8º LIVRO DO ANO

"MISSOULA", JON KRAKAUER



O estupro é, com certeza, o crime mais difícil de discutir, também é o mais cruel ato que possa ser imposto a alguém. Homens e mulheres que passaram por isso carregam consigo marcas profundas; algumas no corpo, mas principalmente emocionais. É uma dor, um medo, que pode ser eterno...  Porém, com tudo isso, também é considerado um crime que (pode ser) de difícil comprovação. Quase sempre envolve apenas duas pessoas dizendo coisas completamente opostas...  e também porque o ser humano é feito de muitas nuances – nem todas elas são positivas... 

A ideia que muitos ainda carregam em seu subconsciente é aquela do estuprador espreitando atrás do muro ou saindo do meio do mato com uma faca na mão. Ah, e estupro é só quando a mulher grita, esperneia e morre se for preciso para impedir que o bandido cometa o ato. Fazendo uma pobre analogia, é mais ou menos parecido com o que cresci ouvindo sobre o perigo em desprezar o homem vestido com simplicidade que bate à sua porta para pedir comida enquanto o engravatado que é bem recebido simplesmente por sua aparência rebuscada é um ladrão. Ou seja, para caracterizar estupro, o homem deve ser um desconhecido ameaçador e a mulher deve lutar bravamente ou dar sua vida para impedir a situação.

Isso é simplificar algo muito, muito mais complexo... 

E quando o estuprador não é um desconhecido ameaçador – e quando ele é alguém muito conhecido?

No livro “Missoula” o incrível jornalista Jon Krakauer (do também fantástico “Na natureza selvagem”) vai nos mostrar através de sua escrita clara e concisa como uma epidemia de estupros e agressões sexuais assolou (?) o campus da Universidade de Missoula, em Montana (EUA), uma típica cidade universitária. O autor aborda algumas dessas agressões desde o momento que aconteceram até chegar (quando chegam...) aos tribunais, ouvindo todos os envolvidos e as versões de cada um deles. É quase um thriller de tribunal, não fosse o fato de que é a vida de muitos jovens, realmente, em jogo e o quanto isso pode ser terrível.... Um agravante no caso: a Universidade possui um time de futebol americano – os Grizzlies – que tem destaque no campeonato nacional e é amado pela maioria dos moradores locais. Alguns de seus atletas parecem interpretar isso como uma “licença” para fazerem o que tiverem vontade... especialmente com as mulheres, muitas vezes suas amigas ou conhecidas.

É um livro denso, em alguns momentos difícil de ler. É emocionante, apavorante (especialmente para mim, mãe de uma “caloura” de 20 anos), esclarecedor e revoltante. E digo revoltante porque estamos em pleno século 21 e ainda assistimos jovens rapazes achando que o fato de uma mulher estar bêbada lhe garante o “passaporte” para o sexo casual. Ou o fato de uma mulher dizer “sim” não pode ser substituído por um posterior “não” – como se apenas a primeira resposta fosse válida. Como o autor optou por nos mostrar tanto a versão da vítima quanto as atitudes posteriores dela, é também uma aprendizagem para entendermos um pouco como funciona o emocional de quem sofre uma violência desse nível (que, em geral, passa por alguns processos: tentar entender o que houve, negar a situação, aceitá-la às vezes meses depois de ocorridas especialmente quando começa a mudar atitudes e sentir medo constante, criar coragem para denunciar) e também o emocional do agressor ( que em geral não se considera um estuprador, pois entende que a situação em que ocorreu o sexo foi de alguma forma consentida... eles conseguem encontrar os motivos mais esdrúxulos para justificar o que afirmam; além do fato de ser um atleta - portanto, alguém diferente da maioria local - e ter sido bem criado - sempre há o testemunho dos pais; também vitimizados pela atitude do filho, amigos, pastor da igreja e por aí vai...)

De uma maneira muito clara, Krakauer vai nos guiando pelo calvário que a maioria das vítimas passa, a começar pelo atendimento na delegacia – em geral tratada com desdém e tendo de responder perguntas no mínimo de cunho duvidoso – tipo, se tem namorado (pois se a moça tem namorado e o traiu pode inventar que foi estuprada para se safar – é esse o tipo de tratamento) até chegar ao tribunal e ser muitas vezes descrita como uma histérica ou como uma pessoa leviana. Veja bem, são situações vividas por mulheres muito jovens, com idade entre 19-23 anos que escolheram denunciar seus agressores e assim impedi-los de reincidirem e que vão contar sua história, duas, três, quatro vezes para desconhecidos. Apenas imagine a situação descrita.

