7º LIVRO DO ANO #12Llivrospara2017

"DOM CASMURRO", MACHADO DE ASSIS



"Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana oblíqua e dissimilada."



Já aviso de antemão que esse texto pode conter vários spoiler... até porque é difícil que você tenha passado imune por "Dom Casmurro". Até eu, que já contei aqui que não fui obrigada a lê-lo na escola, já o li uma vez espontaneamente... Esta é, portanto, uma releitura que também foi o livro-meta do mês de fevereiro do meu desafio #12livrospara2017! Fiz minha leitura no Kindle e posso garantir que é muito fácil ser conquistada por essa história: a escrita em forma de lembranças do protagonista é muito clara e fluida, uma narrativa que vai acontecendo sem muitas firulas em capítulos curtos e que sempre tem continuidade como se fossem parte de um mesmo capítulo, entende? Como se Machado simplesmente continuasse a escrever, mas desse uma pausa, um respiro. Ou seja, livro de fácil absorção.

Se, por algum acaso, você não conhece a história, toma aqui:

Bentinho (Bento Santiago) e Capitu (Capitolina Pádua) são  vizinhos na rua Matacavalos, no Rio de Janeiro dos anos 1850. As famílias são tão íntimas que há uma portinhola de comunicação entre os quintais, através do muro. Desde cedo, ambos são habituados a estarem juntos, brincarem juntos. Conforme a adolescência vai chegando, fica óbvio que Capitu e Bentinho são apaixonados, mas há entre eles um empecilho: a mãe de Bentinho, Maria da Glória Fernandes Santiago, após perder o primeiro filho, promete que o próximo que viver será  padre ( como parece que era muito comum antigamente fazer promessas a serem cumpridas por outras pessoas)... Com alguns acertos e auxílio (especialmente do "agregado" José Dias... interessante esse termo, esse José Dias era uma espécie de "protegido" da família), ele consegue ir para o seminário mas sair após um período curto de tempo, indo formar-se advogado. Porém, ele conhece no seminário Escobar (Ezequiel Escobar) que passa a ser o grande amigo do rapaz, frequentador de sua casa e de sua intimidade...

Pois bem, o tempo passa, Capitu e Bentinho se casam, Escobar casa com a melhor amiga de Capitú, Sancha e a vida segue. Bentinho é apaixonado plenamente pela esposa e ela também parece sê-lo por ele. Ele é ciumento, mas parece que isto não chega a incomodar Capitu.  Escobar e a esposa também  vivem bem, tem uma filha que foi batizada de Capitu... E Bentinho e Capitu não conseguem ter filhos... Dois anos depois do casamento e Capitu segue pedindo em orações seu pequeno... Ninguém sabe dizer o motivo, até porque estamos numa época em que a medicina se baseia em vomitórios e e sanguessugas, imagine se havia investigação quanto ao motivo de uma mulher não gerar filhos.

Porém, um dia, acontece: Capitu engravida, que alegria que maravilha, vivas... nasce um belo e robusto menino que é batizado de Ezequiel, em homenagem ao amigo tão estimado pelo casal (sim, esse é o nível de consideração entre eles).

A criança vai crescendo em saúde e inteligência, porém, um certo dia, o pai passa a reparar que ele é um excelente imitador. Tem por hábito imitar os trejeitos dos parentes e amigos beirando a perfeição. Mas Bentinho e Capitu chamam sua atenção para que não faça isso. Capitu chega a irritar-se, já Bentinho é mais condescendente... Até que um dia ele repara que o garoto imita bem até demais o "tio" Escobar. Mais do que isso, ele começa a notar certas semelhanças entre o filho e o amigo: o jeito de andar, o jeito de olhar... Já não é imitação, é físico mesmo.  E, por ser um homem ciumento, essa paranoia vai crescendo em sua cabeça. Vira uma obsessão. Ele começa a destratar a criança que é louca por ele, afastar-se de sua esposa por essa desconfiança aumentar dia-a-dia...



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Acontece que Escobar morre. Afogado. Muita tristeza, muita dor. Todos desesperados, chorando e Bentinho repara que Capitu está impassível, controlada. Mas, no meio do velório, Bentinho repara um olhar - um único olhar - que Capitu dá ao defunto... E para ele, tudo está explicado e concluído ali. Simples assim. Era só  que ele precisava para acabar com a sua felicidade. 

E é aí a grande tragédia. Bentinho vai enlouquecendo, não literalmente, mas ficando obcecado pela ideia de que foi traído. E você, caro leitor, vai enxergando a  história pelos olhos dele: Capitu engravidou uma única vez, era um tanto quanto dissimulada quando mais nova (não é contada nenhuma aventura da menina, mas ela tem uma facilidade enorme em disfarçar quando ela e Bentinho eram flagrados segurando as mãos um do outro ou se aproximando...Ele ficava sem graça, perdido enquanto ela conseguia contornar a situação com maestria...) No confronto, Capitu fica ofendida, mas também não parece tão insultada assim...Ela não nega, mas também não assume nada.


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Mas o grande barato dessa história é esse: se você escolhe aceitar o olhar de Bentinho sobre a situação, com certeza encontrará culpa em Capitu e Escobar. Mas, por outro lado, você pode também entender Bentinho apenas como um ciumento paranoico. Confesso que já perto do final do livro eu sentia raiva dele. Ele simplesmente tornou-se um poço de rancor e amargura, muitas vezes maldoso mesmo! 

Bentinho é filho único de uma viúva que transformou-se em super protetora. De família bem de vida, é fácil enxergá-lo como um "burguesinho " de sua época... A mãe tem propriedades (casas e escravos) e pode proporcionar uma boa vida ao rapaz, parte de um mundo conservador. A riqueza faz da família parte da aristocracia latifundiária. A família de Capitu é bem situada, mas ao custo de muito trabalho de seu pai. Ou seja, são crianças mimadas, bem nascidas...

O prefácio dessa edição que li é muito bom, com muitas informações interessantes sobre o autor e a época em que se passa a história, quando Bentinho está já mais velho e ensimesmado com sua "casmurrice" nos anos 1890, mas sua história com Capitu se passa por volta de 1850...

Livro delicioso de se ler, história que faz você pensar sobre ela. Cheia de vieses, "Dom Casmurro" deixa para sempre no ar a dúvida... e isso faz dessa uma narrativa imperdível de um dos maiores (se não o maior) escritor brasileiro de todos os tempos.

BOA LEITURA!😊📚📚📚

"Naquele tempo, por mais mulheres bonitas que achasse, nenhuma receberia a mínima parte do amor que tinha por Capitu."

"A natureza é simples. A arte é atrapalhada."

"Típico ciumento: monta o teatro dentro da própria cabeça e ninguém o convence do contrário."

"Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo."


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