12º LIVRO DO ANO

"A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER", MILAN KUNDERA



Você já parou para pensar por que você está onde está? Por que tem a profissão que exerce hoje? Por que mora onde mora? Por que gosta de sair todo final de semana? Por que se isolou da sociedade? Em qual momento, por qual influência você decidiu fazer algo que mudou tudo o que estava em seu caminho? Ou optou por seguir uma "estrada" mais segura, conhecida? Você acredita que foi você que escolheu ou culpa alguém? Em que você acredita?

"A insustentável leveza do ser" traz, ao longo de sua narrativa, inúmeros questionamentos, análises e explicações que a princípio falam dos personagens ali criados pela mente de um homem brilhante. Mas é impossível não trazer para a sua vida a discussão que Milan Kundera propõe. Quem nunca se perguntou ou por um breve momento imaginou sua vida diferente do que é hoje ou o momento que poderia ter mudado tudo?

Vamos ao livro:

A história gira em torno de dois casais: Tomas, Tereza, Sabina e Franz. Eles tem a vida interligada de uma maneira peculiar: Tomas, médico bem sucedido, tem inúmeras amantes - é um compulsivo sexual. Ainda assim escolhe como esposa Tereza. Tereza, a bem da verdade, não foi escolhida - escolheu Tomas numa tarde num café, com a certeza de que o livro que ele carregava era o sinal que esperado para encontrar alguém que fizesse a diferença em sua vida. Com tantas amantes, uma é especial  para Tomas : Sabina, mulher jovem e moderna, uma autêntica artista de alma livre, leve... que, por sua vez, também tem um amante : Franz, um homem maduro e belo, preso (por quais amarras?) a um casamento frustrado e frustrante...

Isso é apenas o fio condutor de uma trama complexa como a própria vida. Usando de muita filosofia e  questionamentos, Milan Kundera vai guiando o leitor por um estreito labirinto de escolhas que levarão cada um de seus personagens a chegar a um determinado ponto. Tereza escolhe ficar com Tomas, mas essa escolha também está embasada no conflituoso relacionamento que ela tem  com a mãe. Tomas, por sua vez, fica com Tereza, mas não abre mão de seus relacionamentos extraconjugais - inúmeros. Ele tem certa dificuldade em criar laços mais profundos se precisa sempre "correr atrás". Ainda assim, entende que ama a esposa - à sua forma, separa o sexo do amor. Já Sabina, no entanto, não se vê como amante de ninguém - ela já conseguiu livrar-se de algumas "amarras", alguns pesos que carregamos pela vida. Ela escolhe estar com quem quiser estar e viver a intensidade do momento. Franz é o mais perdido por aqui: vive um casamento de aparência, mas a chantagem emocional da esposa o deixa sem ação convenientemente. 

O pano de fundo para tantos conflitos é a Tchecoslováquia no final dos anos 1960, início de 1970. A chamada "Primavera de Praga" - movimento que buscava livrar o país do jugo Soviético de Stálin - estava a todo vapor. A influência desse movimento atingiu especialmente políticos, artistas, liberais e profissionais de destaque na sociedade. 

O autor coloca várias questões filosóficas por toda a história, sempre questionando as atitudes de consequências inevitáveis de cada escolha realizada. Não é só isso: também utiliza a questão política da época para mostrar como a complexidade da vida dos seres humanos. O tempo todo vamos nos deparando com o significado da vida, o peso das escolhas  que fazemos. Apesar de ser uma narrativa fácil de acompanhar, não é uma leitura leve - pelo contrário, o tempo todo nos coloca em xeque. Há muitas cenas de sexo, muitas discussões dolorosas advindas disso - o amor e o envolvimento emocional que nos traz compromisso e responsabilidades cobrados o tempo todo. Há alguns saltos no tempo (passado e futuro) que pretendem nos mostrar como cada personagem teve suas escolhas sendo construídas ao longo da vida. Mesmo o autor se "intromete" em algumas passagens, analisando suas crias por sua própria ótica, sem subterfúgios.

É um livro que, para mim, vai necessitar algumas releituras para ser compreendido mais amplamente. É bonito, tocante, mas com muitos significados que provavelmente nos toquem de maneiras diferentes dependendo do grau de amadurecimento do leitor, de suas vivências e expectativas. É um desafio, mas um desafio delicioso, porque você sempre será de alguma forma tocado por ele. 

BOA LEITURA! 📚


"Seu drama não era o drama do peso, mas da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."
(pág.122)

"Nunca se poderá determinar com certeza em que medida nosso relacionamento com o outro é o resultado de nossos sentimentos, de nosso amor ou não-amor, de nossa benevolência ou de nosso ódio, e em que medida ele é determinados de antemão pelas relações de força entre os indivíduos."
(pág. 283)

"A felicidade é o desejo da repetição."
(pág. 292)

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