Os rapazes também são muito jovens, mas nesse ponto acho importante ressaltar: o que poderia justificar um homem jovem, popular, saudável estuprar uma mulher? Qual a necessidade desse ato? Instinto? Excesso de álcool ou outras substâncias? O quê? Como não há nenhum outro colega para dizer "Pare com isso, é errado!" Será utopia da minha parte desejar isso? Enfim...

É um livro que te traz muitas perguntas e convida à análise de nossa sociedade, de nosso mundo, de nós. Qual a educação que estamos dando à nossos filhos? As mulheres lutam há anos para não serem vistas como objetos; ganhou força um importante movimento feminino voltado para isso: chamar a atenção sobre como tratamos os sexo feminino. Mas, é certo e não sou eu que cheguei a essa conclusão, é uma luta árdua contra um pensamento aceito há anos, séculos, milênios. E quando vemos nossos jovens dizendo-se donos de seus corpos, mas estuprando a amiga meio bêbada ou tendo já um comportamento de caça- caçador (analisando em uma festa quem pode ser mais facilmente embriagada, por exemplo) é muito, muito preocupante.

O livro é angustiante em alguns momentos, emocionante em outros e revoltante quase o tempo todo. Mas, sem dúvida, essencial para fomentar essa discussão tão necessária: o que se tem feito (?) quanto ao considerável aumento de casos de abuso sexual dentro do campus da UM -Univesidade Missoula, o lar do time de futebol dos  Grizzilies? E como esse acontecimento ali reflete de alguma forma o comportamento comum dos jovens na sociedade como um todo? Jon Krakauer faz mais uma vez um excelente trabalho ao investigar tudo isso.

“NÃO” significa “NÃO”. Mesmo que a mulher tenha concordado antes, mesmo que vocês já estejam no quarto, mesmo que já estejam na cama se for o caso. "NÃO" só significa isso mesmo.

Não consegui escrever um texto diferente deste... Já tentei por duas vezes falar apenas do livro, tratar como uma leitura que foi importante, mas estas histórias mexeram muito comigo. Entendo que haja a situação de risco, mas ela não existiria se houvesse mais empatia e altruísmo e também menos bebida (como a juventude se embebeda facilmente!). As meninas não devem parar de ir a festas, são os meninos que devem parar de estuprá-las. E com isso não estou culpabilizando todo o sexo masculino, estou tentando compreender como sempre, sempre acontece da mulher nesses casos ser a "culpada", a "facilitadora", a "punida". Ela arca com a consequência de sua irresponsabilidade... e o estuprador, arca com o que? Ele também não foi responsável? É uma discussão que ainda dá voltas em minha mente...

Se, assim como eu, você quer ter um panorama mais amplo sobre até onde tudo isso está chegando, assista dois documentários incríveis (disponíveis no Netflix) para te fazer pensar e analisar um pouco mais esse tema:

  •     "The hunting Ground”, documentário de Kirby Dick, que mostra o problema que Jon Krakauer expôs em Missoula acontecendo de forma alarmante por várias Universidades americanas (estarrecedor ver que a vítima é sempre a primeira a ser punida...)
"             "Audrie & Daisy", documentário de Jon Shenk e Bonni Cohen, que mostra como duas adolescentes acabaram expostas na internet após sofrerem agressões sexuais (o mais impressionante é como as coisas vão caminhando aparentemente bem e , de repente, tudo degringola... muito triste...)



              BOA LEITURA!📚📚📚
           

                        "Naquele momento, me ocorreu que... por mais que eu tentasse separar a pessoa que me estuprou da pessoa com quem cresci, tive que me dar conta de que elas eram uma só..."
                     ( pág. 266)

         "Estima-se que aproximadamente 85% dos estupros são de fato cometidos por agressores que estão de alguma forma relacionados a suas vítimas..."
   ( pág. 162)

         









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