava no juche, a doutrina da autodeterminação nacionalista criada por Kim Il-sun. Praticar qualquer outra religião era estritamente proibido, e se podia ser morto por isso."
(pág.168)

"Os norte-coreanos tinham duas histórias correndo em suas cabeças o tempo todo, como dois trens em trilhos paralelos. Uma é aquilo que ensinam você a acreditar; a outra é aquilo que você vê com os próprios olhos. Só depois que escapei da Coreia do Norte e li uma tradução de 1984, de George Orwell, é que achei uma palavra para essa condição peculiar: doublethink (duplipensamento na tradução para o português). É a capacidade de ter ao mesmo tempo duas ideias contraditórias na mente - e de algum modo não enlouquecer."
(pág. 70)

"Toda manhã acordávamos ao som do hino nacional retumbando no rádio fornecido pelo governo. Toda residência na Coreia do Norte é obrigada a ter um, e nunca se pode desligá-lo. Estava sintonizado em uma única estação, e era assim que o governo controlava você dentro de sua própria casa. "
(pág. 84)

"Mas após cinco anos praticando ser livre, sei agora que minha cor favorita é o verde-primavera e meu hobby é ler livros e assistir documentários. Não estou mais copiando as respostas dos outros."
(pág.247)

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