13º LIVRO DO ANO

"MISTO QUENTE", CHARLES BUKOWSKI



"O que pode ser pior do que crescer nos Estados Unidos da recessão pós-1929? Ser pobre, de origem alemã, ter muitas espinhas, um pai autoritário  beirando a psicopatia, uma mãe passiva e ignorante, nenhuma namorada e, pela frente, apenas a perspectiva de servir de mão de obra barata em um mundo cada vez menos propício às pessoas sensíveis e problemáticas. Esta é a história de Henry Chinaski, o protagonista deste romance que é sem dúvida uma das obras mais comoventes e mais lidas de Charles Bukowski (1920-1994)."

Esse é um trecho do texto que está na quarta capa da edição da L&PM POCKET sobre "Misto Quente", um romance de formação com toques autobiográficos, pois muitas situações vividas por Henry, nosso protagonista, são vivências do próprio autor. Bukowski é considerado um dos últimos representantes do que foi chamado de "escritor maldito". Sua obra é permeada de bebedeiras, prostitutas, sexo, ressaca, alcoolismo e todo tipo de situação/personagem marginal que em geral são varridos de nossas vistas no cotidiano, mas esfregados em nossa cara nesse tipo de história.

A narrativa é feita pelo próprio Henry, contando sua vida desde a infância pobre vivida em Los Angeles (como o  autor), as descobertas completamente autonomas do que é viver em uma sociedade que pode ser bem cruel com quem não se encaixa em seus padrões. Apesar de todos serem pobres e estarem na batalha, os amigos desde cedo são divididos em fortes e fracos, famílias funcionais ou não. Bullying era coisa pouca... E não havia a preocupação de se inteirar sobre o que estava acontecendo na vida de um filho - isso era visto como forjar o caráter de um homem forte. 

Bobagem...

É uma carga muito pesada para alguém em formação carregar sozinho. Hoje pecamos pelo excesso, tentando compensar algumas culpas e tornando nossos filhos eternos dependentes. Naquela época, muito cedo se julgava que o filho tinha que "resolver seus problemas" sozinho.  Algumas situações chegam a ser ofensivas, violentas...  mas nada que quem cresceu na periferia e estudou em escola pública nesse "mundo" chamado Brasil não reconheça como uma possibilidade ou mesmo tenha presenciado. Acredito que seja mais chocante saber que muitos jovens de hoje tem a mesma formação de Henry Chinaski em 1930.

Os pais de Henry chegam a ser irritantes tamanha  a distância entre os dois! A mãe é passiva e faz de conta que não percebe a opressão exercida pelo pai (ou se adapta a ela rapidamente). Ele,  um homem bruto, sem nenhum tipo de carinho ou atenção para a família, orgulhoso e arrogante, agressivo... se eu for ficar escrevendo tudo o que eu achei do comportamento desse homem não acabarei hoje! Ele é, sem dúvida , o personagem que mais me incomodou. Óbvio, a coisa deve ser vista pelo viés da época (anos 1930, principalmente) onde o comportamento desagradável desse ser devia ser mais comum do que se imagina. E, como eu já disse, não deve ser difícil de encontrá-lo em muitos lares de hoje.

Henry, o protagonista, também não é lá muito simpático, até porque ele teve que muito cedo aprender a lidar com situações grotescas, fosse na rua com seus amigos ou dentro de casa com seu pai. A narrativa é a descoberta do mundo pelo menino, primeiro como criança e depois - a fase mais crítica - como adolescente. Henry adolescente chega a dar pena, porque ele começa a se armar contra o mundo, decide encarnar o papel de durão - sendo que, internamente, a cabeça dá voltas sobre o que é a vida, o que é encarar esse mundo cruel todo dia, se é só isso mesmo, o que será dele, como se encaixar nessa sociedade que ele detesta... Eu senti raiva em alguns momentos, mas é fácil analisar o contexto e ver que as opções para ser diferente do que ele se tornou eram muito poucas... Mais uma vez, é fácil traçar um paralelo com o que vemos acontecer em nosso país que é formado por uma grande periferia onde a pobreza moral/educacional/financeira/emocional vai produzindo vítimas que estarão no mercado de trabalho/ tráfico/ marginalidade com uma velocidade incrível. Um ciclo que vai nos condenando continuamente.

Livro bom é livro que mexe com seu emocional - e Bukowski faz isso magistralmente ao acompanharmos a (sua?) trajetória de Henry. Você ama/odeia/compreende/contesta/questiona o tempo todo o comportamento dele. Sei que em alguns momentos eu estava lendo e a expressão no meu rosto dizia exatamente o que eu estava sentido : raiva, nojo, medo, piedade....

Excelente leitura! Aproveite!📚


"Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enojado. Pensar em ser um advogado ou professor ou um engenheiro , qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível." 
(pág 212)

"Eu havia rompido com a religião alguns anos atrás. Se houvesse alguma verdade por trás dela, era uma verdade que idiotizava as pessoas ou atraía mais idiotas. E se por acaso a religião não contivesse em si verdade nenhuma, os tolos que nela acreditavam seriam duplamente idiotas (pág.153)

"Tudo que um cara precisava era de uma chance. Alguém estava sempre controlando quem merecia ou não essa chance." 
(pág 67)

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